O Senhor fala ao seu povo!

Dom José Gislon
Bispo de Erexim

 

Estimados Diocesanos! Neste Ano Santo do Jubileu da Misericórdia, a Igreja Católica no Brasil nos propõe, no Mês da Bíblia, um estudo sobre o livro do profeta Miqueias. Ele era natural de Moréchet, um pequeno povoado de Judá, distante cerca de 35 km de Jerusalém.  Viveu entre 740 e 700 a.C. Sabemos pouco da sua realidade social; devia ser alguém ligado à agricultura, pois as suas críticas contra os nobres da época fazem supor que ele era um pequeno proprietário ou um trabalhador da terra. O seu nome significa: “Quem é como o Senhor”.

O Mês da Bíblia deste ano traz como lema: “Praticar o direito, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus”, baseado no texto do livro de Miqueias (Mq 6,8). Miqueias viveu em um momento difícil da história do povo de Deus e do próprio país. Foi um tempo marcado por invasões militares estrangeiras, por problemas de ordem militar, política e social. Esta realidade tão complexa que afetava diretamente a vida do povo é externada na voz profética de Miqueias. Ele nos dá uma visão pessimista de uma sociedade marcada pela situação de penúria das viúvas e dos órfãos desamparados e sem patrimônio, frente à ambição desmedida dos dirigentes. A corrupção, a injustiça e a falsidade assolavam o país e a desconfiança era geral, mesmo no interior da própria família.

Miqueias, com suas palavras proféticas, torna-se um dos grandes defensores da justiça. Preocupa-se com a situação daqueles que, espoliados dos seus bens e humilhados diante da situação social, se convertem em presas fáceis na mão de pessoas inescrupulosas. Estes são os que se baseiam no automatismo das promessas divinas, os que pensam estar seguros, enquanto o povo é vítima dos desmandos. 

Diante desta situação, Deus não pode ficar impassível. Por isso, Miqueias anuncia o castigo contra aqueles que cometem injustiças e arbitrariedades que fazem sofrer os mais desprotegidos. Miqueias é um homem que confia na ação de Deus e nas suas promessas. Por isso, proclama a esperança num futuro de justiça, que será alcançado percorrendo o caminho da humildade que leva à conversão e à salvação.

 

 

 

Posse que é serviço

Dom Aloísio Alberto Dilli
Bispo de Santa Cruz do Sul

 

Caros diocesanos. Ainda envolvidos pela emocionante celebração do dia 28 de agosto, chamado Dia da Posse ou Celebração da Posse do novo Bispo, podemos perguntar-nos: O que significa mesmo alguém tomar posse na Igreja? Certamente não tem nada a ver com ser dono e acumular bens ou riquezas; nem oportunidade para se tornar mais poderoso em posses. No verdadeiro espírito de Igreja, que sempre deve vir do Evangelho, tomar posse significa tornar-se responsável pela administração da multiforme graça de Deus para as pessoas que são confiadas a alguém (Cf. 1Pdr 4, 10). Logo, o sentido primeiro para a expressão jurídica tomar posse é colocar-se a serviço, é doar-se para os outros, enfim, é amar, é dar a vida. Jesus ensinou que Ele não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos (Cf. Mc 10, 45) e, ao transmitir o mandamento do amor, lavou os pés de seus discípulos (Cf. Jo 13, 1-17). Em relação ao novo Bispo, sua posse significa, portanto, início do ministério, do serviço ao Povo de Deus que lhe é confiado pela Igreja, que nós chamamos: Diocese ou Igreja Particular. 

No simbolismo Pastor-Ovelhas, a posse significa que o Bispo, como pastor, em nome do Senhor, inicia o cuidado das ovelhas que lhe são confiadas para o pastoreio. Por isso o bispo usa um símbolo significativo: o báculo ou cajado, instrumento para dirigir, orientar e proteger as ovelhas.O Papa Francisco, no documento A Alegria do Evangelho, diz que o Bispo precisa favorecer a comunhão missionária na Igreja: “Às vezes por-se-á à frente para indicar a estrada e sustentar a esperança do povo, outras vezes manter-se-á simplesmente no meio de todos com sua proximidade simples e misericordiosa e, em certas circunstâncias, deverá caminhar atrás do povo, para ajudar aqueles que se atrasaram e, sobretudo, porque o próprio rebanho possui o olfato para encontrar novas estradas” (EG 31). 

