A falsa e a verdadeira misericórdia

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta

 

A misericórdia exige um processo de educação. Ela é resultado do seguimento de Jesus Cristo, como um discípulo que, à medida que caminha com seu Mestre, aprende dele seu jeito de viver. Neste processo, é importante discernir a verdadeira misericórdia da falsa misericórdia. Isto porque a misericórdia pode ser compreendida e também utilizada de modo errado. Ela pode servir de “amaciador da ética cristã” (W. Kasper, A misericórdia, p.180), permitir um estilo de vida descompromissado e sem limites, afinal, Deus sempre será bom e compassivo.

A fé cristã nos mostra Deus que continua a nos amar sempre, mesmo quando erramos, pecamos. Isto não significa que Deus aprova o erro. “Não quero a morte do pecador, e sim, que ele se converta e viva.” (Ez 18,23). Porém, Deus não protege o pecador no seu erro ou se importa mais com o autor do que com a vítima em casos de injustiça. A proteção das vítimas é o primeiro dever da misericórdia. Pior ainda, quando em nome da misericórdia, os erros e até delitos não são tratados com o rigor devido. Neste sentido, como em tudo na educação, parte-se da verdade. 

A pseudomisericórdia pode, também, tomar as vestes da tolerância e da complacência. Quando os pais, para agradar, cedem tudo para os filhos e negociam os valores, então não estão sendo misericordiosos. Assim, também, quando por aparente misericórdia e falsa bondade, na educação não se exige como se deveria, consentindo até em pequenos ou grandes desvios de conduta. Não há crescimento sem sério empenho, com limites. E quando se trata da necessidade de conversão, normalmente é um processo exigente e com um longo percurso. A misericórdia se manifesta na acolhida do pecador, ajudando-o a reconhecer sua culpa, a confiar na misericórdia de Deus e acompanhá-la no caminho de conversão. São Paulo nos diz que não podemos ser indiferentes diante dos outros, mas por amor e misericórdia, somos responsáveis uns pelos outros: “Ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros.” (Cl 3,16). Ser misericordioso é, também, saber dizer “não” e corrigir. Disse Jesus à mulher pecadora: “Ninguém te condenou. Eu também não te condeno. Vai e não tornes a pecar.” (Jo 8,11).

Quando, falsamente, se compreende a misericórdia de maneira unicamente sentimental, com facilidade pode-se transgredir a exigência da justiça. Por exemplo: diante da dor de um doente terminal, ser misericordioso não é ajudá-lo a cometer suicídio. A misericórdia não anula a justiça e a verdade. A Parábola do Juízo Final (Mt 25,31-46) descreve de maneira muito real como não pode existir uma falsa misericórdia. Ali, Jesus fala das exigências da misericórdia, sem meio-termo. 

Enfim, ser misericordioso não significa ser “bonzinho”. Na verdade, é a medida máxima da vida cristã e, por isso, exigente. 

 

Não perder o gosto de viver

Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá (PR)

 

No caminho da vida não existem só flores e nem só espinhos. Somos um misto de grandes alegrias e tristezas, fruto do sucesso e do insucesso, de amigos e inimigos, de luzes e trevas, de ganhos e perdas, que na somatória só fica o que somos capazes de assumir sem medo e com fé.

O realismo da vida me leva a viver cada momento com aquilo que é. Recordo uma frase do então papa João XXIII: “Encontramo-nos na terra emprestados, mas não devemos perder o gosto de viver”. É difícil compreender  que a cada dia da vida o tempo não se repete e o que tempo que temos é curto e passa rápido. Viver o provisório, com suas causas e coisas, depende do grau de  confiança que deposito e a prontidão em aceitar acertos e desacertos.

Em um texto no blog do jornalista Ronaldo Nezo eu li: “Um pensador certa feita disse: ‘Quando a alma chora, olho da janela do meu quarto e do, alto do meu prédio, não vejo a beleza da cidade. Vejo apenas a chance de silenciar meus tristes ais; de calar minhas lágrimas; de penetrar e me perder no esquecimento.  Caro amigo, estar no mundo é estar sujeito aos prazeres e desprazeres da vida. Ainda que se apele para a razão, nossas emoções muitas vezes falam mais alto. E se provocam sorrisos, não raras vezes também nos fazem chorar. Quem deseja viver intensamente, terá dias em que o sorriso vai brotar fácil em seus lábios; mas também deve aceitar que lágrimas não desejadas vão descer pela sua face. Nessas horas, muitas vezes a vida perde o sentido”.

