O valor do trabalho na visão de alguns padres da Igreja

Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)

 

Introdução

O trabalho é criação de Deus para o bem do ser humano, em vista de sua salvação, não se constituindo fruto do pecado. Dessa forma ganha-se o pão para o sustento com o suor do seu rosto. O Deus Criador fez tudo bem de modo que o trabalho é essencial para todo o ser humano. Estamos unidos com aqueles e aquelas que possuem um trabalho e também com os milhares de desempregados e desempregadas no Brasil e no mundo para que assim sejam beneficiados e beneficiadas com um trabalho para a subsistência. Vejamos alguns pontos do valor do trabalho nos padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos que elaboraram uma doutrina e a sua dignidade para o ser humano.

1. O trabalho é um dever

São Basílio Magno, Bispo de Cesaréia, século IV, teve presente a importância do trabalho na vida humana. Ele olha o evangelho onde Nosso Senhor Jesus Cristo afirma: quem trabalha tem o direito ao seu sustento(cfr. Mt 10,10). É claro que não se trata de um simples direito para qualquer pessoa, mas sobretudo para quem trabalha. O apóstolo Paulo também nos manda trabalhar e de procurar-nos um sustento com as nossas mãos para assim ajudar os necessitados(cfr. Ef 4,28). Assim é fundamental trabalhar com muita diligência. Não retenhamos que o fim da vida de piedade, isto é da oração, seja a fuga do trabalho; é o contrário motivo de um maior empenho e de um maior trabalho, de uma maior paciência nas tribulações, porque nos seja dado de dizer que nós passamos por inúmeras fadigas, empenhos em vista do bem e do Reino de Deus (cfr. 2 Cor 11,27). 

2. Amor ao próximo

Basílio afirma que o trabalho nos ajuda não só a mortificar o nosso corpo, mas demonstra o amor ao próximo, afim de que também aos irmãos necessitados Deus por nossa obra, dá-se o necessário. Segundo o exemplo do Apóstolo Paulo se diz nos Atos dos Apóstolos: Em tudo vos mostrei que, trabalhando desse modo, se deve ajudar aos fracos(At 20,35a); e ainda para que a pessoa tenha sempre alguma coisa para dar aos necessitados (cfr. Ef 4,28). Desse modo seremos dignos de ouvir do Filho do Homem, Cristo Jesus, um dia: vinde, benditos de meu Pai(Mt 25,34). 

3. O mal do ócio

É necessário dizer, pois que o ócio é um mal, pois o Apóstolo afirma que quem não quer trabalhar não deve comer(cfr. 2 Ts 3,10). Para cada um de nós é necessário o alimento cotidiano, assim também é necessário o trabalho cotidiano. Nesse sentido Salomão escreveu em louvor à mulher trabalhadeira: o pão que come não pelo fruto de preguiça (cfr. Pr 31,27). O Senhor quer que trabalhemos os dons recebidos e admoesta aquele que não produziu frutos unindo a maldade à preguiça, dizendo: servo mau e preguiçoso (cfr. Mt 25,26). 

4. O trabalho e bem comum

Teodoreto, Bispo de Cirro, Síria, do século V, também fala-nos da importância do trabalho ao levantar uma pergunta: Tem a humanidade algo de bom sem o trabalho? Alcança alguma espécie de felicidade sem o empenho? Por isso afirma que pelo trabalho recolhamos os frutos da terra e dos comércios, elevamos cidades, habitamos em casas, vestimo-nos, calçamos os pés, temos na mesa diversos frutos para serem consumidos. Mas por que se deve enumerar todas as vantagens do trabalho? É porque ninguém deva se orgulhar usufruindo do trabalho de outras pessoas. Por isso, dado que todo o bem nos vem do trabalho, não se despreze a classe trabalhadora da qual é dedicada ao serviço do seu ganha pão. Teodoreto tem presente também os patrões que devem trabalhar como os trabalhadores, pois devem calcular as preocupações, os pagamentos e as condições de trabalho. Assim o trabalho é comum aos trabalhadores e as trabalhadoras e aos seus patrões. Dessa forma convida o autor a olhar sobre aqueles e aquelas que vivem por obra das suas mãos. 

