Romaria Bíblica

Dom Benedito Araújo

Administrador Apostólico de Porto Velho e Bispo Diocesano de Guajará-Mirim- RO

Irmãos e irmãs desta região pastoral do cone sul da nossa diocese de Guajará Mirim; no ano de 2013 a I romaria aconteceu na Paróquia Cristo Rei em Cabixi, onde de forma muito envolvente foi trabalhado o encerramento das atividades do Ano da  Fé.

Neste último domingo do mês de setembro celebramos o dia da Bíblia, e com esta romaria nós confirmamos a formação e enviamos para a missão 300 irmãos e irmãs da Escola Bíblica Catequética que foi assumida pela região Pastoral sul que é formada pela Paróquia N. S. Aparecida – Município de Colorado do Oeste, Paróquia Cristo Rei – Município de Cabixi- Paróquia N. S. do Perpetuo Socorro – Município Corumbiara e a Paróquia Cristo Salvador – Município de Cerejeiras.

É uma alegria poder participar desta romaria e saber que somos convocados pela força da Palavra de Deus, para sermos testemunhas desta Palavra e através dela termos a oportunidade de conhecermos a Deus e também o seu plano de amor para conosco.

Nós partilhamos da dor de todos pelos nossos 5 irmãos envolvidos na tragédia do acidente de  Porto Velho.  Nossas condolências a família Procópio de Cabixi, família Barreto de Porto Velho, família Pereira de Corumbiara; o Messias pertencia ao grupo de música e liturgia da Paróquia de Corumbiara. Inclusive ele deveria ser um dos músicos animadores desta Romaria.

Nossa comunidade católica quer externar aos seus familiares, toda comunhão, desejando que a consolação que brota da Palavra e do espírito de Deus seja o alento de todos nestas horas difíceis das nossas vidas.

A Palavra de Deus que acabamos de ouvir, nos alerta que Deus concede seus dons com liberdade para o bem de todos, logo os dons em hipótese alguma podem ser privatizados ou restritos a determinadas pessoas ou instituições. Afinal, “ninguém é dono de Deus”.

Na primeira leitura – Livro dos Números – temos o relato da efusão do Espírito de Deus não somente sobre Moisés, o grande líder do êxodo, mais também sobre muitas outras pessoas que começaram a profetizar. 

A tentativa de proibição da parte de Josué é corrigida por Moises, pois o que importa  é que os dons de Deus distribuídos conforme sua vontade, sejam acolhidos e administrados para o bem de todos.

Situação semelhante, nós encontramos no Evangelho de Marcos. “Mestre, vimos alguém expulsando demônios em teu nome e o impedimos, porque não nos seguia” (Jo 9,38) – ‘Mestre, nós vimos alguém fazendo o bem em teu nome e o proibimos, porque não era dos nossos´. 

Os discípulos se sentiram privilegiados, escolhidos e enviados por Jesus para uma grande missão o que eles não esperavam é que outras pessoas, além deles pudessem realizar as mesmas obras. Ficaram aborrecidos e enciumados  como Josué, conforme ouvimos na primeira leitura.        

Esta atitude revela o mais alto grau de imaturidade demonstrado pelos discípulos de Jesus, e pode ser a doença do nosso ministério hoje quando julgamos e proibimos independentemente de fazer a experiência da acolhida, do encontro e da  misericórdia a serviço da vida em abundancia. 

Caríssimos irmãos e irmãs, meditando a Palavra de Deus neste encerramento do mês da Bíblia, recordo as Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil para os anos de 2015 a 2019 que nos exorta citando que nós somos incentivados através de uma dinâmica de conversão pastoral no seio de uma Igreja comunidades de comunidades a nos empenharmos em uma animação bíblica da vida e da pastoral. 

Isso nos faz recordar também, a II Carta a Timóteo que diz: “Toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça” (II Tm 3,16).

Na caminhada cristã, na nossa incansável busca da maturidade cristã, não podemos dissociar a vida da Palavra de Deus. Vida e Palavra estão intimamente ligadas; como afirma São Gerônimo; “Ignorar as Escrituras é ignorar o próprio Cristo”.  

O discípulo missionário, a discípula missionária “acolhe e vive a Palavra de Deus em comunhão com a Igreja (…) assim a Palavra é saboreada, sobretudo, em espírito eclesial” (Doc. 102 Cnbb, nº 52.

