Pétalas de Misericórdia

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

 

Finalizamos o mês de setembro, quando celebramos o Dia Nacional e o Mês da Bíblia! Ela nos traz a Palavra de Deus, que é luz para o nosso caminho e, portanto, de suma importância na vida da Igreja. Na liturgia pós Vaticano II, temos uma abundância de leituras na liturgia da missa e em todas as celebrações dos sacramentos e também nas reuniões e encontros. Aos domingos três leituras mais o salmo totalizam 4 trechos bíblicos, além das outras citações litúrgicas e mesmo da música que, ao cantar a liturgia, é baseada na Sagrada Escritura. O incentivo para a “Lectio Divina”, ou leitura orante da Bíblia, em nossos círculos bíblicos e nossas reuniões faz parte das recomendações da Igreja. Isso mostra a atenção que a Igreja faz da escuta do Senhor e nos ajuda a entrarmos ainda mais em outubro. Já iniciamos a Primavera e aqui em nossa região já caíram as primeiras chuvas dessa estação. É baseado na experiência do encontro com Cristo, iluminado pela Palavra de Deus e conduzido pelo Espírito Santo que adentramos o mês das Missões e do Rosário, com a Semana Nacional da Família abrindo com o grande exemplo da padroeira das missões, Santa Terezinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, que nos legou a “pequena via” e que na Igreja, como queria ser tudo, escolheu ser o amor, o coração.

De forma providencial, a Igreja coloca o mês das missões após o mês da Bíblia, a exemplo de Maria Santíssima (que celebraremos solenemente em outubro), que, após ouvir a Anunciação do Arcanjo São Gabriel que conceberia e daria a luz ao Filho de Deus, saiu para servir à sua prima Isabel. Este é o sentido da missão, servir a todos em Nome do Senhor, fazer-se presença silenciosa e amorosa. Com isso, a Igreja, Mãe e Mestra, nos ensina que todos nós batizados somos missionários em todos os locais nos quais nos encontramos, a começar pela nossa família, e abrindo-nos como Igreja em saída para todas as realidades, indo para as “águas mais profundas” proclamando que experimentamos e anunciamos a misericórdia do Senhor.

E é neste sentido que a Igreja inicia o Mês das Missões com Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, mais carinhosamente conhecida como Santa Terezinha do Menino Jesus. Esta pequena monja, em estatura humana, nasceu em 1873 e faleceu, com 24 anos e 09 meses, em 1897. Sem nunca sair do seu convento, sua fama de santidade se espalhou como um grande perfume de rosas pelo mundo. É espantoso vermos o crescimento devocional popular em torno desta mística que uniu intimamente o seu coração ao Coração do Seu Senhor.

Aos olhos do mundo ela não teria nada de especial e também não teria motivo para chamar a atenção de uma multidão tão enorme de pessoas. Porém, entre seus devotos, tivemos diversos santos após ela – padres, bispos, religiosas e religiosos – e, hoje, o Papa Francisco declarou expressamente que um de seus livros de cabeceira é o “História de uma alma”. Esse pequeno manuscrito é a autobiografia da vida desta amada santinha, e que aqui sim vemos como ela foi se deixando talhar pela ação da Misericórdia do Senhor.

O Papa Pio XI assim declarou a respeito dela: “O gênio deslumbrador de Agostinho, a sabedoria luminosa de Santo Tomás de Aquino projetaram sobre as almas uma luz que não conhece ocaso; o poema divino vivido por São Francisco de Assis mostra ao mundo a imitação desconhecida da vida de Deus feito homem; mas uma jovem carmelita, mal atingindo a idade adulta, conquistou em menos de meio século um número incalculável de discípulos. Os doutores da lei fizeram-se crianças em sua escola”.

