Fiéis leigos

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

 

 

Os leigos são cristãos que têm uma missão especial na Igreja e na sociedade. Pelo batismo, receberam essa vocação de viver intensamente a serviço do Reino de Deus. O ministério ordinário do cristão leigo é estar no mundo testemunhando o Cristo Ressuscitado. É um cristão que segue a Cristo radicalmente e O testemunha em seus ambientes. Esse é o lugar por excelência dos leigos. Constituem a maioria da Igreja, Povo de Deus, e imaginamos como é importante que esses nossos irmãos, que se alimentam da Palavra e Eucaristia em nossas Assembléias, sejam sempre mais sal da terra e luz do mundo. 

Porém, além de seu protagonismo no ministério ordinário que lhes é confiado pela Igreja, eles desempenham vários ministérios, em geral, extraordinários, dentro da comunidade eclesial. Os leigos são chamados a desempenhar diversas tarefas: catequista, ministro extraordinário da Comunhão Eucarística, da Consolação e da Esperança, em alguns lugares também do Batismo e do Matrimônio, agente das diferentes pastorais, atividades como, por exemplo, o edificante serviço aos pobres e aos doentes. São chamados, ainda a colaborar no governo paroquial e diocesano, participando dos conselhos pastorais e econômicos.

São membros ativos da comunidade, assumindo ministérios e serviços para fazer acontecer a missão da Igreja de Cristo. Entretanto, como disse acima, a missão mais importante dos leigos é no mundo. Eles são chamados a realizar sua missão dentro das realidades que encontram no seu dia a dia. Na família, no trabalho, na escola, no mundo da política, nos movimentos populares, nos meios de comunicação, eles são chamados a testemunhar, pela Palavra e pela vida, a mensagem de Jesus Cristo. 

A missão do leigo é ser fermento nos ambientes em que vive; nesses campos de vida e de atuação, ser “sal da vida e luz do mundo”. O Concílio Vaticano II e os ensinamentos dos últimos Papas insistem muito na necessidade de os leigos participarem ativamente na construção de uma nova sociedade, aperfeiçoando os bens existentes e sanando os males.

“Os Cristãos Leigos são homens e mulheres da Igreja no coração do mundo, homens e mulheres do mundo no coração da Igreja”. (Documento de Aparecida, 210). São João Paulo II dizia-nos: “a Evangelização do Continente não pode realizar-se hoje sem a colaboração dos fiéis leigos”. (EAm 44). O Documento de Aparecida retoma e reafirma as posições do Concílio Vaticano II de que os Leigos são membros efetivos do Povo de Deus e são Igreja. Para exercerem sua missão, sem dúvida que o ponto de partido é o encontro com Cristo Ressuscitado. A primeira e única opção fundamental é por Cristo. Tendo esse encontro, que transforma vidas e histórias, estarão prontos para dialogar com todas as realidades sem perder a identidade cristã.

Duas são as dimensões da vocação laical. Em uma, os leigos são chamados a exercerem diversas ações na comunidade eclesial e em diferentes formas de apostolado. Devem dar seu testemunho de vida e assumir diversos ministérios e serviços na evangelização, na catequese, na animação de comunidades, na liturgia, dentre outros. (Cf. DA 211). A outra dimensão, esta essencial, é a de atuar no mundo, “a vinha do Senhor”, com a tarefa de ser fermento, sal e luz seja pelo testemunho, seja pela ação transformadora na construção da sociedade justa e solidária, conforme os critérios evangélicos. Esta missão específica deve ser vivenciada pelos leigos na política, na realidade social, na economia, nos meios de comunicação, nos sindicatos, no mundo do trabalho urbano e rural, na cultura, na família e em tantas outras realidades. (Cf EN 70 e DA 210).