O Bispo, em seu ministério, também deverá ser profeta, aquele que fala em nome de Deus, quando ensina, que anuncia incansavelmente a Palavra de Deus; se torna sacerdote, como aquele que celebra os mistérios de Deus, qual pontífice (pontifex = faz ponte) que santifica a vida da porção do Povo de Deus pelo qual se torna responsável. Portanto, as principais tarefas, serviços, ministérios do Bispo, a partir de sua posse, são ensinar (Palavra de Deus), santificar (celebração) e orientar (direção) o Povo a ele confiado. Evidentemente, ele não está só nesta sublime missão, pois ele está ligado à toda Igreja, Povo sacerdotal pelo batismo, pelo qual todos se tornam também discípulos missionários (DAp). Fazem parte especial do sacerdócio do Bispo os presbíteros, inclusive, são ordenados por ele como seus colaboradores. Surge, assim, a comunhão sacerdotal ou fraternidade presbiteral, em que o bispo deve ser o sinal da unidade. 

Que nossa posse, celebrada com tanta participação e solenidade, seja o início de nosso serviço, em nome do Senhor, na querida Diocese de Santa Cruz do Sul.

 

 

O preço de ser cristão

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo  de Campos (RJ)

 

O Evangelho deste domingo nos faz refletir no custo e ao mesmo tempo nas consequências do discipulado e seguimento de Jesus. O profeta da Igreja Confessora Luterana Dietrich Benhoefer afirmava antes de ser enforcado pelo nazismo,  que muitos cristãos buscavam uma graça barata, perdão sem conversão, santidade sem compromisso, espiritualidade indolor e confortante, sem sacrifício nem entrega. 

Jesus é claro e categórico na proposta para quem deseja ser seu discípulo: “Quem não toma a sua cruz para me seguir, não pode ser meu discípulo”. Muitas vezes para tornar mais atraente o Evangelho, o aguamos, tiramos dele as exigências e o mundanizamos, convertendo-o em produto palatável e digerível para todos/as. Assim não falamos de pecado e muito menos de pecado estrutural, desligamos a mensagem de qualquer compromisso com os pobres, pois,  pensamos que isso não é ortodoxo. 

Optamos como diz o papa Francisco pelo mundanismo espiritual, um perfeccionismo voluntarista autoreferencial de cunho farisaico. No entanto a Cruz de Cristo aponta para o serviço gratuito, amoroso e compassivo, em dar a vida em resgate por muitos. É importante entender que o seguimento de Jesus, o Rosto da Misericórdia do Pai, implica em partilhar como

 Ele próprio disse a Tiago e a João em beber do mesmo cálice, o cálice da entrega solidária pela redenção dos irmãos/ãs. As parábolas da construção da torre e do rei que se prepara para enfrentar em batalha seu inimigo, estão a exigir um discernimento de nossa capacidade de renúncia e opção radical pelo Reino, sem compensações e ambiguidades que mistificam nossa vivência de fê e nos impedem de assumir um compromisso adulto e coerente.

 Não nos conformemos com um cristianismo meia boca, adocicado e medíocre, porque  sabemos muito bem o pensamento de Jesus no Apocalipse a respeito da tibieza, do autoengano e das aparências externas. Que neste mês de setembro consigamos imitar a escuta dócil e obediente do servo de Javéh, sempre voltado a Palavra e Missão do Pai, de testemunhar com mansidão e firmeza o amor misericordioso que liberta e eleva aos oprimidos. Deus seja louvado!

 

 

 

A romaria diocesana

Dom Luiz Demétrio Valentini
Bispo Emérito de Jales

 

A pedido de Dom Reginaldo Andrietta, bispo Diocesano de Jales, apresento algumas ponderações sobre a Romaria Diocesana. 

Como todas as outras, também esta 32ª Romaria foi muito bonita. A chuva da véspera, e ao longo de quase toda a manhã, em vez de prejudicar, acabou proporcionando um clima muito favorável, tanto para a caminhada como para a celebração da eucaristia na Praça da Catedral. 

De tal modo que tudo transcorreu bem, dentro da tradição das romarias diocesanas, que vêm se realizando há mais de trinta anos, de acordo os objetivos que foram propostos desde o seu início, e que vêm se mantendo até hoje.

De fato, desde o seu início, as romarias foram pensadas como uma expressão da unidade diocesana, como oportunidade para se cultivar a consciência histórica da Diocese, valorizando a tradição religiosa do povo e dando-lhe mais consistência eclesial por sua vinculação com as comunidades e com a Diocese. 