Ninguém esta isento de problemas financeiros, de perda de emprego, de traição amorosa, depressão,  de frustração nas escolhas feitas,  sentimentos de que não valeu a pena o que fez ou deixou de fazer, vontade de que tudo se acabe, que mundo não seja mundo e sim fim de tudo. Nestas horas parece que deixar de viver é a única saída,  afinal a vida não nos pertence, é o maior presente de Deus.

Talvez o que está faltando de fato é um espaço maior para que o Deus da vida seja a direção de tudo e não as coisas de Deus que tomaram conta da  vida. O coração humano não precisa de coisas, quantas coisas sobrando e quantos mendigando um pouco de atenção, de amor e de afeto, proporcionando um caminho novo de que vale apena viver.

Nestes momentos em que não vemos mais por onde e como caminhar, resta-nos um olhar que vem do coração, de uma força superior às nossas, um olhar com os olhos de Deus; e isso só é possível pela fé. Uma fé que faz ver além das aparências, que faz brotar uma esperança viva capaz de dissipar as trevas, e devolver a luz e contemplar a beleza de amar e ser amados. As coisas passam, só amor permanece. O gosto de viver retorna quando somos capazes de ver a vida como presente de Deus e que só Ele tem o poder de tirá-la. Nada deste mundo pode dominar o direito de viver e viver com dignidade. O vazio,  a falta de sentido, o desgosto da vida desaparecerá, quando somos capazes de orar e fazer da vida uma oração e não somente fazer uma oração na vida. O gosto de viver será sempre vivo, quando as cruzes são pontes a atravessar e as vitórias lições para toda a vida e os joelhos calejados de tanto orar.

 

 

Escolhido e enviado

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba

 

Quando alguém é escolhido e enviado para exercer alguma missão na vida da sociedade, dependendo de sua criatividade e das iniciativas pessoais, há possibilidade de abertura de caminhos novos, porque o mundo apresenta uma vasta riqueza para dar condição de vida melhor. O Senhor escolheu e enviou os profetas e os apóstolos para guiar as pessoas na sua peregrinação como povo de Deus.

Deus continua escolhendo e enviando muitas pessoas para construir, de forma autêntica, o mundo e transformá-lo radicalmente na sua espiritualidade, na vida social, política, econômica etc. É o que aconteceu com seu próprio Filho, Jesus Cristo, para garantir um futuro de liberdade para aqueles que O reconhecem como Salvador. Hoje a missão é confiada a todos que Nele depositam esperança.

A missão requer do escolhido e enviado uma prática de envolvimentos sadios e responsáveis na comunidade. Ele deve ser liderança comprometida com as situações concretas que afetam positiva ou negativamente a vida das pessoas. Foi o que fez Jesus, servindo primeiro aos mais necessitados para dar-lhes dignidade, principalmente superando os reais preconceitos de seu tempo.

Para a realização do verdadeiro bem, é importante acolher a Palavra de Deus como perfil de referência para construir um caminho seguro e cheio de esperança. Caminho com pés fixados nos valores do Reino de Deus, livre das fortes influências presentes na mente flutuante dos tempos modernos. Superar os problemas que afetam o cotidiano de todas as pessoas, de modo particular os mais sofredores.

Em linhas gerais, o desenvolvimento econômico acontece com a exploração do povo e o acúmulo de poucos. O critério não condiz com a missão do cristão, porque ele é missionado para realizar os valores da justiça social, onde ninguém pode ficar marginalizado. Jesus fala da partilha como critério de paz social, porque todas as pessoas são valorizadas em sua condição saudável de vida.