O protagonismo dos leigos está presente na caminhada da Igreja, através de todos os seus fiéis e de suas lideranças, que promovem e levam à frente a tarefa da evangelização, sempre em união com seus pastores. Para contribuir nesse processo, a CNBB possui uma Comissão Episcopal para o Laicato, que tem como função, na Igreja no Brasil, promover a vocação e missão, formação e espiritualidade dos leigos, bem como sua organização e atuação na Igreja e na sociedade. É uma Comissão da Conferência Episcopal que tem essa especial direção. Fazem parte da Comissão Episcopal do Laicato os Setores Leigos, Juventude e CEBs. A Comissão tem relação de comunhão com o CNLB – Conselho Nacional do Laicato do Brasil – e com outros Movimentos e Associações Laicais. São expressões vivas e dinâmicas da presença e da força dos leigos nas comunidades.

Neste ano, a 54ª Assembleia Geral Ordinária da CNBB (6 a 15 de abril em Aparecida-SP) terá como tema principal: “Cristãos leigos e leigas, sujeitos na Igreja e na Sociedade”, com o lema: “Sal da Terra e Luz do Mundo” (Mt 5, 13-14). Como tema principal terá mais tempo para aprofundamento do tema e para discussões em grupos e em plenário. Já são mais de dois anos que esse tema está sendo aprofundado e, provavelmente, neste ano deverá sair o documento que atualiza essa presença do cristão leigo como Igreja no mundo de hoje.

Nesta esperança depositada da Igreja em seus leigos, é dever de todos que abraçam este estado de vida, propagar a fé e defender todas as diretrizes da Igreja e confirmar esta santidade, pois temos a certeza de participar ativamente dos mistérios de Cristo. “Os fiéis leigos estão na linha mais avançada da vida da Igreja: por eles, a Igreja é o princípio vital da sociedade. Por isso, eles, sobretudo, devem ter uma consciência cada vez mais clara, não somente de que pertencem à Igreja, mas de que são Igreja, isto é, comunidade dos fiéis na Terra sob a direção do chefe comum, o Papa, e dos Bispos em comunhão com ele. Eles são Igreja” (Papa Pio XII).

 

 

 

Ciência e transcendência na universidade católica

Dom Leomar Antônio Brustolin
Bispo auxiliar de Porto Alegre (RS)

A universidade é o lugar em que se introduz o aluno ao conhecimento e à dimensão da investigação científica. Uma das principais responsabilidades dos professores é aproximar as jovens gerações do conhecimento, ajudando-as a compreenderem as conquistas do conhecimento e as suas aplicações. O esforço do conhecimento e da pesquisa não deve ser separado do sentido ético e do transcendente. Nenhuma ciência verdadeira pode negligenciar as suas consequências éticas e não existe verdadeira ciência que afaste da transcendência. 

Ciência e ética, ciência e transcendência não se excluem reciprocamente, mas se conjugam para uma maior e melhor compreensão do homem e da realidade do mundo. Agir “como se Deus existisse”, crer realmente nele, na vida eterna e no futuro absoluto da pessoa humana, não significam que se deva refletir sobre teorias irrelevantes ou tratar de princípios que, em última análise, não se pode conhecer. Ao contrário, é exatamente a busca e a compreensão dos verdadeiros valores que devem orientar a ação humana no mundo, especialmente a justiça e a verdade, declarando que o ser humano nunca é um meio, mas sempre um fim em si mesmo. 

Isso significa ampliar os limites epistemológicos do nosso conhecimento para dilatar nossa capacidade de acessar a verdade. Apesar das distintas metodologias, o cientista e o crente têm, em comum, a busca do ser humano que se empenha contra o óbvio, que rejeita o banal, que ultrapassa as aparências e tende a ir ao encontro da essência das coisas e do ser. Mas cada âmbito mantém sua autonomia. Se a razão se deixar guiar demais pela fé, ou mesmo pela ausência total dela, cai num dogmatismo que fragiliza o pensamento, restringindo-o.  

Se a ciência for segura demais de si, pode tornar-se violenta e totalitária. Se a fé quiser basear-se totalmente na razão para se explicar, acaba se tornando a medida de si mesma. Se rejeitar completamente a razão, reduz-se a uma confiança incompreensível e a uma ética sem sentido.  Se a fé não se deixar questionar, há o risco de tornar sua crença mera segurança cômoda. Aqui será preciso recorrer a Santo Agostinho, para quem uma fé que não seja pensada é nada.  