5. O trabalho humano possibilita à assistência de Deus

São João Crisóstomo, Bispo de Constantinopla, século V, tem presente as coisas criadas feitas por amor do seu Criador. Deus disse: “A terra faça brotar vegetação: plantas, que dêem semente, e árvores frutíferas, que dêem fruto sobre a terra, tendo em si a semente de sua espécie”(Gn 1,11). À ordem de Deus Pai, em seguida a terra deu os seus frutos, iniciando a fecundidade das coisas (Gn 1,12). Percebe-se a origem das coisas pela palavra de Deus Pai Criador. Não haveria de fato o ser humano que a trabalhasse, o arado, a obra dos bois e nenhum outro tipo de cultivo da terra; a terra ouviu a ordem de Deus e em seguida mostrou os próprios frutos. Por isso compreendamos que a obra dos agricultores em relação à terra, para que produza frutos para o seu sustento é antes de tudo referência à Palavra de Deus que ao início dirigiu-se à terra de modo que nada se produz e se ganha com o trabalho das mãos humanas se o Criador no alto não estende a sua mão para que todos possam viver com alegria e amor neste mundo. É preciso ter a consciência que o trabalho e o seu fruto pertencem a Deus em vista da salvação do ser humano.

Rezemos para que o mundo do trabalho proceda bem, com justiça e amor em vista do progresso das pessoas e dos povos para a glória de Deus. O trabalho dignifica o ser humano. Façamos dele motivo de santificação, tendo presente a alegria da existência humana para um dia ter a graça de participar da vida eterna com Deus Uno e Trino. 

 

Papa Francisco

Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo

 

Nesta quarta-feira, 29 de junho, na solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, tive a oportunidade de encontrar pela primeira vez o Papa Francisco. Na oportunidade, os 25 arcebispos nomeados de julho de 2015 a julho de 2016 receberam o Pálio de Arcebispo, entregue depois da missa. Por orientação do papa, agora o Pálio é imposto na própria arquidiocese pelo Núncio Apostólico. Esta solenidade acontecerá em Passo Fundo, no dia 07 de agosto. Durante a missa foram utilizadas oito línguas, destacando a catolicidade da Igreja.

Existe sempre uma grande expectativa quando se conhece um líder pelos meios de comunicação e se tem a oportunidade de encontrá-lo pessoalmente, mesmo que por num tempo muito breve. Qual será a impressão que terei do Papa? Aquilo que se fala dele se confirmará? Há diferença entre um Papa e outro, já que tive a oportunidade de encontrar São João Paulo II e Bento XVI? Poderia apontar outras qualidades das quais não se fala muito? Partilho as minhas impressões.

Antes da missa, Francisco cumprimentou individualmente a cada um dos novos arcebispos, já dentro da Basílica de São Pedro e São Paulo. Acolheu-nos com seu sorriso cativante, deixando todos muito a vontade na sua presença. A sua autoridade de sucessor de São Pedro não é motivo para causar distância, mas é a autoridade do bom pastor que acolhe e quer ter presente junto a si os que lhe foram confiados, também aqueles que ele escolheu para serem arcebispos.

Sempre se destaca a humildade do Papa Francisco e isto fica bem visível. Numa solenidade tão grande, onde tudo é planejado nos mínimos detalhes, as pessoas que exercem qualquer função são devidamente preparadas e os vários corais e instrumentistas ensaiam cada compasso. Tudo isto poderia ser uma ostentação. As vestes litúrgicas que Francisco usa são belas e sóbrias e a sua postura é a de quem faz parte da celebração, não chamando a atenção sobre ele, mas sobre o que está sendo celebrado. A sua humildade poderia passar a impressão de fraqueza, de falta de rumo, de insegurança, de falta de opinião própria. Devo dizer que a sua liderança humilde não tem nada disso. Ao estar na sua presença percebemos claramente a sua liderança. É alguém que tem posicionamentos claros, transmite segurança e confiança e, acima de tudo, desafia e provoca as pessoas por ele lideradas. 

Quero ainda ressaltar uma qualidade do Papa Francisco da qual não se fala muito, que é a maneira como preside a Santa Eucaristia. Do começo ao final da celebração, a sua postura é a de estar totalmente centrado naquilo que está fazendo. Como a liturgia católica deve ser bela, sóbria e harmônica, simultaneamente, ele faz muito bem esta parte. Exerce este ministério com simplicidade e naturalidade. A homilia é feita em linguagem direta e clara, permitindo que seja assimilada com facilidade. Ele vive intensamente cada momento, cada rito e cada palavra. Estes ritos visíveis e sensíveis conduzem as pessoas para aquilo que não é visível, isto é, a Deus. Ele faz as pessoas rezarem.