Ela nos conta como foi sua infância, de sua personalidade difícil por ser criança cheia de mimos e de como seu temperamento era forte. De como se deu o casamento de seus pais após a tentativa de ambos em serem religiosos. Do piedoso sacerdote que foi instrumento para a formação dessa nova família. Da forma como era vivida a vida religiosa do casal e de como instruíam as filhas na fé católica, das missas, praticamente, diárias. Das dificuldades financeiras dos pais, ele um relojoeiro e ela com o dom de bordadeira. Conta também sobre o nascimento dos filhos e a morte de alguns deles. Apresenta as dores que sentiu com a morte da mãe, hoje Santa Zélia Guarin (o casal foi canonizado), da escolha da irmã para ser sua nova mãe e como sofreu com a partida dela para a vida no Carmelo. Partilha como escolheu ingressar no Carmelo, e sua inusitada visita ao então Papa reinante, Leão XIII, de como se ajoelhou aos pés do Papa e pediu essa graça a ele de forma ousada. Anuncia sua alegria quando conseguiu seu ingresso no Carmelo, através da carta que chegou de seu bispo dias depois da visita ao Papa. Recebeu a visita de seu pai, hoje, São Luiz Martin (casal canonizado), já com idade avançada, ao Carmelo, com a saúde já totalmente combalida.

Mais especificamente sobre si, Terezinha nos conta que, para além dos defeitos próprios, também uma doença que chamou de “escrúpulos”, e como foi curada pela “Virgem do Sorriso”, sua bela devoção.

Na sua autobiografia, Terezinha nos mostra o seu lado humano com toda coragem e ímpeto, que somente quem está com o coração alicerçado no Senhor pode ter. Jamais aquela pequena monja poderia imaginar que, após a sua morte, em tão pouco tempo alcançaria as graças às quais menciona logo no início da autobiografia, quando assim diz: “Durante muito tempo perguntava a mim mesma porque Deus tinha preferências, por que todas as almas não recebiam igual medida de graças. Admirava-me vê-Lo prodigalizar favores extraordinários a Santos que O tinham ofendido, como São Paulo, Santo Agostinho, e aos quais forçava, por assim dizer, a receberem suas graças; ou então ao ler a vida dos santos, que Nosso Senhor se comprazia em acarinhá-los desde o berço até o túmulo, sem lhes deixar no caminho nenhum tropeço que os tolhesse de se levantarem até Ele, em predispor essas almas com tais favores, a ponto de não poderem empanar o brilho imaculado de sua veste batismal; perguntava-me a mim mesma por que os pobres selvagens, por exemplo, morriam em grande número antes mesmo de terem ouvido pronunciar o nome de Deus… Dignou-se Jesus esclarecer-me a respeito desse mistério. Pôs-me diante dos olhos o livro da natureza, e compreendi que todas as flores que por Ele são criadas são formosas, que o esplendor da rosa e a brancura do lírio não eliminam a flagrância da violetinha nem a encantadora simplicidade da bonina… Fiquei entendendo que se todas as florzinhas quisessem ser rosa, perderia a natureza sua gala primaveril, já não ficariam os vergéis esmaltados de florinhas…” (Pag. 26, “História de uma alma – Manuscritos autobiográficos”, Santa Terezinha do Menino Jesus e da Sagrada Face. Editora Paulus. SP : 2012).

Terezinha, embora tenha vivido num período histórico bastante difícil, não é fruto do iluminismo francês; é uma reação clara ao jansenismo, que tinha colocado Deus longe do homem. Uma menina mimada no coração da família Martin que saberá, apenas sendo dócil à graça de Deus, assumir uma postura de crítica e questionadora dentro da própria Igreja. A sua palavra não chega a nenhum lugar durante a sua vida. Porém, mal acabara de morrer, sua imã, Madre Inês, começou a reunir seus escritos, que tornou pública a vida de nossa Terezinha.

Tudo na pequena Teresa foi rápido. Ela tinha pressa desde os inícios de sua vida religiosa. A pressa dos santos, dos profetas que percebem que têm na sua vida pouco tempo e muitas coisas para realizar. Terezinha foi e é para a humanidade uma “palavra do Senhor” encarnada na História, que soube traduzir o evangelho dos pequenos e dos pobres. Jesus continua a pousar o Seu olhar sobre os que não têm voz, que não possuem a força da autoridade, mas que têm a força do amor, pela qual sabe atingir o coração mais duro.