Na relação entre o crer e o compreender, o cristianismo construiu um caminho. Hoje, quando a razão, a ciência e a técnica são capazes de avanços (inimagináveis poucos anos atrás), corre-se o risco de criar um desencontro entre fé e razão, ciência e transcendência. Não é preciso haver síntese, talvez nem seja possível, mas é preciso considerar o que São João Paulo II escreveu na Fides et Ratio: “A fé e a razão são como que suas asas que enlevam o pensamento humano  na busca da verdade.” Assim, embora sem a síntese, nada impede que, entre ambas, exista maior solidariedade. 

Para estreitar essa relação, será preciso uma postura de humildade, abertura e diálogo. Para a fé, exige-se que seja mais mística e orante, discípula que escuta seu Senhor que fala e revela sinais ao longo dos tempos. Será preciso encontrar Deus em cada tempo, em cada cultura e em cada nova etapa da história humana. Ou seja, com base na fidelidade às fontes, ser capaz de encontrar, testemunhar e anunciar o mistério que cria, visita e santifica este mundo. A abertura e o diálogo com a cultura moderna não podem fazer o crente retrair-se num modelo cultural que não existe mais, alegando que é preciso recuperar uma antiga forma que garanta a serenidade de tempos passados.

Por outro lado, a razão e a ciência, pela via da investigação, da inquietude e do questionamento, haverão de buscar a abertura necessária para ouvir, refletir e dialogar com outras formas de conhecer a verdade que não seja apenas o critério científico. Na interação recíproca entre crente e cientista, encontra-se o ser humano com suas perguntas sobre o sentido da vida e a subjetividade que não pode, suficientemente, ser medida ou analisada por meio de critérios objetivos. Nessa interação entre ciência e transcendência, a grande inimiga da fé não é a razão, mas a ignorância. Igualmente, a grande inimiga da ciência não é a fé, mas a presunção. 

As duas fontes de conhecimento, ciência e transcendência não são idênticas e nem concorrentes. Uma é resultado do exercício de nossa inteligência, e a outra é empenho para acolher a luz de Deus que se revela e tudo ilumina. O diálogo entre fé e razão, ciência e religião, se realiza somente quando os interlocutores compreendem que a verdade transcende ambos e, ao mesmo tempo, essa verdade está contida em ambas as instâncias. 

 

Misericordiosos como o Pai

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

 

A Festa da Misericórdia é celebrada no domingo seguinte à Solenidade de Páscoa em todas as Igrejas do mundo. A data foi instituída pelo, na época, Papa João Paulo II, em 30 de abril do ano de 2000. O Domingo da Misericórdia é dedicado, especialmente, para o grande anúncio do amor misericordioso de Deus, que vem até nós em Jesus Cristo, Nosso Senhor. Para isso, além das indulgências do Ano Santo, também neste Segundo Domingo da Páscoa concede-se indulgência plenária aos que participam da Eucaristia e procuram se configurar sob as condições pré-estabelecidas: Confissão Sacramental, Comunhão Eucarística e orações segundo a intenção estabelecida pelo Sumo Pontífice.

Apesar de esta Festa ter sido instituída como festa universal somente no ano de 2000, ela já era realizada pela Irmã Faustina Kowalska desde a década de 30, na Polônia. Segundo os escritos, Santa Faustina foi inspirada para que fosse realizada a Festa da Misericórdia em toda a Igreja; pedido apontado pelo menos em 15 momentos nas anotações, como cita um trecho retirado do diário da religiosa. “Desejo que a Festa da Misericórdia seja refúgio e abrigo para todas as almas, especialmente para os pecadores. Nesse dia estão abertas as entranhas da minha Misericórdia. Derramo todo o mar de graças nas almas que se aproximarem da fonte da minha Misericórdia. A alma que se confessar e comungar alcançará o perdão das culpas e castigos. Nesse dia estão abertas todas as comportas divinas, pelas quais fluem as graças… Desejo que seja celebrada solenemente no primeiro domingo depois da Páscoa. A humanidade não terá paz enquanto não se voltar à fonte da minha Misericórdia”. (Diário nº. 699).