Os católicos têm em Francisco um grande líder que conduz com sabedoria e espírito de serviço a Igreja. Fala com palavras, com gestos e com o seu testemunho. Como as coisas boas não são propriedade de ninguém, a liderança dele é um bem para todo o mundo. É um exemplo de líder para todas as pessoas, especialmente às lideranças religiosas e civis.

 

 

 

Tu es Petrus

Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

 

Hoje celebraremos a festa de São Pedro, apóstolo escolhido por Jesus para ser seu vigário aqui na terra (“vigário”, o que faz as vezes de outro), seu representante e chefe da sua Igreja. São Pedro era pescador do lago de Genesaré ou Mar da Galileia, junto com seu irmão, André, e seus amigos João e Tiago. Foi ali que Jesus o chamou: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram” (Mt 4, 19-20).

Pedro se chamava Simão. Jesus lhe mudou o nome, significando sua missão, como é habitual nas Escrituras: “Tu és Simão, filho de João. Tu te chamarás Cefas! (que quer dizer Pedro – pedra)” (Jo 1, 42). Quando Simão fez a profissão de Fé na divindade de Jesus, este lhe disse: “Não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as forças do inferno não poderão vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus (a Igreja): tudo o que ligares na terra será ligado nos céus e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16, 13-19).

Corajoso e com imenso amor pelo Senhor, sentiu também sua fraqueza humana, na ocasião da prisão de Jesus, na casa de Caifás, ao negar três vezes que o conhecia. “Simão, Simão! Satanás pediu permissão para peneirar-vos, como se faz com o trigo. Eu, porém, orei por ti, para que tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc 22, 31-32).  E Pedro, depois de ter chorado seu pecado, foi feito por Jesus o Pastor da sua Igreja. 

São Pedro, fraco por ele mesmo, mas forte pela força que lhe deu Jesus, representa bem a Igreja de Cristo. “Cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica, edificada por Jesus Cristo sobre a pedra que é Pedro… Cremos que a Igreja, fundada por Cristo e pela qual Ele orou, é indefectivelmente una, na fé, no culto e no vínculo da comunhão hierárquica. Ela é santa, apesar de incluir pecadores no seu seio; pois em si mesma não goza de outra vida senão a vida da graça. Se realmente seus membros se alimentam dessa vida, se santificam; se dela se afastam, contraem pecados e impurezas espirituais, que impedem o brilho e a difusão de sua santidade. É por isso que ela sofre e faz penitência por esses pecados, tendo o poder de livrar deles a seus filhos, pelo Sangue de Cristo e pelo dom do Espírito Santo” (Credo do Povo de Deus).

 “Enquanto Cristo ‘santo, inocente, imaculado’, não conheceu o pecado, e veio expiar unicamente os pecados do povo, a Igreja, que reúne em seu seio os pecadores, é ao mesmo tempo santa, e sempre necessitada de purificação, sem descanso dedica-se à penitência e à renovação. A Igreja continua o seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus, anunciando a paixão e a morte do Senhor, até que ele venha. No poder do Senhor ressuscitado encontra a força para vencer, na paciência e na caridade, as próprias aflições e dificuldades, internas e exteriores, e para revelar ao mundo, com fidelidade, embora entre sombras, o mistério de Cristo, até que no fim dos tempos ele se manifeste na plenitude de sua luz” (Lumen Gentium, 8). 

 

 

 

Vestir os despidos

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

 