Terezinha inaugurou e iniciou o caminho que ela chamou de “pequena via”, e não se pode entendê-lo por meio da especulação e da força da inteligência, mas pelo caminho do coração. É o caminho dos pequenos que continua a surpreender o mundo, sempre mais sofisticado. E é nesse mundo que continua sua missão, a de mostrar a “Face Misericordiosa do Senhor” para uma sociedade cheia de soberba e de orgulho, que busca o prazer hedonista a todo custo e que, após isso, busca o prazer e sentido existencial nos consultórios dos psicólogos e psiquiatras, com remédios para preencher o vazio do seu coração que, segundo Agostinho, possui o tamanho exato de Deus. Ela nos mostra que pode ser alcançado no cotidiano de nossas vidas, por gestos pequenos, de superar-se nos pequenos desafios e sabendo que sendo Deus o nosso Tesouro nada nos falta, conforme nos lembra a Mãe espiritual de Terezinha, a grande Teresa de Ávila, no século XVI. Afinal, já bem nos lembra o Evangelho: onde está o teu tesouro aí está o teu coração.

Diante da simplicidade de uma criança, só uma atitude é cabível: a contemplação. Saber contemplar é saber amar com o coração o que só os olhos veem. É ir além das aparências, penetrar a profundidade e buscar o sentido tão evidente e tão escondido do amor.

Teresa de Lisieux é uma santa destinada a permanecer como um grande exemplo e intercessora na Igreja e no mundo. No início deste Terceiro Milênio tem uma grande mensagem a oferecer ao homem e à mulher da assim chamada pós-modernidade, onde a razão, o bem-estar, o conforto e a técnica parecem ter valor absoluto. Terezinha reaproxima-nos de Deus e nos faz sentir que é necessário “pegar Deus pelo coração”, e não ter medo da misericórdia infinita do Senhor. Ela nos diz que mesmo que tivéssemos na consciência os maiores crimes deveríamos confiar na misericórdia de Deus. Dentro do Ano do Jubileu da Misericórdia é para nós uma alegria e consolo ler esse texto. 

Ainda é importante lembrarmos que Santa Terezinha, pouco antes de nascer para Deus, nos exorta a pedirmos a ela sua intercessão, quando diz que faria cair uma chuva de rosas sobre todos que a ela invocassem; por isso é também conhecida como Santa Terezinha das rosas. Ao dizer isso, fez a promessa para todos que precisam, sem limites, pois estava inebriada dessa Misericórdia, de todo ser humano, por isto que fez a promessa para todos que dela necessitassem. Tal atitude só nos demonstra que Terezinha realmente encontrou a sua missão na Igreja, qual seja, a de ser o “Amor”, isto é, de amar a todos indistintamente. Terezinha levou isso a cabo, ao extremo, pois quer auxiliar a todos nós com suas orações diante do Senhor.

Percorramos também nós na “pequena via” de Santa Terezinha, a grande Teresa de Lisieux, doutora da Igreja, para que possamos mergulhar na misericórdia de Deus, deixando que ela vá às mais profundas raízes do nosso ser, e que ela nos transforme para que possamos, neste mundo tão conturbado, ser sinal de esperança e caridade. Desta forma, poderemos convidar outras pessoas, pelo nosso exemplo, para que também se aproximem de Deus e venham experimentar como é bom saber que todos somos filhos muito amados muito antes mesmo de sermos concebidos.

 

 

Gestão e política

 Dom Walmor Oliveira de Azevedo 
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)

 

 

Gerir processos e funcionamentos é complexo desafio principalmente quando são consideradas as exigências, necessidades e prioridades. Ao gestor, requerem-se resultados e não é permitido um planejamento que busque apenas a manutenção burocrática do que já se conquistou. Mas, lamentavelmente, existem certos hábitos culturais que impõem atrasos e inviabilizam o caminhar na direção das inovações. Esses costumes também alimentam a baixa autoestima da população e precisam ser superados para se alcançar o êxito. 

Há de se considerar que toda cultura guarda, nos hábitos e práticas, idiossincrasias que devem ser corrigidas para não se tornarem furos por onde as energias escapam. E muitos são os procedimentos que podem eliminar tudo o que impede a limpidez, a velocidade e a objetividade nos processos capazes de vencer descompassos. Para que esses mecanismos se efetivem, sempre será necessário o exercício cidadão das avaliações e análises. Uma permanente disponibilidade para derrubar os obstáculos que impedem avanços e progressos. São muitas as barreiras, de todo tipo, e várias delas são desconsideradas. Assim, não recebem os tratamentos adequados e continuam a minar forças.  Acabam alimentando comodismos com a justificativa de que “sempre foi assim”. 