A Imagem da Misericórdia é um quadro de Jesus, pintado à mão por um pintor renomado naquele tempo, a partir das descrições feitas pela Irmã. A obra traz a seguinte inscrição: “Jesus, eu confio em vós”! (Jezu, ufam Tobie!). Após uma acurada análise dos escritos e da vida da santa, a Santa Sé autorizou, em 1978, a Devoção da Divina Misericórdia. Em 1994, Irmã Faustina foi beatificada e em 2000 foi canonizada com o título: Santa Maria Faustina do Santíssimo Sacramento.

São João Paulo II instituiu, no ano 2000, a Festa da Misericórdia no 2º Domingo da Páscoa. O Pontífice faleceu no dia 02 de abril de 2005, que na época coincidiu com a véspera desta festividade. João Paulo II e João XXIII foram canonizados em 27 de abril de 2014, durante o Domingo da Misericórdia. 

Neste ano, temos a graça especial de celebrarmos o Ano Santo da Misericórdia. O lema escolhido para esse jubileu extraordinário é um chamado à vivência concreta da fé e a misericórdia: “Misericordiosos como o Pai” (Lc 6,36). O Papa estabelece que em todas as Dioceses, Santuários, Paróquias, Comunidades cristãs aconteça a celebração deste ano santo como um acontecimento de graça e renovação espiritual. Além disso, o Santo Padre recomenda a revitalização das obras de misericórdia corporal e espiritual fixadas pela Igreja, para entrarmos no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina. Obras de misericórdia corporal: “dar comida aos famintos, bebida aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, visitar os doentes e enterrar os mortos”. Muitas dessas obras podem ser incrementadas participando de algumas pastorais e movimentos. Obras de misericórdia espiritual: “aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas inconvenientes, rezar pelos vivos e defuntos”. (MV n.15). Aprendamos, portanto, no Ano Santo da Misericórdia, a ser misericordiosos uns com os outros para merecermos a misericórdia de Deus. 

Neste Domingo da Misericórdia somos chamados a participar da Celebração Eucarística e, se possível, dos encontros realizados em nossas paróquias espalhadas por vários lugares em nossa Arquidiocese. Merece especial destaque o Santuário Arquidiocesano da Divina Misericórdia em Vila Valqueire. Mas teremos o grande evento, solene, na nossa Catedral Metropolitana de São Sebastião, na Avenida Chile, a partir das 14 horas, e encerrando com a missa às 16hs, em que toda a Igreja Arquidiocesana é convidada a participar. 

Devemos neste dia acolher a misericórdia em nossas paróquias, famílias e, sobretudo, em nosso coração. Que Jesus misericordioso, o Senhor Ressuscitado, seja a luz em nosso caminho e faça com que sejamos luz para toda a humanidade que tanto necessita do amor, da paz, da união e, sobretudo, da misericórdia.

 

A misericórdia de Deus

Dom José Gislon
Bispo de Erexim (RS)

 

Celebramos, há poucos dias, o tríduo pascal e a Festa da Páscoa. Penso que cada um de nós teve a oportunidade de sentir a misericórdia de Deus, ao participar das celebrações da paixão morte e ressurreição do Senhor Jesus, nas comunidades com os irmãos. Mas o meu pensamento também é dirigido àqueles que, impossibilitados de participarem nas comunidades, pelas distâncias, por estarem enfermos, ou acompanhando os enfermos, viveram toda a riqueza do amor, da ternura e da misericórdia de Deus, manifestada no sofrimento e na glória de seu Filho Jesus, no silêncio, longe dos olhos de todos, mas perto do coração de Deus, pelos gestos de amor e caridade manifestados no cuidado dos que padecem. 

A misericórdia de Deus possui um poder que ultrapassa a compreensão do ser humano, porque ele conhece o que está até no mais profundo do nosso coração. Por isso, pode perdoar aquilo que, do ponto de vista e na compreensão humana, nós jamais seríamos capazes de fazê-lo. Na morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus torna evidente este amor que chega ao ponto de destruir o pecado dos homens. Por sua vez, o ser humano precisa deixar-se reconciliar com Deus para poder sentir a graça da sua misericórdia.