É neste espírito de intimidade e maturidade com a Palavra que  o cristão descobre que “a Palavra de Deus é luz para vida (Sl 119,105). 

Pelo Brasil afora, quantas comunidades se nutrem dominicalmente da Palavra de Deus, experimentando a força deste alimento salutar. 

Quanta riqueza evangelizadora acontece nos círculos bíblicos, nos grupos de reflexão, nos grupos de quadra e outros” (Idem nº 53). Uma prova disto é o esforço das nossas paróquias, dos nossos padres, dos nossos professores, das nossas religiosas, das nossas liderança diante dos desafios para promover e perseverar na formação permanente da escola bíblico catequética nesta região pastoral do cone sul.

Por outro lado, é triste e vergonhoso, mais “infelizmente, também podemos constatar que a Bíblia, algumas vezes, não é compreendida como luz para a vida. Ao contrário, é instrumentalizada” (Idem nº 50), sendo instrumento de alienação, de ações proselitistas e fanáticas enfim, instrumento de dominação do outro.

A intenção de celebrarmos festivamente o mês da Bíblia, a intenção desta romaria bíblica, a celebração do banquete do Senhor, a nossa partilha daqui a pouco,  é sobretudo para que possamos como povo de Deus reavivar a nossa paixão  pela sabedoria que brota da Palavra. 

E na força da Palavra nos comprometer com a edificação de relações sociais justas centradas  na paz na justiça e na solidariedade.

 

 

 

 

Peregrinação ao túmulo de São Pedro

Dom Adelar Baruffi

Bispo de Cruz Alta

“Sois testemunhas do Ressuscitado. Esta é a vossa tarefa primordial e insusbstituível.” Estas palavras são parte da mensagem que o Papa Francisco dirigiu-nos, no dia 10 de setembro, na Sala Clementina, no Vaticano. O inesquecível encontro com o Papa fez parte da Peregrinação ao túmulo de São Pedro, um congresso que reuniu 124 bispos recém-ordenados, de 37 diferentes nações do mundo. Do Brasil éramos 16, o maior grupo. 

Experiência de comunhão e catolicidade

O título do encontro, que aconteceu do dia 07 a 16 de setembro, em Roma, indica que não se tratou primeiramente de um curso para aprofundar temáticas referentes à nossa missão, mas de uma peregrinação. Tem a ver com nossa fé. Faz-nos compreender que o episcopado não é somente uma função, uma tarefa a realizar. Trata-se, antes, de um vínculo essencial com Jesus Cristo e com toda a Igreja, na sucessão apostólica, para continuar, hoje, a missão que o Ressuscitado confiou aos apóstolos de anunciar o Evangelho a toda a criatura. Esta missão é realizada na comunhão com todos os bispos do mundo, o colégio apostólico, com Pedro, que, como bispo de Roma, preside a Igreja na caridade. Assim, o bispo é, ao mesmo tempo, o Pastor da Diocese que lhe foi confiada e tem uma solicitude por toda a Igreja. A mesma Igreja de Jesus Cristo se manifesta de muitos modos, nas diferentes culturas, constituindo o mesmo Povo de Deus peregrino em todo o mundo. É a catolicidade da Igreja, sua universalidade. 

O Papa, sinal de unidade

Nosso encontro com o Papa não foi uma simples visita. Foi um sinal concreto de nossa comunhão com o sucessor de Pedro. Diante do túmulo de Pedro fizemos a profissão de fé da Igreja. Ao nos saudar, destaca-se, sobretudo, o seu modo paterno e afetuoso que demonstrou. Acolheu-nos, encorajou-nos, mostrou-nos o que é o mais importante em nossa missão. Seu olhar penetrante, o aperto de mão generoso e suas sábias palavras manifestam sua paternidade espiritual.