Dentre esses graves hábitos culturais que precisam ser superados, há um que merece atenção especial: o descaso com o qual é tratado o patrimônio histórico, cultural e religioso de um povo. A desconsideração é generalizada, indicando a necessidade de se promover, inclusive a partir de processos educativos, o desabrochar da consciência sobre a grandeza desse patrimônio. É grave quando uma ambiência cultural não contribui para a difusão do conhecimento e a valorização dos próprios bens históricos, culturais e religiosos. Principalmente, quando se costuma valorizar somente o que pertence aos outros, em lugares distantes. 

A consequência dessa visão distorcida é o inadequado tratamento, nos campos da preservação e promoção, por parte de cidadãos e governantes. É lastimável o desconhecimento da riqueza da própria história. Parece que tudo começou hoje. Perde-se, no esquecimento, a herança dos antepassados, com prejuízos para identidades e sua preservação. Nesse horizonte, é deplorável a incapacidade para lidar, usufruir e valorizar as diferentes culturas que compõem o tecido de uma sociedade.  É condenável a tendência jocosa de “rifar” a própria riqueza cultural, enfraquecendo o amálgama consistente que pode advir desse patrimônio. Sem esses bens, a contribuição cidadã fica sempre muito comprometida, pois se perde componente determinante para a promoção da autoestima. Perde-se a capacidade para a inovação e a audácia. Habitua-se ao que é mediano e contenta-se em admirar o que é extraordinário, mas pertencente a outros lugares e pessoas. 

Nessa direção, convive-se com prejuízos – na economia, no turismo e na infraestrutura. Potencialidades são desperdiçadas. Esses comprometimentos, com uma lista de tantos outros, precisam ser considerados, pois não é possível admitir as perdas acirradas pelas irresponsabilidades ou incompetências das instâncias administrativas e governamentais. É preciso que se contemple os patrimônios de outras culturas, não para simples contemplação, mas como gesto capaz de mexer com os próprios brios e, assim, suscitar um espírito de luta – força para ações que busquem valorizar o que se tem e o que se é. Os que governam necessitam de uma sabedoria que lhes permita incursões no domínio da cultura para promover e fortalecer valores com a insubstituível consciência da prioridade que merecem os mais pobres. O desenvolvimento de uma sociedade, para ser duradouro, tem que ser sustentável e integral. 

A gestão, pois, para além de resultados econômicos, deve se pautar na relação entre princípios e valores, alicerçados nos parâmetros da justiça, liberdade e da verdade. Esse modo de pensar processos gerenciais é conflitante com o que se percebe na dimensão da política partidária. Os representantes do povo, no Executivo e no Legislativo, gastam tempo demais na arquitetura de conchavos, coligações, discussões, muitas delas de caráter apenas partidário, motivadas por interesses pessoais ou de pequenos grupos.  Sobra pouco tempo para os assuntos verdadeiramente urgentes, de interesse da população, que requerem sabedoria, agilidade, priorização. Prevalecem a pouca assertividade, a velocidade similar a passos de tartaruga, a busca por soluções a partir de velhas respostas, sem inventividade. Vangloria-se sobre o que já foi feito, quase sempre aquém das necessidades e das potencialidades. 

Gasta-se tempo demais com disputas por cargos e para a satisfação de interesses partidários. Certamente, esses são alguns hábitos que inviabilizam o desabrochar de autênticos líderes. No complexo âmbito de gestão e política, há urgências que exigem ousadia, correções de elementares posturas. De modo mais amplo, torna-se urgente corrigir dinâmicas que atrasam processos, promovem a mediocridade, demolindo patrimônios culturais, históricos e religiosos em razão de vícios e descompassos na relação entre a gestão e a política.

 

As maravilhas que Deus criou 

Dom Caetano Ferrari
Bispo de Bauru (SP)

 

Outubro é mês missionário. 2016 é ano da misericórdia, conforme foi instituído pelo Papa Francisco. Este é o apelo mais recente do Papa, inclusive a resposta, segundo nos conscientiza, que o mundo mais espera de nós, cristãos: Que a Igreja seja “Missionária e Misericordiosa”. Evangelizar toda criatura é preciso, anunciando Jesus Cristo a toda gente, Ele que é o rosto misericordioso do Pai. Curar os feridos, levantar os caídos, socorrer os pobres, perdoar os pecadores é preciso, hoje, mais do que nunca.  