“Misericordiosos como o Pai” é, o lema do Ano Santo, do Jubileu da Misericórdia. O título é um chamado para que cada um de nós possa deixar-se tocar e se reconciliar com Deus e com os irmãos pela misericórdia do Pai. Muitas vezes, levamos no coração feridas que o tempo não cura, mas as alarga ainda mais. Sermos misericordiosos como o Pai, é um convite a estarmos próximos dos irmãos, não para fazermos sangrar suas feridas, mas ajudá-los fazê-las cicatrizar, com o bálsamo do amor e da misericórdia. 

Essa misericórdia de Deus é como um fogo que queima e purifica tudo o que toca. Ela tem o poder de fazer renascer para a graça aquele que estava morto no pecado. Como cristãos, devemos tornar visível a misericórdia de Deus nas nossas famílias, nas comunidades e na sociedade, como nos recorda o Papa Francisco: “Hoje há tanta necessidade de misericórdia, e é importante que os fiéis leigos a vivam e a levem para os diversos ambientes sociais… Nós estamos vivendo num tempo de misericórdia, este é o tempo da misericórdia”.

Algo extraordinário

Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

 

A Páscoa, maior festa religiosa do calendário cristão, é a celebração da gloriosa Ressurreição de Jesus Cristo, a sua vitória sobre o pecado, sobre a morte e sobre a aparente derrota da Cruz. Cristo ressuscitou glorioso e triunfante para nunca mais morrer, dando-nos o penhor da nossa vitória e da nossa ressurreição. Choramos a sua Paixão e nos alegramos com a vitória da sua Ressurreição. Para se chegar a ela, para vencer com ele, aprendemos que é preciso sofrer com ele: “Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). “Que por sua Paixão e Cruz cheguemos à glória da Ressurreição!”. A morte não é o fim. O Calvário não foi o fim. Foi o começo de uma redenção, de uma nova vida. A Páscoa é, portanto, a festa da alegria e a da esperança na vitória futura.  

Como figura, esta festa já existia no Antigo Testamento. Era a celebração da libertação da escravidão do Egito, na qual sofreram os israelitas, povo de Deus, por muitas gerações, sendo libertados por Moisés que, por ordem do Senhor, fulminou os egípcios com as célebres dez pragas. Na última dessas pragas, na passagem do anjo de Deus (Páscoa quer dizer passagem, em hebraico), os egípcios foram castigados com a morte dos seus primogênitos, ao passo que os hebreus foram poupados por causa do sangue do cordeiro que imolaram, conforme o Senhor havia prescrito. Todos os anos, em ação de graças, eles repetiam, por ordem de Deus, essa ceia de Páscoa: milhares de cordeiros eram imolados na sexta-feira antes da Páscoa. 

Assim o cordeiro ficou sendo por excelência a vítima do sacrifício. São João Batista, ao apresentar Jesus ao povo, disse: “Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo!” Esse Cordeiro de Deus, numa sexta-feira antes da Páscoa foi também imolado, realizando, com o seu sangue, a libertação do mundo do pecado, ressuscitando no terceiro dia. Essa é a nossa festa da Páscoa, a festa da Ressurreição de Cristo, o verdadeiro Cordeiro de Deus, o fim do Antigo Testamento e o começo da nova Aliança entre Deus e os homens, o início da Igreja.

“Se se considera a importância que tem o sábado na tradição do Antigo Testamento, baseada no relato da criação e no Decálogo, torna-se evidente que só um acontecimento com uma força extraordinária poderia provocar a renúncia ao sábado e sua substituição pelo primeiro dia da semana. Só um acontecimento que se tivesse gravado nas almas com uma força fora do comum poderia haver suscitado uma mudança tão crucial na cultura religiosa da semana. Para isso não teriam bastado as meras especulações teológicas. Para mim, a celebração do Dia do Senhor, que distingue a comunidade cristã desde o princípio, é uma das provas mais fortes de que aconteceu uma coisa extraordinária nesse dia: o descobrimento do sepulcro vazio e o encontro com o Senhor Ressuscitado” (Bento XVI – Jesus de Nazaré II). 

