Eucaristia e partilha na Amazônia missionária

DOM ALBERTO TAVEIRA CORRÊA

Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

“Há um ponto que considero relevante para o caminho atual e futuro não só da Igreja no Brasil, mas também de toda a estrutura social: a Amazônia. A Igreja está na Amazônia, não como aqueles que têm as malas na mão para partir depois de terem explorado tudo o que puderam. Desde o início que a Igreja está presente na Amazônia com missionários, congregações religiosas, sacerdotes, leigos e bispos, e lá continua presente e determinante no futuro daquela área. Queria convidar todos a refletirem sobre o que Aparecida disse a propósito da Amazônia, incluindo o forte apelo ao respeito e à salvaguarda de toda a criação que Deus confiou ao homem, não para que a explorasse rudemente, mas para que tornasse ela um jardim. No desafio pastoral que representa a Amazônia, não posso deixar de agradecer o que a Igreja no Brasil está fazendo: a Comissão Episcopal para a Amazônia, criada em 1997, já deu muitos frutos e tantas dioceses responderam pronta e generosamente ao pedido de solidariedade, enviando missionários, leigos e sacerdotes. Mas eu quero acrescentar que deveria ser mais incentivada e relançada a obra da Igreja. Fazem falta formadores qualificados, especialmente formadores e professores de teologia, para consolidar os resultados alcançados no campo da formação de um clero autóctone, inclusive para se ter sacerdotes adaptados às condições locais e consolidar por assim dizer o rosto amazônico da Igreja. Nisto lhes peço, por favor, para serem corajosos, para terem parresia!” (Papa Francisco, Discurso aos Bispos do Brasil, na Jornada Mundial da Juventude, 2013). Na mesma ocasião, quando me apresentei pela primeira vez ao Papa, ouvi dele expressões semelhantes: “Sejam ousados, tenham coragem. Se lhes faltar a ousadia, já estarão errados de princípio!”

A Arquidiocese de Belém quer ser ousada, ao realizar em terras amazônicas, pela segunda vez, um Congresso Eucarístico Nacional, programado para os dias 15 a 21 de agosto de 2016, convocando todo o Brasil para celebrar conosco a grandeza do Mistério da Eucaristia. O XVII Congresso Eucarístico Nacional se realiza no Quarto Centenário do início da Evangelização da Amazônia e da fundação da Cidade de “Santa Maria de Belém do Grão Pará”. A estação do Congresso Eucarístico é convocação a todo o Brasil, reunido e peregrino, para viver e testemunhar a vocação que é nossa e de toda a Igreja. Nosso tema é “Eucaristia e partilha na Amazônia Missionária”. Queremos viver juntos o Congresso, para que se realize mais uma vez, aqui em Belém, Portal da Amazônia, o que acontece na Igreja desde seus albores: “Eles o reconheceram no partir do pão” (Lc 24, 35), o lema que escolhemos.

Nossa história amazônica é marcada pela generosidade de levas de missionários, irmãos e irmãs que vieram de tantas partes do Brasil e do Mundo, para trazer a Boa Nova do Evangelho, nos séculos que nos precederam. Somos imensamente gratos por tudo o que recebemos! E os frutos não se fizeram esperar, pois aqui existe um povo, não só missionado e ajudado por tantos outros, mas com uma raiz missionária latente e tantas vezes já pujante em nossas veias da fé. Sabemos o quanto a Amazônia pode oferecer ao Mundo e à Igreja, para que nossa pobreza partilhada contribua para a edificação do Reino de Deus.

A imensidão das terras amazônicas nos inspirou a realização de uma peregrinação pelos espaços da fé, conduzidos pelas mãos do Senhor Jesus. Ele passou pelas estradas da Galileia e da Judeia e por algumas áreas circunvizinhas, em regiões de estrangeiros, mas peregrinou, de lá para cá, em terras e corações. Nós também percorremos distâncias, seguindo o roteiro da fé, mais do que um passeio por terras diversas, em preparação ao Congresso e à luz do tema do Congresso Eucarístico. 