Deus escolhe as pessoas para que trabalhem e promovam a verdadeira transformação e ressurreição das comunidades, fazendo delas ambientes acolhedores e capazes de harmonizar os ânimos dos que estão descontrolados. É na comunidade que as pessoas são chamadas para a prestação de serviço numa dimensão de gratuidade e espiritualidade samaritana, que caminha com todos.

 

 

O Presidente dos USA e as Irmãzinhas dos Pobres

Dom Murilo S.R. Krieger
Arcebispo de Salvador

 

No dia 17 de maio passado, as agências de notícia norte-americanas deram destaque a um fato que foi praticamente ignorado aqui no Brasil: religiosas que dirigem um hospital nos Estados Unidos venceram, na Suprema Corte do país, um processo contra o Presidente Obama.

Em 2012, o governo norte-americano decretou que, a partir de então, todas as empresas e instituições são obrigadas a fornecer um plano de saúde a seus empregados que inclua, inclusive, a esterilização e o aborto. Na prática, as ordens do governo obrigariam os católicos e suas instituições católicas – e, também, outras pessoas e instituições que defendem o respeito à vida desde a sua concepção – a agir contra a própria consciência. 

Diante disso, uma congregação religiosa feminina – as Irmãzinhas dos Pobres -, decidiu levar o caso à Suprema Corte. Esta decidiu, de forma unânime, que elas não poderão ser multadas por não obedecerem às ordens de Obama. O advogado que as defendeu, Mark Rienzi, ao tomar conhecimento do veredito, comentou: “Essa decisão unânime é uma imensa vitória para as Irmãzinhas, para a liberdade religiosa e para todos os norte-americanos”.

No ano passado, quando corria o processo, o Papa Francisco, antes de deixar os Estados Unidos, visitou a comunidade religiosa, dado origem a uma observação do porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi: “É um sinal evidente do apoio do Papa a elas”.

É importante que isto fique claro: um cristão não pode, jamais, conformar-se com uma lei em si mesma imoral; e esse é o caso precisamente daquela lei que admite em princípio a liceidade do aborto. Um cristão não pode participar de uma campanha de opinião em favor de uma lei de tal gênero, nem lhe dar a própria adesão. Não pode, menos ainda, colaborar na sua aplicação. “É inadmissível que médicos ou enfermeiras venham a se encontrar em situações que os obriguem a cooperar, de maneira imediata, em abortos, e de ter que escolher entre a lei cristã e a sua situação profissional. O que compete à Lei, pelo contrário, é procurar levar adiante uma reforma da sociedade e das condições de vida em todos os ambientes, a começar pelos mais desfavorecidos, a fim de que se torne possível um acolhimento a toda a criança que vem a este mundo. (…) Tem de ser promovida toda uma política positiva, a fim de que sempre possa haver para o aborto uma alternativa concretamente possível e honrosa” (Congr. Dout. da Fé, 1974).

O direito à vida é um valor moral fundamental. É verdade que as leis de alguns países autorizam a supressão direta de inocentes, sob as mais variadas justificativas: “A mulher é dona de seu corpo”; “A criança no ventre materno não tem direitos”; “Cada um tem o direito de fazer o que julgar mais conveniente”; “O bebê esperado tem anencefalia” etc. Ora, no momento em que uma lei priva uma categoria de seres humanos da proteção que a legislação civil deveria conceder-lhes, o Estado está negando a igualdade de todos perante a lei. Quando o Estado não se põe a serviço dos direitos de cada um dos cidadãos e, particularmente, de quem é mais fraco, são ameaçados os fundamentos mesmos de um Estado de direito.

Nosso Deus é o Deus da vida. Seguir a própria consciência, na obediência à lei de Deus, nem sempre é um caminho fácil; isso pode ter como consequência grandes sacrifícios. No entanto, é bom ressaltar que o caminho do verdadeiro desenvolvimento da pessoa humana passa por essa fidelidade constante a uma consciência mantida na retidão da verdade.  Sem nos esquecermos, por outro lado, de que um cristão não pode limitar os horizontes de sua vida a este mundo. A vida presente nos prepara para uma outra vida, à luz da qual devemos tomar nossas decisões. “No final da vida, seremos julgamos pelo amor” (S. João da Cruz).