Em nossa Carta Pastoral “Com Misericórdia olhou para Ele e o Escolheu”, sugerimos como obra de misericórdia para o mês de junho “Vestir os despidos” (Cf. Carta Pastoral 23,3). Olhemos para o Santo Evangelho de Mateus 25, 34-44: o ator principal é o “Filho do Homem”, aquele ser humano que recebe de Deus plenos poderes sobre o mundo, conforme a visão de Dn 7,13-14. É o próprio Jesus. Ele vem com a glória de Deus e reúne diante de si todos os povos. Como um rei – tendo a última palavra em seu reino – Ele vai julgar “todos os povos”. Ora, qual vai ser o critério para julgar esses povos? Assim como um pastor, ao anoitecer, separa os cordeiros dos bodes para que passem a noite em ambientes diferentes, o rei-juiz separa os bons dos maus. Os bons, Ele os faz entrar na Sua alegria, porque lhe deram comida, bebida, hospedagem, roupa, assistência na prisão… E eles perguntaram: “Senhor, não sabemos nada disso”! Então responde: “O que fizeste ao menor desses meus irmãos (os famintos, sedentos, despidos etc.), foi a mim que o fizeste”. E os maus, Ele os condena, porque não fizeram essas boas ações. Tampouco estes têm consciência de quando foi que não tratarem bem o rei. E ele responde: “O que deixastes de fazer a um desses menores irmãos meus, a mim o recusastes”.

Discute-se o que Jesus quer dizer com os “menores dos meus irmãos”. Parece que é das pessoas sem ignorância em geral que se trata, pois os que praticaram as boas ações fizeram-no sem saber que estavam fazendo algo importante. “Faze o bem e não olha para quem”.

É na caridade gratuita, sem consideração da pessoa, que se encontra o critério pelo qual Jesus julga “todos os povos”. Na perspectiva dos israelitas, o julgamento se pauta segundo a observância da Lei de Moisés. Mas Jesus veio anunciar o Reino para além dos limites do Judaísmo. Para além da Lei de Moisés. Para os povos em geral, as pessoas da humanidade universal, o critério para saber se eles cabem ou não ao lado de Deus é este: a caridade exercida gratuitamente, sem olhar para quem. O que agrada a Deus é o amor perfeito efetivo que demonstramos para com Seus filhos, especialmente os mais insignificantes, os mais pequenos.

Desde tempos remotos que o vestuário faz parte integrante de um direito mais vasto, o direito a um nível de vida adequado, reconhecido pelo artigo 25º da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O vestuário serve para cobrirmos o exterior do nosso corpo e proteger a nossa dignidade, a nossa interioridade. Na Bíblia, a nudez é vista essencialmente como negativa, pois retira a identidade e a dignidade do ser humano. No livro do Gênesis, a nudez aparece como consequência do pecado: Adão e Eva, despidos da graça de Deus, olham-se com vergonha e escondem-se de Deus.

É preciso ter a sensibilidade do coração a fim de que saibamos fazer alguma coisa para vestir as pessoas carentes, cujos corpos são templos do Espírito Santo e merecem ser vestidos com dignidade. Agora no inverno, essa necessidade é ainda mais premente para muitas pessoas que não estão preparadas para enfrentar o frio deste tempo, seja em suas residências, seja, principalmente, aqueles que fazem parte da população de rua e que dormem ao relento em nossas cidades.

 Esta obra de misericórdia pode ser realizada pela oferta de roupas que sejam úteis a uma família pobre e necessitada, ou às pessoas, individualmente, oferta que pode ser entregue diretamente para uma determinada família ou pessoa necessitada, ou entregue a uma instituição de caridade que preste essa assistência. Em nossa Arquidiocese, a Caritas Arquidiocesana tem um meritório trabalho de atendimento fraterno em favor dos que estão nessa situação. Nesse sentido, pode-se encaminhar as roupas que se dispõe para a Catedral Metropolitana. Mas também as paróquias e vicariatos episcopais estão abertos para acolher a doação das pessoas e depois encaminhá-las aos necessitados. Muitas já o fizeram e continuam fazendo ainda neste período que continua a marcar este tempo invernal. Isso não quer tirar a iniciativa que cada um pode ter em atender pessoalmente, em sua rua ou sua região ou mesmo pelas ruas da cidade, aqueles que necessitam desse carinho de irmãos. 

Aqueles que têm condições não tenham respeito humano em adquirir roupas novas, cobertores para serem encaminhados aos que estão nus e que tanto precisam, particularmente neste período em que está fazendo tanto frio. Todos nós podemos doar roupas que já foram usadas, mas estão em bom estado e podem ser bem aproveitadas.

“Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25, 34;36;40). A roupa que se amontoa e ganha mofo nos nossos armários pertence e faz falta a muitos pobres. 