Com Jesus conhecemos o Mistério de sua presença e da Eucaristia, começando por Jerusalém. Sabemos que de lá se irradiou o conhecimento e a prática da vida eucarística da Igreja, a que desejamos ser fiéis, até que ele venha! O primeiro que nos relatou a história da última Ceia e primeira Missa foi São Paulo: “De fato, eu recebi do Senhor o que também vos transmiti…” (1 Cor 11, 23). E a Igreja, peregrina na história, aprofundou o Mistério e o testemunha em toda parte, do nascer ao por do sol. O Senhor antecipou sacramentalmente sua entrega na última Ceia. Após a Ressurreição, ele se manifestou a vários de seus discípulos, amigos e amigas. Como somos peregrinos na história, pedimos ajuda aos Discípulos de Emaús, para aprender a reconhecê-lo no partir do Pão (Cf. Lc 24, 35). 

Nosso desejo sincero é que todos os participantes do XVII Congresso Eucarístico Nacional reconheçam sua presença e se tornem missionários e missionárias, levando consigo a riqueza do que vivemos juntos. Ao reconhecê-lo no partir do pão, lembramo-nos de nosso nome, Belém, Casa do Pão. Da mesma forma com que ressoou o convite ao VI Congresso Eucarístico Nacional, aqui realizado, ou como ecoou de Brasília para o Brasil o anúncio feito em 2010, no encerramento do XVI Congresso Eucarístico Nacional, desejamos que o Brasil inteiro repita conosco: “Vamos a Belém, para ver o que aconteceu, segundo o Senhor nos comunicou” (Lc 2, 15). Após a Ressurreição, o Senhor apontou para a Galileia, onde reconhecemos nosso horizonte aberto na Amazônia e em todo o Brasil, para levar adiante nossa responsabilidade de “discípulos missionários”. Em nossa Nazaré, inspirados pela devoção à Rainha da Amazônia, Nossa Senhora de Nazaré e por ela conduzidos, encontramos as indicações para vivermos os frutos pastorais do XVII Congresso Eucarístico Nacional, oferecendo-as como dom a todo o Brasil. Enfim, coerentes com a devoção mariana de nossas terras amazônicas, vamos à Casa de Maria, Mulher Eucarística, que nos conduz pelas mãos para vivermos o XVII Congresso Eucarístico Nacional.

 

Vida familiar, uma escola

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo de Belo Horizonte (MG)

Há uma perigosa, progressiva e ameaçadora perda do sentido da vida como dom precioso. São muitos os cenários que comprovam a maneira relativista com que se vem tratando a vida: o resultado é a crescente perda de seu valor sagrado. Assim, torna-se urgente compreender e investir sempre mais em processos educativos que permitam o enfrentamento dessa realidade problemática e ameaçadora. Isso porque a dinâmica da delinquência, incentivada pela impunidade, entra sorrateiramente no tecido da cultura urbana, moldando o comportamento de pessoas e grupos. 

Nesse cenário, gravíssimo é constatar o quanto está corroído o núcleo da consciência individual pelas escolhas subjetivistas, voluntaristas, norteadas por conveniências que relevam até mesmo preconceitos e ódios. Desse modo, esses adiantados processos de delinquência surgem na contramão de tudo o que se pode presumir. Há um pisca alerta em último grau indicando a urgência de programas educativos mais efetivos para enfrentar esse caos. Os altos preços já pagos e os prejuízos evidentes alertam para o agravamento dos mais diversos tipos de violência, desde o terrorismo de estado até aquelas que se escondem no silêncio dos lares, a exemplo das abomináveis agressões às mulheres.

Não bastam, porém, apenas intervenções pontuais nessas situações todas. É preciso completa reorganização nos funcionamentos da sociedade, considerando, sobretudo, o apreço sagrado pelo dom da vida. Inclui-se aí o enorme desafio de articular a complexidade e a diversidade das linguagens e das simbologias em meio às velozes transformações socioeconômicas, religiosas, políticas, culturais e ambientais. Também não bastam as intervenções estruturais na organização externa das realidades urbanas. É preciso investir em contextos com impactos estruturantes. No cenário amplo dos investimentos educativos, os governos, as igrejas, as academias e os demais segmentos devem priorizar a família, sempre mais. 

Mesmo considerando-se superada a fase vivida recentemente, de relativização da família e até mesmo da preconização do seu fim, ainda são necessários ajustes na compreensão do que ela realmente representa. É essencial ter-se a clareza da importância de se constituir o núcleo familiar para ser qualificado no contexto educativo e, assim, ser capaz de questionar as realidades. Antes e acima do ensino formal, está a família. Escola indispensável, nela se configuram os elementos estruturantes do caráter, da socialização, do exercício da liberdade, da cidadania e da capacidade de amar. Tudo isso mantém acesa a chama do respeito à sacralidade da vida, força capaz de reconfigurar os cenários que a ameaçam. 

