O Sínodo dos Bispos  (de Paulo VI a Francisco)

Dom Tarcisio Nascentes dos Santos
Bispo de Duque de Caxias (RJ)

Concluiu-se há pouco, no dia 25 de outubro, a XIV Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos sob o tema “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”. Julgamos, então, oportuno, oferecer algumas considerações sobre o Sínodo dos Bispos, conforme vem se expressando desde 1965 até aos dias de hoje.

Como bem observa Juan Esquerda Bifet, em seu Dicionário da Evangelização, as reuniões episcopais, a nível local ou universal, quando expressam a colegialidade dos Bispos, chamam-se “sínodos” (= caminhar juntos) ou “concílios”. Desde os primeiros séculos, realizaram-se essas “assembleias” ou “sínodos” episcopais, em nível regional (provincial ou regional, desde metade do século II) e ecumênico (universal, desde Niceia, em 325). Esta realidade histórica é assim expressa pelo Concílio Vaticano II, no n. 36 do Decreto “Christus Dominus”: “Desde os primórdios da Igreja, os Bispos, colocados à testa de Igrejas particulares, levados pela comunhão fraterna da caridade e pelos cuidados da missão universal confiada aos Apóstolos, uniram suas energias e suas vontades na promoção do bem tanto comum quanto de cada uma das Igrejas. Por esta razão constituíram-se Sínodos ou Concílios provinciais ou, enfim, Concílios plenários. Neles, os Bispos estabeleceram, para as várias Igrejas, um teor comum a ser observado tanto no ensino das verdades de fé quanto na organização da disciplina eclesiástica”. 

O importante da sinodalidade episcopal – como observa ainda Bifet – é sua função colegial; trata-se de um serviço de comunhão universal, expressão da comunhão dos Bispos entre si e com o Romano Pontífice. 

O atualmente chamado Sínodo dos Bispos é uma instituição querida pelo Vaticano II, como representação do episcopado e como ajuda ao Sumo Pontífice na “solicitude pela Igreja universal” (cf. CD 5). Instituído pelo Beato Paulo VI, aos 15 de setembro de 1965, com o Motu Proprio Apostolica sollicitudo, o Sínodo dos Bispos – que acaba, portanto, de completar 50 anos – está diretamente sob a autoridade do Papa, a quem compete convocá-lo e indicar as linhas gerais de atuação. O Código de Direito Canônico assim se expressa no cân. 342: “O Sínodo dos Bispos é a assembleia dos Bispos que, escolhidos das diversas nações do mundo, reúnem-se em determinados tempos, para promover a estreita união entre o Romano Pontífice e os Bispos, para auxiliar com seu conselho ao Romano Pontífice, na preservação e crescimento da fé e dos costumes, na observância e consolidação da disciplina eclesiástica, e ainda para examinar questões que se referem à ação da Igreja no mundo”.

Ao longo do pontificado do Beato Paulo VI realizaram-se quatro Assembleias Sinodais (três ordinárias e uma extraordinária). No longo pontificado de São João Paulo II foram ao todo quinze: seis ordinárias, uma extraordinária e oito especiais. Com Bento XVI tivemos cinco Assembleias Sinodais (três ordinárias e duas especiais). Com o Papa Francisco já são duas: a III Assembleia Extraordinária em 2014 sobre “os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”, e, neste outubro de 2015, a XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre “a vocação e a missão da família no mundo contemporâneo”.

Gostaríamos ainda de recordar, em razão dos inúmeros Sínodos de seu Pontificado, que São João Paulo II, aos 17 de outubro de 1978, no dia seguinte à sua eleição para a Cátedra de Pedro, em sua primeira Mensagem dirigida ao mundo, por meio da rádio e da televisão, entre outras coisas, convidava a um aprofundamento daquilo que comporta a Colegialidade, aquele vínculo colegial que associa intimamente os Bispos ao Sucessor de Pedro e entre si, no desempenho do tríplice múnus que lhes foi confiado para o bem de todo o Povo de Deus. Movido pelo desejo de promover uma consciência episcopal cada vez mais lúcida e sempre mais atenta às suas responsabilidades, João Paulo II, entre os organismos que favorecem a Colegialidade, nomeava especialmente o Sínodo dos Bispos. Quanto à questão do Sínodo em relação a João Paulo II, julgo importante ter presente ainda a larga experiência acumulada pelo então Cardeal Karol Wojtyla, que, ao longo do pontificado de Paulo VI, foi membro de todas as Assembleias Sinodais e de todos os Conselhos da Secretaria Geral do Sínodo. De suas intervenções sinodais, uma, sobretudo, encerra particular importância para o tema da Colegialidade; trata-se da sua intervenção no Sínodo de 1969, onde apresenta como chave de leitura da Colegialidade, o conceito de communio.