Missão e misericórdia andam juntas. Evangelizar a partir de Jesus Cristo é reagir diante dos outros como Jesus reagia, transformando a vida de quem recebia a sua mensagem. Não há verdadeira evangelização sem a misericórdia, porque a verdadeira missão é uma obra de compaixão para com os pobres, os excluídos e os feridos do mundo, é uma ação libertadora e salvadora das escravidões, dos pecados, das guerras e divisões. Assim como o fez Jesus Cristo, quando andou por este nosso mundo, fazendo o bem. 

O Papa Francisco nos vem dizendo também que hoje mais do que nunca é preciso cuidar da criação, e inclusive, que neste quesito a nossa primeira oração seja de pedido de perdão a Deus por causa dos pecados cometidos de há muito tempo e de forma violenta contra a vida do nosso planeta. Em seguida, que devemos render graças a Deus pelas maravilhas que Ele criou, este mundo extraordinário em que habitamos, e que tomemos consciência de que somos os seus cuidadores e protetores.  O Papa pede-nos ainda que busquemos junto a Deus a graça da conversão ecológica de tal maneira que nos esforcemos para mudar o nosso modo de relacionar com as coisas criadas, adotando novos comportamentos e novas práticas de cuidado com a criação e a mãe terra, nossa casa comum. 

Em 2015, quando o Papa Francisco lançou a Encíclica “Laudato Si” (Louvado Sejas), instituiu o Dia Mundial de Oração e Cuidado da Criação, explicando que tomava essa iniciativa “Para oferecer a cada fiel e às comunidades a preciosa oportunidade de renovar a adesão pessoal à sua vocação de guardiões da criação…”. Falava que “Como salienta a ecologia integral, os seres humanos estão profundamente ligados entre si e à criação na sua totalidade. Quando maltratamos a natureza, maltratamos também os seres humanos. Ao mesmo tempo, cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado. Escutemos ‘tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres’ e procuremos atentamente ver como se pode garantir uma resposta adequada”, destaca o Pontífice. Da sua parte como resposta concreta, o Papa tomou a iniciativa de propor a inclusão ao elenco das conhecidas obras de misericórdia uma oitava às sete obras materiais e às sete espirituais, a saber: O cuidado da casa comum.

Ontem, celebramos Santa Teresinha do Menino Jesus que passou sua vida no Carmelo rezando pelos missionários. Santa Terezinha com São Francisco Xavier, o grande missionário do Oriente, são os dois padroeiros das Missões. Depois de amanhã, 4 de outubro, celebraremos São Francisco de Assis, o santo missionário do amor misericordioso do Altíssimo e Bom Senhor, o irmão da fraternidade universal de todos os homens e de todas as coisas criadas, o patrono da ecologia e o santo da paz e do bem. Sigamos o exemplo desses santos e supliquemos a sua intercessão por nós e pela Igreja.

A mensagem evangélica da Missa de hoje – Lc 17,5-10 – fala-nos da necessidade de suplicarmos ao Senhor que aumente a nossa fé para que ela nos impulsione a servir à comunidade e a trabalhar em benefício da obra missionária, do amor misericordioso a toda gente e do cuidado com a criação. Os apóstolos pediram a Jesus: “Aumenta a nossa fé!”. Quem tem fé, ainda que do tamanho de um grão de mostarda, responde Jesus, transportará com uma simples palavra de ordem este pé de amoreira daqui para o mar. Quem tem fé do tamanho desse grão é como o empregado que trabalha o dia todo na roça e ao voltar para casa prepara o jantar e, primeiro, dá de comer ao patrão para só depois poder comer e beber. Nem por isso espera um agradecimento do patrão, ao contrário, quando fez tudo o que lhe foi mandado, diz: “Sou servo inútil; fiz o que devia ter feito”.

Jesus misericordioso, aumente-nos a fé para sermos fiéis discípulos e missionários da misericórdia do Pai, desenvolva em nós o senso de responsabilidade pelo cuidado da nossa “casa comum” e conceda-nos a audácia de amar e servir fazendo o bem sem a pretensão de nos apresentar diante de Deus e dos homens senão como “servos inúteis”. 