Feliz e Santa Páscoa para todos: que todos fiquemos alegres com a esperança que Jesus Cristo nos dá com o seu triunfo, penhor da nossa vitória um dia no Céu, onde todos esperamos nos encontrar.

 

Páscoa

Dom Aldo Pagotto
Arcebispo da Paraíba

 

Somente quem faz a experiência profunda de transformação na própria vida consegue explicar o que significa a Páscoa da Ressurreição, por gestos e por palavras. Assim aconteceu com os discípulos de Jesus. Embora estivessem com o Mestre por um bom tempo, somente depois de presenciar sua morte de cruz e sua ressurreição conseguiram compreender a sua missão, aprender os seus ensinamentos, viver a vida renovada. Páscoa significa passagem, evoluindo das trevas à luz, do egoísmo ao amor serviçal, das paixões desordenadas à solidariedade fraterna. Por que aquele que afirmou ser o filho de Deus teria que morrer numa cruz como um malfeitor? Por que um Deus crucificado? Por que Deus teria se servido da morte ignominiosa numa cruz, símbolo de maldição, para reconciliar a humanidade? De dentro da morte o Senhor faz brotar a vida plena. Na cruz onde Cristo, em sua humanidade, crucificou todo o mal que assola a humanidade nós encontramos a vida, a salvação, a superação da iniquidade.

O mistério do amor manifesta-se na reconciliação entre as pessoas, antes intrigadas, divididas e separadas. No perdão generoso rompem-se as amarras que nos aprisionam ao ódio e à vingança. Na superação dos erros, aprendemos a não mais os reproduzir, fazendo as pessoas sofrerem.

A páscoa judaica celebrada em ritual familiar fazia a memória da passagem do cativeiro para a terra da promessa, confirmando a identidade e a pertença ao povo judeu, povo escolhido por Deus para ser luzeiro entre as nações. O ritual judaico evidencia alguns elementos que lembravam a dureza da escravidão no Egito, de onde partiram, passando a pé enxuto pelas águas do Mar Vermelho, chegando à terra da promessa. Na páscoa cristã, denominada Ceia do Senhor, celebra-se a centralidade da Palavra de Deus em nossa vida, e, nos elementos do pão e do vinho, o memorial da paixão e morte de Cristo na cruz e sua ressurreição gloriosa. Na Eucaristia celebramos continuamente a presença viva do ressuscitado, ao redor da mesa da Palavra e do pão repartido para a vida do mundo (cf. Lc. 13-48).

A celebração litúrgica refere-se ao processo permanente de conversão e de compromisso de transformação de nossa vida, sem o qual os rituais perderiam o seu valor intrínseco e o seu significado mais profundo. O processo de conversão ao Evangelho leva-nos até Jesus, praticando gestos de ressurreição em favor dos que sofrem – doentes, deficientes físicos, discriminados, rejeitados, mal amados. Tais gestos serão formas de participação à sua ressurreição aberta a todos que mais necessitam. Percebamos o sentido da Páscoa cristã, vida nova em Cristo ressuscitado, o servo do Pai e da humanidade.

 

 

Viver a partir da Páscoa

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta

 

O ponto de partida da fé cristã é a ressurreição de Jesus Cristo Crucificado. A história cristã, embora tivesse sido preparada na primeira Aliança, desde Abraão, e na missão do Filho, nasce, verdadeiramente, na sua Páscoa.A ressurreição de Jesus constitui desde o início o fundamento da fé e o conteúdo essencial da pregação dos apóstolos. A linha mestra, a luz, que manteve a fé, a esperança e o amor dos cristãos nos vinte séculos de cristianismo foi o acontecimento da ressurreição de Jesus.“Acreditamos naquele que ressuscitou dos mortos, Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue à morte pelos nossos pecados e foi ressuscitado para nos tornar justos” (Rm4, 24-25).