Foi assim criado um bom instrumento de pastoral, para cultivar a identidade da Diocese como Igreja Local, e como momento propício para colocar a Diocese em sintonia com as grandes causas que a Igreja nos apresenta em cada ano.  

Depois de passados mais de trinta anos de romarias diocesanas, é útil, e interessante, conferir nos arquivos da Diocese como surgiram as romarias, e quais as esperanças que motivaram sua realização. 

Já em fevereiro de 1985, tinha amadurecido a decisão de se fazer uma romaria para concluir a celebração do Jubileu de Prata da Diocese.  Assim se divulgava a proposta:  

“Para culminar a celebração do Jubileu e envolver de maneira popular as comunidades da Diocese, está sendo planejada uma romaria para a sede da Diocese. Será a oportunidade para a convergência do povo para a Diocese, e a recordação dos principais momentos de sua história”.

Desde o início se intuía que a Romaria seria viável e válida, como gesto assumido e expresso de maneira popular, através de uma caminhada que favorecesse a participação de todos.

A ideia de reimplantar o cruzeiro da fundação de Jales trouxe uma nova motivação para a projetada romaria: “Na Romaria do dia 18 de agosto será reimplantado, na Praça da Catedral, o antigo cruzeiro da cidade, que naquele dia será carregado em procissão pelo povo, e permanecerá como recordação dos primeiros tempos e como lembrança da celebração do Jubileu”. 

A referência ao cruzeiro é outra característica da Romaria, que cada ano merece ser destacada.

Na avaliação da Romaria de 1985, se constatava que o povo não tinha deixado dúvidas quanto ao seu desejo de que a Romaria se repetisse em cada ano. Assim ficou mais fácil integrar as romarias na dinâmica da ação pastoral da Diocese, como podemos tranquilamente constatar ao longo de tantas romarias. E desta última, podemos dizer como foi dito da primeira: “quem viu não vai esquecer”.       

 

Renunciar

Dom José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG)

 

Quando nos apegamos a pessoas, lugares, animais, dinheiro ou a qualquer coisa, nem sempre é fácil renunciá-los. O que dirá dos vícios! Somente com o fortalecimento da vontade e em vista de uma necessidade ou um valor muito maior é que o fazemos.

Jesus nos desafia: “Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!” (Lucas 14,33). Para fazer isso, precisamos  conhecer bem quem é Ele e sua proposta de benefício. Se alguém somente vir nele um líder religioso, pode não levar muito a sério o que Ele diz. Ele fala de seu Reino a se implantar aqui na nossa vida e ser coroado na eternidade. Mas ele já morreu. Como podemos conseguir o Reino definitivo feliz? No entanto,  Ele está presente entre nós e estará na eternidade porque não ficou na morte, como nós mortais. Sua ressurreição nos dá a certeza de quem Ele é. Por isso, suas palavras devem ser levadas em consideração. Precisamos sim renunciar a tudo, ou seja, superar nosso apego a tudo para nos ligarmos de forma total a Ele. As afeições humanas são relativas e devem ser pautadas pelo absoluto de Deus. Daí o respeito aos valores que superam o puro animalesco e instintivo. Tudo é bom, mas assumido e usado dentro dos parâmetros do Criador. A ética, a moral, o respeito à dignidade da vida, da pessoa humana, da família, do sexo e de todos os valores inerentes à lei natural e divina revelada pelo Filho são indispensáveis para vivermos como pessoas humanas que têm dignidade.

O próprio Divino Mestre nos ensina sobre a cruz na vida. Ela está presente em nossos limites, desafios, transtornos e dificuldades pessoais e relacionais. Ninguém se priva disso. Mas podemos reverter a amargura de tudo em tentos de resultado positivo, quando tudo suportamos com amor à causa e ao porquê da vida de sentido, assumidas para realizar o bem. Dessa maneira compreendemos porque Ele diz que está conosco ajudando-nos a carregá-la. Nosso mérito será grande diante dele. Tudo é armazenado na caução de benefício para aqui e a eternidade. Aliás, vemos até nossos sacrifícios serem motivo de prazer, quando, por exemplo, lutamos para a aquisição de casa própria. O esforço pode ser grande, mas, uma vez atingido o objetivo, vemos que o esforço foi compensado. É justamente em vista do objetivo da vida assumida conforme o projeto divino é que renunciamos a outras opções, mesmo prazerosas, em vista de um valor maior, sabendo da recompensa divina. Ao contrário, se já temos a recompensa aqui na terra, na busca desenfreada de satisfações lícitas e ilícitas moralmente falando, não teremos o benéfico eterno prometido pelo Filho de Deus.