 

 

 

 

Pastoral Carcerária

Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo (RS)

 

 

Infelizmente, as notícias de violência fazem parte do cotidiano. Sempre que acontecem mais assassinatos e roubos, como está acontecendo no Rio Grande do Sul, o problema recebe atenção especial e não poderia ser diferente. Na campanha eleitoral, o tema é obrigatório. Quando se começa a estudar o assunto e se procura soluções, imediatamente entra em pauta o sistema prisional. Longos debates e estudos trazem questões sobre a finalidade do Sistema Prisional, sua metodologia e sua situação atual. Este é um problema que não pode ser tratado com superficialidade, pois não existem soluções fáceis. Também no dia 2 de outubro é relembrado o massacre do Carandiru – São Pulo – ocorrido em 1992, no qual foram mortos 111 prisioneiros durante uma rebelião. 

A Pastoral Carcerária da Igreja Católica, composta de leigos voluntários, religiosas e padres, visita os apenados. Fazem este pastoreio respondendo ao pedido de Jesus Cristo: “estava na prisão, e fostes visitar-me” (Mateus 25, 36). A presença junto aos encarcerados é uma obra de misericórdia num ambiente onde a miséria humana está escancarada. O objetivo geral da Pastoral Carcerária é a “evangelização e promoção da dignidade humana por meio da presença da Igreja nos cárceres através das equipes de pastoral na busca de um mundo sem cárceres”.

A Pastoral Carcerária tem como objetivos específicos: “Anunciar o Evangelho de Jesus Cristo; colaborar para que os direitos humanos sejam garantidos; conscientizar a sociedade para a difícil situação do sistema prisional; velar a dignidade humana; contribuir para a redução da população carcerária; superar a justiça retributiva por meio da justiça restaurativa; promover a inclusão social da pessoa presa”.

Visitar os presídios e os prisioneiros é uma experiência marcante e provocativa. Encontrar-se, face-a-face, com alguém que foi julgado e condenado, por qualquer crime, desperta os mais variados sentimentos. O primeiro é de tristeza pelo sofrimento causado pela ação criminosa. Vem à mente as vítimas e seus familiares, com toda a violência sofrida e os traumas que agora carregam. A ferida do mal sofrido é irreparável. Enfim, quanto sofrimento, quanta dor está por detrás de cada prisioneiro.

Outro sentimento que brota é de compaixão e misericórdia para com os prisioneiros. Objetivamente os prisioneiros fizeram um mal que justifica sua prisão, foram julgados, condenados e estão cumprindo a pena, conforme a lei. Também vem a pergunta: por que eles se encaminharam por este caminho torto? Houve descuido na sua formação humana? Acima de tudo nasce a inquietação de como ajudá-los, para que, após o cumprimento da pena, possam voltar à sociedade e mudem de vida.

Outro problema sério são as condições sub-humanas dos presídios. Ver com os próprios olhos a realidade prisional, certamente, impacta muito mais do que vê-la pelos meios de comunicação. Se uma das finalidades dos presídios é a reinserção social, que na linguagem religiosa denominamos como conversão, constata-se que, naquelas condições, este objetivo dificilmente será alcançado.

A Pastoral Carcerária orienta-se, nas suas visitas aos encarcerados, conforme o sentimento de Deus: “não tenho prazer na morte do ímpio, mas antes que ele mude de conduta e vida” (Ezequiel 33, 11).

 

Basílica da Penha

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

 

No próximo domingo, dia 02 de outubro, instalarei oficialmente a nova Basílica Menor. O Santo Padre o Papa Francisco a 16 de junho de 2016 concedeu o Título de Basílica Menor para a Igreja de Nossa Senhora da Penha, que é também Santuário Arquidiocesano desde 15 de setembro de 1966. Durante os meses de agosto e setembro a imagem de Nossa Senhora da Penha percorreu nossa Arquidiocese concluindo essa peregrinação no Edifício João Paulo II neste último sábado.

Com a nova basílica esta será a sexta basílica a ser instalada no Rio de Janeiro. Por ordem cronológica são Basílicas Menores no Rio de Janeiro: 1 – Basílica Menor de Santa Teresinha do Menino Jesus, instalada em 20 de julho de 1927, na Tijuca; 2 – Basílica Menor de Nossa Senhora de Lourdes, instalada em 23 de maio de 1959, na Vila Isabel; 3 – Basílica Menor do Imaculado Coração de Maria, instalada em 9 de fevereiro de 1963, no Meiér; 4 – Basílica Menor da Imaculada Conceição, instalada em 23 de novembro de 2002, em Botafogo; Basílica Menor de São Sebastião, instalada em 17 de julho de 2015, na Tijuca, esta também, Santuário Arquidiocesano desde 20 de janeiro de 2015 e, agora, desde 16 de junho de 2016 foi erigida em Basílica Menor, o Santuário de Nossa Senhora da Penha de França.