Por ser o ponto de partida e conter os pontos fundamentais de nossa fé, a Páscoa de Jesus Cristo é a grande Boa Nova para a humanidade. O cristão vive a partir da Páscoa. Em primeiro lugar, é a fonte da alegria cristã. Nela está a origem de toda a nossa esperança. Ao aparecer aos discípulos, o Ressuscitado transmitia alegria: “Alegrem-se” (Mt 28,9). “Eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos” (Lc 24,41). Viver a partir da Páscoa é ter a alegria de caminhar na vida com a companhia do Ressuscitado.A ressurreição de Cristo nos dá a certeza que Ele está vivo no meio de nós. “Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). 

A partir da Páscoa sabemos o que nos espera após a passagem por este mundo. A ressurreição de Jesus Crucificado é uma antecipação de nossa glória futura. Cristo é o “primogênito dentre os mortos” (Cl 1,18). Ele é o primeiro e, por isso, o modelo. Como Ele, também nós haveremos de ressuscitar. Pela fé, já participamos de sua ressurreição: “A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem” (Hb 11,1). Portanto, a vida tem um sentido.

A ressurreição de Cristo é a certeza do triunfo de Deus e sua justiça diante dos inocentes condenados da história. Proclamamos ao mundo que o mal foi vencido e uma luz brilha nas trevas. É a certeza que a vida tem a última palavra, porque esta está com Deus e Ele é Vida. A partir da Páscoa afirmamos que o mundo tem uma direção, tem uma luz que o ilumina e uma força que o guia. Que toda a criação geme em dores de parto esperando sua libertação até que chegue “novos céus e nova terra” (Ap 21,1). Cristo ressuscitado inaugura o oitavo dia da criação, a primavera sem fim. “A sua ressurreição não é algo do passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo” (EG 276).

Viver a partir da Páscoa é ser testemunha do Ressuscitado e, na força do Espírito Santo, enviado em missão: “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês.” (Jo 20,21). Enviados a ser artífices da reconciliação e da paz que o Ressuscitado transmitiu. Ao ressuscitar o Crucificado, o Pai confirmou a vida e o ensinamento do Filho. Por isso, a Páscoa nos indica que o caminho cristão é o seguimento da vida, palavras, atitudes e projeto de Jesus de Nazaré, o Cristo. 

Enfim, a ressurreição de Jesus nos permite caminhar seguros.  Cristo é o centro e o Senhor da história. Ela está em suas mãos. Podemos afirmar diante dos desafios: “Não tenham medo” (Mt 28,5). Ele vai à nossa frente. 

 

 

 

A cruz do Senhor em vista da ressurreição a partir de alguns padres da Igreja

Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)

 

1. Bendito o que vem em nome do Senhor

Alguns padres da Igreja se detiveram sobre a cruz do Senhor para se chegar à glória da ressurreição. Ninguém nega a sua dramaticidade, no entanto foi o instrumento de doação de vida de Jesus para a nossa salvação e redenção. Ela aponta-nos para a ressurreição do Senhor. Dessa forma é fundamental ver esses dados nos escritores dos primeiros séculos do cristianismo.

Nós encontramos referências com Beda(Monge Inglês, historiador do século VII-VIII dC), o Venerável, o qual comenta o valor da cruz. Jesus Cristo irá para Jerusalém para não fugir da missão de dar a vida por todos, onde Ele passará por sofrimentos, não deixando também que as pessoas o proclamassem rei, com hinos dignos do Filho de Deus e do rei, da qual Ele não mandou calar as pessoas que cantaram a restauração nele do patriarca Davi e a conquista da primitiva benção. Por qual motivo Jesus acolheu com alegria as coisas que antes recusou? Para Beda, Jesus Cristo está por sair do mundo, através da paixão da cruz. Ele quer nos ensinar abertamente que é rei de um império que não é temporal e terreno, mas eterno nos céus e este o alcançará com a vitória sobre a morte, com a glória da ressurreição e o triunfo da ascensão. Por isso, aparecendo aos seus discípulos após a ressurreição diz: Foi-me dado todo o poder nos céus e na terra (Mt 28,18).