Vale a pena a renúncia, em vista da obtenção de valores superiores. Quem usa a vida para chantagear, prejudicar e diminuir o semelhante, certamente não terá um resultado bom para a eternidade e até mesmo aqui na terra. Muitos pensam que a justiça humana não vai acontecer para muitos desmandos. Mas essa também pode chegar para os falsos, inescrupulosos, imorais e corruptos. 

Deus é misericordioso e quer a conversão dos injustos e pecadores. Aliás, o Filho veio justamente para salvá-los. No entanto, é preciso haver a aceitação desses para acontecer o perdão e a mudança de vida. Enquanto é tempo, faz-se necessária a mudança de vida de quem se encaminha para o desvio de conduta na prática da injustiça. Da parte de quem já é convertido, a continuação da penitência e conversão deve ser permanente, pois, quem está de pé precisa  firmar-se para não cair.

 

 

Não ao sabor do vento

Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

 

                                                                                                                                          

“Que fostes ver no deserto? Uma cana agitada pelo vento?… Em verdade, eu vos digo, entre todos os nascidos de mulher não surgiu quem fosse maior que João Batista” (Mt 11, 7.11).

Já comemoramos o nascimento de São João Batista no dia 24 de junho. E no último dia 29, celebramos o seu martírio, sua degolação.

Qual foi a causa da sua morte? São João Batista pregava o arrependimento do pecado e a mudança de vida: “Convertei-vos…” (Mt 3,1). Era o homem da verdade, sem acepção de pessoas. O Rei Herodes havia tomado para si a mulher do seu irmão, Herodíades. João o admoestava contra o seu pecado de infidelidade conjugal e incesto, o que atraiu a ira da amante do rei, que o instigou a meter João no cárcere. “Pois João vivia dizendo a Herodes: ‘Não te é permitido viver com ela’” (Mt 14, 4). No dia do aniversário de Herodes, a filha de Herodíades, Salomé, dançou na frente dos convivas, o que levou o rei, meio embriagado, a prometer-lhe como prêmio qualquer coisa que pedisse. A filha perguntou à mãe, que não perdeu a oportunidade de vingar-se daquele que invectivava seu pecado. Fez a filha pedir ao rei a cabeça de João Batista. João foi decapitado na prisão, merecendo o elogio de Jesus, por ser um homem firme e não uma cana agitada ao sabor do vento.

Estamos no Ano da Misericórdia, proclamado pelo Papa Francisco.  É tempo de perdão. Muita gente pode interpretar mal esse tempo, achando que pode continuar no pecado e receber o perdão. Mas a absolvição supõe o arrependimento e o propósito de deixar o pecado, sem o que o perdão não acontece. O discernimento pastoral prático de uma situação particular, no qual devemos usar toda a misericórdia e compreensão, não anula a regra geral dada por Nosso Senhor: “Quem despede sua mulher e se casa com outra, comete adultério… E se a mulher despede seu marido e se casa com outro, comete adultério também” (Mc 10, 11-12).

“Deus em Jesus é um Deus que tem um sumo respeito pela liberdade da pessoa. ‘Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa’ (Ap 2, 20ª). Não arromba a porta, para entrar de qualquer maneira. A ‘abertura da porta’, de que fala a Escritura, é a conversão ou arrependimento. Conversão, arrependimento e misericórdia que perdoa são como o côncavo e o convexo da mesma figura: uma não se dá sem a outra (Cardeal Carlo Carafa, Arcebispo de Bolonha).

 O Cardeal Jorge Medina, prefeito emérito da Congregação para o Culto Divino, no seu livreto “Arrependimento, Porta da Misericórdia”, com apresentação do Cardeal Carafa, acima citado, explica: “O Concílio de Trento define o arrependimento como ‘dor da alma e reprovação do pecado cometido, acompanhados pelo propósito de não pecar mais no futuro’. Este ato de contrição foi sempre necessário para pedir a remissão dos pecados…” E ele continua: “Vivemos em uma sociedade na qual pouco a pouco se está perdendo a sensibilidade em relação ao pecado…”. Esclarece, enfim, que “arrepender-se significa recorrer a Deus, Pai de misericórdia”.