Embora tenhamos chegado ao final do mês de junho, em que essa sugestão foi feita como obra de misericórdia, o gesto precisa continuar enquanto durar este tempo mais frio em nossa região. Mesmo tendo outra sugestão para o mês de julho como obra de misericórdia, isso não impede de continuar “vestindo os nus” ou dando agasalho a quem necessita. Queridos irmãos, somos chamados, neste Ano da Misericórdia e neste tempo de inverno, a vivenciar este dom que é saber ajudar aos mais pequeninos, sobretudo aqueles que estão nas ruas e passam fome e frio, ou ainda aquela família vizinha que não tem uma roupa de frio para se cobrir. Tudo isso o fazemos em Cristo, com quem nos encontramos na pessoa do irmão. 

 

 

 

Solidariedade à luta da Juventude Rural

Dom Reginaldo Andrietta
Bispo de Jales

 

A 17ª Romaria da Terra e das Águas do Estado de São Paulo, promovida pela Comissão Pastoral da Terra da Igreja Católica, será realizada em Altair (SP), no próximo dia 24 de julho. Sua realização, às vésperas da Jornada Mundial da Juventude, é um motivo a mais para denunciar situações de sofrimento, apresentar reivindicações e reforçar a luta, especialmente, da juventude rural.

O Estado de São Paulo, por ser bastante industrializado e urbanizado, esconde sua realidade rural, especialmente a situação dos trabalhadores jovens. Apesar disso, a juventude rural possui importância e demanda políticas públicas que ajudem a superar seus desafios.

De acordo com o censo do IBGE de 2010, a população rural brasileira perdeu dois milhões de pessoas entre 2000 e 2010, que representavam na época, 15,6% da população do país. O Estado de São Paulo que, no ano de 2010 registrou 41.262.199 de habitantes, teve o maior êxodo rural dos últimos anos no Brasil, reduzindo-se a 1.676.948 pessoas na área rural.

Trata-se de um êxodo, sobretudo de jovens que buscam oportunidades que não encontram no campo, tais como estudo, qualificação profissional e rentabilidade. A alta competitividade do mercado inviabiliza suas atividades agropecuárias, sobretudo de cunho familiar.

Os trabalhadores rurais que, tradicionalmente, viviam dessas atividades, dependendo de seus filhos jovens, têm vendido ou arrendado suas terras para grandes empresas do agronegócio, favorecendo ainda mais a concentração dos meios de produção agropecuários. Por um lado, o campo se moderniza, por outro se esvazia de empreendedores jovens. Restam os boias-frias que trabalham sobretudo nas monoculturas, especialmente nos canaviais que não param de crescer.

Do ano 2000 a 2008, a área de cultivo de cana-de-açúcar no Estado, quase dobrou; passou de 2,8 para 4,8 milhões de hectares. Nele, se usa, acentuadamente, agrotóxicos de alto risco e em muitos lugares ainda se praticam queimadas que destroem a biodiversidade. Sabe-se da sua acelerada degradação ambiental e contaminação da água, inclusive do subsolo. Pouco se sabe, porém, sobre as condições de vida dos seus trabalhadores rurais, especialmente jovens.

No Brasil, o setor do açúcar e do álcool emprega mais de 3,5 milhões de pessoas. No Estado de São Paulo, quase 200 mil pessoas trabalham na colheita manual e sazonal da cana-de-açúcar, grande parte jovens vindos de regiões mais pobres do país, especialmente do norte e nordeste. Eles abandonam a escola, com baixa escolaridade e deixam seus familiares para poderem trabalhar especialmente neste Estado, enviando-lhes quando podem, minguados recursos. 

Muitos deles saem de regiões rurais onde a taxa de analfabetismo é alta. Alojam-se nas periferias de cidades pequenas e médias, em condições precárias. Trabalham em condições perigosas, expostos à alta radiação solar, chuvas e animais peçonhentos; aspiram fuligem, poeira e agrotóxicos; sofrem continuamente acidentes com equipamentos de trabalho e transportes impróprios; fazem esforços físicos estafantes que, em muitos casos, provocam mortes; são induzidos a consumirem drogas; alimentam-se mal; adoecem com frequência; e recebem poucos cuidados médicos. Muitos são submetidos a condições de semiescravidão.

Essa 17ª. Romaria da Terra e das Águas do Estado de São Paulo, será, portanto, oportuna para que, especialmente a juventude rural mostre uma vez mais o seu rosto de sofrimento e de luta. Estejamos presentes! Manifestemos-lhe nossa solidariedade!