 

Santidade: a alegria e a liberdade plenas para servir

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ)

 

 Existe, dizia Charles Peguy, uma só tristeza: a de não ser santo. Na solenidade de Todos os Santos a Igreja nos lembra da vocação universal à santidade homenageando todos aqueles que sofreram com Cristo e com Ele são glorificados. Nesta festa se incluem todos e todas que embora não figurem no Catálogo Oficial dos Santos, pertencem e estão inseridos plenamente na feliz família da comunhão dos santos.

 Nesta liturgia a alegria transborda por ver realizadas por inteiro tantas vidas que se doaram sem medida, seguindo com fidelidade a Jesus Cristo nosso irmão compassivo e Salvador. Com eles aprendemos que o caminho das bem-aventuranças não é um roteiro idealista mas um autêntico programa de vida que nos santifica e nos liberta. 

Esta festa desencadeia como falava São João Paulo II uma verdadeira pedagogia da santidade revelando as aspirações do nosso coração e o fascínio que sempre exercerão aqueles que buscaram sem reservas servir com amor a Deus e aos irmãos. Os santos nossos amigos e irmãos são nossos mestres e treinadores espirituais motivando-nos a dar o melhor de nós mesmos e a interpelar-nos como fez Santo Agostinho: se eles conseguiram porque também não posso chegar lá?

 Para ser santo é necessário quebrar clichés e estereótipos simplórios, não só religiosos, bispos ou padres podem ser santos, senão todos aqueles de todas as idades, condições, etnias, nações e posições sociais, que optem radicalmente por Cristo e decidam segui-lo sem amarras ou compensações. Muitos santos viveram entre nos uma vida muito simples, em nada diferente a seu povo e a seus vizinhos, mas realizavam de modo extraordinário o ordinário e comum, colocando amor em tudo e tornando-se um irmão/ã universal, isto é, acolhendo, reconciliando e dando a vida por todos/as. 

Assim como é verdade que uma alma santa eleva o mundo, que força não terá esta maravilhosa comunhão dos santos que nos envolve, nos estimula e nos desinstala? Eles oferecem o rosto da Esposa sem mancha, amorosa e fiel, transformando a Igreja em uma comunidade misericordiosa, cuidadora e promotora dos pobres e pequenos, samaritana e servidora. Que sejamos evangelizadores e missionários com o ardor dos santos, tomados e conduzidos por inteiro pelo. Espírito Santo. Deus seja louvado!

 

Todos os santos

Dom Alberto Taveira Corrêa

Arcebispo de Belém (PR)

A Igreja celebra duas realidades que se aproximam e são carregadas de ensinamentos para todos os cristãos. A Comemoração dos Fiéis defuntos, no dia dois de novembro, consta do Calendário Litúrgico da Igreja Católica. Com alegria constatamos que outras confissões cristãs e também outros grupos religiosos aproveitam a data da Igreja e relembram suas pessoas falecidas. “Para os que creem, a vida não é tirada, mas transformada; e desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível”, como rezamos na Liturgia de Finados. Tomando consciência da passagem pela morte, olhamos para frente e para o alto, com a Solenidade de todos os Santos. Na plenitude da vida em Deus está nossa esperança e nosso futuro!

A proposta da Igreja para todos os cristãos é a santidade, e alguém já cantava “ou santos, ou nada!”. No entanto, habituados demais ao ritmo algumas vezes modorrento da vida cotidiana, pode acontecer que percamos o rumo, não dando ao Senhor da vida todas as respostas aos seus apelos, ajeitando-nos na mediocridade. Vale a pena provocar-nos na estrada da santidade!

Ser santos! É proposta de Deus e de sua Igreja para todos. Não fomos feitos para o pecado e para a maldade. Primeiro passo é ter no coração um grande ideal, uma meta a alcançar, buscando o que agrada a Deus, o que faz bem para as pessoas e para nós mesmos, não cedendo ao derrotismo que se encontra à espreita. São João Paulo II, na Exortação Apostólica Novo Millenio Ineunte (NMI), recordou preciosos ensinamentos da Igreja: “Não hesito em dizer que o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade… É preciso redescobrir, em todo o seu valor programático, a Constituição dogmática Lumen Gentium (Cf. Lumen Gentium, capítulo 5), intitulado vocação universal à santidade… A redescoberta da Igreja como mistério, ou seja, como um povo unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, não podia deixar de implicar um reencontro com a sua santidade, entendida no seu sentido fundamental de pertença àquele que é o Santo por excelência, o três vezes Santo (Cf. Is 6, 3). Professar a Igreja como santa significa apontar o seu rosto de Esposa de Cristo, que a amou entregando-se por ela precisamente para a santificar (Cf. Ef 5, 25-26). Este dom de santidade, por assim dizer, objetiva é oferecido a cada batizado. Mas, o dom gera, por sua vez, um dever, que há de moldar a existência cristã inteira: Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação (1 Ts 4, 3). É um compromisso que diz respeito não apenas a alguns, mas os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade.” (NMI 30).