É na família que nasce o novo caminho no enfrentamento daquilo que esgarça o tecido da cultura urbana, ao formar cidadãos capazes de oferecer a força do testemunho imprescindível a toda transformação, fundamentado na justiça, na verdade e na paz. Essa competência para intervir positivamente na realidade estrutura-se primeiramente a partir das relações familiares. Com a preponderância das figuras parentais é que se dá o aprendizado da indispensável dinâmica da reciprocidade, do sentido do outro, de sua dignidade e, sobretudo, do gosto por amparar e promover a vida. 

A primeira e mais importante escola da vida não pode, contudo, caminhar sozinha. Esses desafios todos exigem políticas públicas adequadas, espiritualidade qualificada, sentido social e político da cidadania, que resultem em práticas capazes de fecundar o respeito incondicional à vida. 

Âmbito da socialização primária, a família oferece os meios insubstituíveis de produção de um tecido urbano mais civilizatório, constituindo-se em lugar privilegiado para se repensar hábitos, relacionar-se com os outros, respeitar, ouvir e dialogar. Se não se aprende as boas maneiras de convivência em casa, comprometido estará o modo de se habitar em meio à comunidade, empurrando, mais aceleradamente, a sociedade para o caos.

A abordagem desta questão, emoldurada pela complexidade da cultura urbana contemporânea e pela realidade desafiadora própria da família, convida a refletir, debater e investir em novos cenários para fazer da vida familiar uma verdadeira escola. Todos somos sempre aprendizes.

 

 

 

Jornada Mundial da Juventude – O Regresso

Dom José Gislon

Bispo Diocesano de Erexim

Desde terça-feira até este último domingo de julho, está sendo realizada na cidade de Cracóvia, Polônia, a 31ª Jornada Mundial da Juventude. Penso que está ainda bastante presente na nossa memória as imagens da Jornada Mundial da Juventude de 2013, realizada no Brasil, mais precisamente na cidade do Rio de Janeiro. Naquela Jornada, uma multidão de jovens acolheu o recém-eleito Papa Francisco, o primeiro Papa do Continente Americano, que com seu jeito tão paterno falou não só para os ouvidos, mas ao coração dos jovens, das crianças, dos adultos e dos idosos, de uma forma bastante incisiva do compromisso do cristão na sociedade. 

Esta Jornada Mundial da Juventude tem um caráter particular. Ela acontece na monumental cidade Cracóvia, terra de santos e mártires, local onde nasceu a devoção à Divina Misericórdia, onde foi bispo e depois Papa o agora São João Paulo II. Foi ele, que tinha um apreço especial pelos jovens, quem introduziu na Igreja a Jornada Mundial da Juventude. Ele tinha um carisma todo especial para interagir com os jovens, assim como o Papa Francisco. 

Sei que muitos jovens fizeram grandes sacrifícios para poderem participar desta Jornada. Alguns caminharam durante vários dias para poderem chegar até lá, outros passaram os últimos três anos, economizando, fazendo promoções, pedindo colaboração para poderem pagar as despesas. Tudo por um objetivo, estar na Jornada Mundial da Juventude, encontrar milhares de outros jovens, de mais de cento e oitenta países, que falam dezenas de línguas diversas, com centenas de culturas diferentes, dispersos nos cinco continentes, mas todos foram até Cracóvia porque tem algo em comum que os reúne, a fé em Jesus Cristo. 

Creio que a participação na Jornada Mundial da Juventude em Cracóvia poderia também ser acolhida como uma oportunidade para mergulhar numa realidade histórica de mais de mil anos de cristianismo, sem esquecer as feridas que marcaram a vida daquele povo e daquela nação. E poder trazer na bagagem espiritual o testemunho da fé dos mártires e dos santos que na vida não abandonaram Jesus nem a cruz. 

 

 

 

Tomai cuidado contra a ganância 

Dom Caetano Ferrari
Bispo de Bauru (SP)

No Evangelho da Missa de hoje – Lc 12,13-21 – alguém do meio da multidão faz um pedido excêntrico a Jesus: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. Jesus reage, esquivando-se: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?”. Como a pergunta foi feita em público, Jesus aproveita a situação, como era hábito seu, para discorrer sobre os bens materiais e a riqueza, admoestando contra a ganância, a ambição por lucros e ganhos e as preocupações mundanas com a questão do bem estar. Ele diz-lhes: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens”. E conta-lhes a parábola daquele homem rico que obteve uma grande colheita a ponto de ter de construir novos celeiros para guardar todo o trigo colhido. E depois que ele entesourou seu trigo com os seus bens, disse para si mesmo essa pérola de “idiotice”: “Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!” E a parábola continua: “Mas Deus disse a esse fazendeiro: Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?” Jesus conclui a parábola, dizendo: “Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”. 