Guias espirituais, mistagogos e missionários

Nossa missão inicia com os fiéis que “são de casa”, disse-nos o Papa. Para estes, quais guias espirituais, sejamos “capazes de lhes pegar pela mão e de subir com eles ao Tabor (cf. Lc 9, 28-36), guiando-os ao conhecimento do mistério que professam”. Com os que não vivem a fé recebida no batismo “dedicai tempo para os encontrar ao longo do caminho do seu Emaús. […] Mais do que com palavras, entusiasmai o seu coração com a escuta humilde e interessada no seu verdadeiro bem, até que se abram os seus olhos e eles possam inverter a rota, voltando para Aquele do qual se tinham afastado.” Aos que “não conhecem Jesus”, “caminhai na sua direção, parai diante deles e, sem medo nem sujeição, vede a que árvore subiram (cf. Lc 19, 1-10). Não tenhais receio de os convidar a descer de imediato porque, precisamente hoje, o Senhor deseja entrar na sua casa.” Assim, no episódio da Transfiguração, dos Discípulos de Emaús e de Zaqueu, mostrou-nos os ícones da missão do bispo. 

Concluo transmitindo a toda nossa Diocese a bênção que o Papa Francisco nos deixou. Na comunhão com toda a Igreja vivemos a “alegria do Evangelho” em nossas famílias e comunidades. 

 

 

Missão da família

Dom José Alberto Moura

Arcebispo de Montes Claros (MG)

Hoje os vários tipos de convivência familiar dependem da história de cada pessoa, de sua cultura, de seu ambiente e dos influxos da sociedade e, não menos, da mídia. Muitos se casam para buscar e ter a felicidade. Este é um termo de muitas conotações.

No referencial da família, a felicidade ou a realização gratificante ou prazerosa e  contínua de todas as pessoas nela envolvidas, inclui a parte logística ou de estrutura material, psicológica e religiosa. No entanto, se não for permeada de um ideal elevado a ser buscado em comum, dificilmente se consegue seu objetivo. É o mesmo que querer um corpo saudável sem o sangue a circular por suas veias! Se o ideal de felicidade não tiver a iluminação divina, ele fica embaçado e pode levar as relações humanas a ruírem, como acontece com freqüência.

O casamento é uma instituição inerente à pessoa humana (Cf. Gênesis 2,18-24). Mas o Filho de Deus a elevou à vocação e missão marcadas pelo dom divino de sacramento. Isso significa que a união perseverante do homem e da mulher no matrimônio é permeada pelo amor humano permeado pelo divino. As pessoas o assumem, comprometendo-se a realizar um projeto de vida com  a vocação matrimonial para um ajudar o outro. Isso ocorre dentro das respectivas condições de igualdade de missão na diferença de função, conforme sua masculinidade e feminilidade, colocando tudo em comum. Assumem juntas a paternidade e a maternidade no mútuo apoio para amarem e educarem os possíveis filhos para a vida em plenitude. 

A marca da convivência dos cônjuges, nessa perspectiva cristã, é o amor continuamente crescido em humanidade e na graça de Deus. A família assim constituída tem força para superar as diferenças das pessoas, as dificuldades da vida e os problemas de convivência, buscando energia espiritual da religiosidade vivida em comunidade. Esta se torna um suporte importante para dar subsídio emocional e sobrenatural para a família. A própria comunidade religiosa é uma verdadeira família a subsidiar espiritualmente as famílias constituídas pelas pessoas com o sacramento do matrimônio. As pessoas e famílias, que têm dificuldades inerentes aos problemas de constituição e prática familiares, encontram aí força e estímulo para o  cumprimento de sua vocação.

Mas a família cristã tem também missão especial em relação à sociedade: a de ser geradora de pessoas que ajudem a promoção da cidadania para todos. A marca da formação nessa família fundamentalmente é a da formadora do caráter. Deste modo seus membros tornam-se presença qualificada de ética, honestidade e compromisso com o bem comum. Usam os dons pessoais para servirem o semelhante. É verdadeira missão de servir. Isso só é entendido quando o matrimônio é assumido como vocação. A união só por outros interesses não significa ser família com o enfoque acima referido.

A iluminação do ideal motivado pela fé religiosa leva a família a se estruturar baseada no amor eminentemente oblativo, com seus membros colocando tudo em comum para buscarem a realização humana, progressivamente,  com os ditames do projeto do Criador. É a convivência no amor, que leva cada um a cooperar com a plena realização do outro, até com o sacrifício de si. Quem ama verdadeiramente, dá de si com alegria! A família que vive na interação das pessoas com essa atitude é feliz e vive e transmite alegria!