Ser Santos! Olhar para a plêiade de testemunhas qualificadas, a Virgem Maria, os Apóstolos e Mártires, Virgens e Confessores, homens e mulheres, crianças, jovens e adultos que oferecem às sucessivas gerações de cristãos a veemente proclamação de que o Evangelho é verdadeiro e possível de ser vivido. E basta olhar ao nosso redor, para descobrir pessoas admiráveis, sim, gente que podemos seguir pelo seu comportamento ilibado, por acreditar seriamente nos ensinamentos da Escritura e da Igreja. Não faltam mestres e mestras! Olhe para o lado!

Ser Santos! Olhar para o lado é também descobrir ao nosso redor pessoas que estão na mesma luta em que nos encontramos. Há grupos de cristãos que evangelizam com a liberdade de contar as próprias experiências, dando seu testemunho. Não se trata de pessoas perfeitas e “arrumadinhas”, mas gente que pode cair milhões de vezes e recomeçar, sempre olhando para a meta da perfeição e da santidade. Uma das coisas que aprenderam é que seus limites e qualidades, oferecidos e contados com respeito, tornam-se parte do tesouro da Igreja!

Ser Santos! Olhar para dentro, no íntimo da própria consciência, descobrindo-se como tabernáculo em que Deus quer habitar Ser Santos! Não das guaridas às sugestões do maligno, mas corrigir imediatamente os rumos das próprias escolhas, estabelecendo intenções boas e retas em todas as ações, não se permitindo duplicidade, fingimento e mentira. Há um espaço dentro de cada pessoa indevassável, onde só ela e Deus podem entrar. Ser santos é deixar a casa interior sempre arrumada!

Olhar para frente! Deus, quando nos perdoa, e ele perdoa sempre, não brinca conosco. Todas as pessoas que fizeram a experiência autêntica do valor do Sacramento da Reconciliação sabem o quanto é libertador ouvir as palavras da Absolvição e sentir que Deus cancelou suas culpas, queimando-as na fornalha da Misericórdia infinita que se encontra em seu Filho, Jesus Cristo. De fato, na Cruz foi pregada nossa vida passada, lavada no Sangue de Cristo. Olhar para frente significa ainda melhorar sempre e cada vez mais, pois quem permanece parado, já está regredindo!

Ser Santos! Olhar para baixo, não para pisar nas pessoas, mas mantendo a ordem de valores e escolhas pensada por Deus. Bens materiais, dinheiro, propriedades e qualquer tipo de apego devem passar por um processo de purificação. Ocupando lugar em nosso coração, seremos estragados por dentro! Aprendemos com o Evangelho: “Não ajunteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões assaltam e roubam. Ao contrário, ajuntai para vós tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, nem os ladrões assaltam e roubam. Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6, 19-21). Se estes valores são colocados ao nosso lado, tomam o lugar das pessoas a serem amadas como irmãs e irmãos. Se ficam acima de nós, desastre completo, pois tomam posse do lugar de Deus!

Ser Santos. É ainda São João Paulo II que toma a palavra: “A recordação desta verdade elementar, para fazer dela o fundamento da programação pastoral poderia parecer, à primeira vista, algo de pouco operativo. Pode-se porventura programar a santidade? Na verdade, colocar a programação pastoral sob o signo da santidade é uma opção carregada de consequências. Significa exprimir a convicção de que, se o Batismo é um verdadeiro ingresso na santidade de Deus através da inserção em Cristo e da habitação do seu Espírito, seria um contrassenso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial. Perguntar a um catecúmeno: Queres receber o Batismo? significa ao mesmo tempo pedir-lhe: Queres fazer-te santo? Significa colocar na sua estrada o radicalismo do Sermão da Montanha: Sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste” (Mt 5,48; NMI 31).

A Festa de todos os Santos seja celebrada na Terra e nos Céus! E se acrescente também o nosso nome aos que dela participam!