2. A cruz, nossa glória e nossa força

São João Crisóstomo fala que nenhum envergonha-se dos sinais sagrados e veneráveis da nossa salvação, da cruz que é o vértice dos nossos bens, pela qual vivamos e somos aquilo que somos. Por ela chegou Jesus à glória da ressurreição. Na realidade a cruz para o Senhor era uma espécie de trono. 

Carregamos a cruz de Cristo como uma coroa. Quando nós somos regenerados pelo batismo, a cruz é presente; se nos alimentamos daquele místico alimento que é o corpo de Cristo, se nos vem impostas as mãos para ser consagrados ministros do Senhor, e qualquer outra coisa façamos sempre, em toda a parte nos está junto e nos assiste este símbolo de vitória. Disto decorre o fervor com o qual nós o conservamos nas nossas casas, o pintamos sobre as nossas paredes, o colocamos sobre as portas, o imprimimos sobre a nossa fronte e nossa mente, o carregamos sempre no coração. 

3. A cruz sinal de misericórdia e de amor

São João Crisóstomo também diz que a cruz é o sinal da nossa salvação e da comum liberdade do gênero humano, é o sinal da misericórdia do Senhor que por amor a nós se deixou conduzir como ovelha ao matadouro(cfr. Is 53,7; At 8,32). Quando pois fazes este sinal, lembra todo o mistério da cruz, apague em ti a ira e outras paixões. O próprio São Paulo afirma que para elevar-nos à liberdade que nos convém, lembra a cruz e o sangue do Senhor: Por um elevado preço fostes comprados. Não vos torneis, pois, escravos de seres humanos( 1 Cor 7,23). Dessa forma ele diz que não teve algum preço que pudesse nos livrar da escravidão senão a morte de Cristo Jesus na cruz, para nos ver livres da escravidão do pecado, da morte e chama a cruz o preço da vitória. 

4. Os sentimentos da nossa debilidade

Leão Magno fala da solidariedade dos sofrimentos de Jesus em relação a toda a humanidade. Sabendo que estava chegando o tempo no qual devia cumprir-se a sua gloriosa paixão, disse que a sua alma estava triste até a morte(cfr. Mt 26,38) e ainda: Pai, se era possível que afastasse dele aquele cálice(cfr. Mt 26,39). Com estas palavras que manifestam um certo medo, compartilhava Jesus os sentimentos da nossa debilidade e com isso eliminava o temor do castigo. O Senhor tremia em nós com o nosso medo assumia a nossa debilidade, revestindo a nossa instabilidade com a solidez da sua força. A ressurreição dará sentido aos sofrimentos da paixão. 

5. A participação dos sofrimentos da nossa condição mortal para curá-los

Leão Magno segue os apóstolos João e Paulo em relação aos sofrimentos de Cristo Jesus. Deus amou tanto o mundo de doar o seu único Filho para que todo aquele que crê nele não morra, mas tenham a vida eterna(cfr. Jo 3,16) e do apóstolo Paulo: Cristo nos amou e deu a si mesmo por nós a Deus em sacrifício de suave odor(cfr. Ef 5,2). Para salvar os seres humanos por meio da cruz de Cristo, comum era a vontade do Pai e do Filho, comum era o desígnio de salvação e não podia ser alterado por nenhuma consideração quanto foi estabelecido antes mesmo dos séculos eternos. Aquele que assumiu todo o ser humano em verdade fez seus também as sensações do corpo e os sentimentos da alma. Ele foi desprezado na nossa baixeza, crucificado em nossa dor. A misericórdia carregou os sofrimentos da nossa condição mortal para curá-las; o seu poder os acolheu para vencê-los. Dessa forma a sua ressurreição levará a termo pleno a sua doação na crucificação por amor a toda a humanidade. 

A cruz possui o seu valor de reconciliação e de amor por cada um de nós, e pela humanidade. Nós seguimos a Jesus Cristo que carregou a cruz para a nossa salvação para assim chegar à glória da ressurreição. Pela cruz que carregamos com Cristo e com as pessoas queremos um dia chegar também à glória de ressuscitados com o Senhor.