Como venho repetindo que precisamos voltar ao Catecismo, isto significando a necessidade de retomarmos os ensinamentos fundantes da fé, com os seus conceitos e preceitos básicos tirados dos Evangelhos e como ensinados fielmente por nossa santa Igreja, porque parecem relativizados ou esfumaçados, tomo a liberdade de buscar a inspiração do antigo pequeno livro intitulado “Imitação de Cristo”. A Imitação de Cristo é um livro que não perdeu o seu valor, embora ande esquecido. Costumava-se dizer, não faz muito tempo, que de todos os livros saídos das mãos dos homens, a Imitação de Cristo era o mais admirável e o mais popular livro dos cristãos. Quando em 1956 fui para o Seminário, levei a Imitação de Cristo, pois fazia parte dos itens dos acessórios para o ingresso no Seminário. Tenho ainda comigo este exemplar publicado pela Editora Ave Maria, edição de 1956. Embora nunca o tenha abandonado, pois me acompanha a despeito das diversas mudanças de endereço que tive na vida, confesso que houve tempo em que ficou esquecido na estante. Eu também me deixei seduzir pelas modernas teorias e teologias, muitas ótimas, mas muitas nem tanto, que andaram a nos motivar, a título de renovação, a jogar fora com a água suja a própria criança que recebia o banho. Para bom entendedor, não será difícil de entender o que estou querendo dizer, pois meia palavra basta.       

Que há de aproveitável na Imitação de Cristo sobre o assunto do Evangelho de hoje? Nesse livro há sim poucas e boas. Não se pense de encontrar nele ensinamento novo ou algo que não seja segundo a verdade e a sabedoria das Sagradas Escrituras. Ele se baseia em tudo exatamente de acordo com a Palavra de Deus. O impactante e admirável ao relê-lo, ao menos para mim, é o estilo de falar às claras, de ir direto à “veia”, sem pretensões de adoçar ou amenizar os impactos. No espírito de hoje diz-se que tal estilo, se usado nas homilias, seria um falar politicamente incorreto. Afastaria as pessoas da Igreja, não acostumadas hoje a ouvir o que não agrada. Pois bem, dá gosto de ler estas palavras que põem o dedo na ferida: “Ainda que tu soubesses de cor toda a Bíblia e os ditos de todos os filósofos, que te aproveitaria tudo isto sem o amor e a graça de Deus? Vaidade das vaidades, tudo vaidade, exceto amar a Deus e só a Ele servir (cf. Ecl. 1,2). A suma sabedoria é, pelo desprezo do mundo, caminhar para o reino dos céus. E assim vaidade é buscar riquezas perecedouras e pôr nelas a esperança. Vaidade é também desejar honras e desvanecer-se com elas. Vaidade é seguir os apetites da carne e desejar aquilo por onde depois hás de ser gravemente castigado. Vaidade é desejar vida larga e cuidar pouco de que seja boa. Vaidade é também olhar somente a esta presente vida e não prever o que virá depois. Vaidade é amar o que tão depressa passa e não buscar com fervor a felicidade que sempre dura”. Prosseguindo nessa fala, o autor do livro dá um arrocho, encostando a faca no pescoço: “Riquezas, prazeres, honras, que é tudo isso quando se lança o corpo na sepultura, e a alma vai para a sua eternidade? Pensa nisto seriamente desde hoje, porque amanhã talvez já seja tarde! Trabalha enquanto é dia, antes que chegue a noite eterna! Entesoura riquezas que não perecem nem os ladrões roubam”.

Na primeira leitura da Missa, lê-se o trecho do Eclesiastes ao qual a Imitação de Cristo se refere. O Eclesiastes passa uma lição de desapego dos bens terrestres, chamando a atenção para frisar que é pura vaidade a pseudo felicidade dos ricos. Jesus vai dizer como de fato o disse que bem-aventurados são os pobres, porque deles é o Reino de Deus (cf. Lc, 6,20).