Já tive ocasião de explicar quando da instalação da Basílica de São Sebastião qual era a diferença entre Catedral, Basílica e Santuário.

As basílicas são uma especial concessão da Santa Sé Apostólica e a sua concessão é regida pelo documento intitulado “Casa da Igreja”, da Sagrada Congregação dos Ritos, de 06 de junho de 1968 (cfr. AAS 60, 1968, 536-539), renovado que foi pelo Decreto “De titulo Basilicae Minoris”, de 09 de Novembro de 1989.

Para uma Igreja ser elevada a Basílica ela necessita de algumas condições: 1. Ser um importante centro de atividade litúrgica dentro do âmbito territorial da Igreja particular que é a Arquidiocese. 2. As celebrações litúrgicas da Igreja que pede a graça do título devem ser exemplares. Pede-se que o templo tenha um tamanho razoável e que o seu presbitério favoreça as celebrações litúrgicas. 3. Imprescindível é que a Igreja seja centro visível e reconhecido de peregrinação dentro do âmbito da Arquidiocese; 4. Pede-se que naquela Igreja se tenha um cuidado pastoral adequado, com número suficiente de sacerdotes que estejam a disposição do atendimento pastoral e litúrgico do povo santo de Deus e que tenha um número considerável de ministros extraordinários para ajudar os sacerdotes durante as peregrinações. 5. Ressalte-se, sobremaneira, o cuidado com o canto litúrgico e com a promoção da música sacra, mormente a música polifônica sacra e o uso da língua latina nos cantos litúrgicos.

Os deveres e encargos da basílica são os seguintes: 1. A instrução litúrgica do povo santo de Deus com encontros, cursos especiais, estudos de liturgia e aplicação destes estudos na própria ação evangelizadora da Basílica; 2. Estudos e divulgação dos documentos do Sumo Pontífice e da Santa Sé Apostólica, sobretudo em matéria litúrgica; 3. Especial realce nas celebrações dos tempos do Advento, do Natal, da Quaresma e da Páscoa. Ressalte-se que no tempo da Quaresma se pede a celebração cotidiana da Via Sacra. 4. A liturgia das horas, particularmente, das Laudes e das Vésperas devem ser rezadas diariamente nas basílicas; 4. Incremente-se o canto sacro, particularmente, o canto litúrgico.

São celebrações obrigatórias nas basílicas: 1. A Festa da Cátedra de São Pedro, em 22 de fevereiro, já que a Basílica Menor tem uma ligação íntima com a Basílica Vaticana; 2. A Solenidade de São Pedro e de São Paulo, a 29 de julho de cada ano; 3. Na eleição e no início do ministério de Bispo de Roma, do Sumo Pontífice.

As indulgências plenárias poderão ser concedidas aos fiéis que visitarem a Basílica da Penha, desde que rezem a oração dominical, recitem o Símbolo da Fé, com as condições costumeiras: confissão sacramental; comunhão eucarística e oração pelo Santo Padre, o Papa. Lucrarão indulgências nesta Basílica: 1. No dia do aniversário da consagração da Basílica; 2. No dia da celebração de Nossa Senhora da Penha; 3. Na Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo; 3. No aniversário da concessão do título de Basílica, neste caso, a 16 de junho de cada ano; e 4. Uma vez por ano, em dia determinado pelo Arcebispo Metropolitano. Para tanto determino, doravante, que todo último domingo de outubro, Solenidade de Nossa Senhora da Penha, os fiéis que visitarem a Basílica da Penha, depois de terem confessado, recebido a Santíssima Eucaristia, rezado o Pai Nosso e o Credo nas intenções do Santo Padre lucrarão uma indulgência plenária.

A concessão deste título para a Igreja de Nossa Senhora da Penha tem um significado especial pelo carinho dos cariocas pela Igreja que orna o Penhasco da Penha e de lá, a Virgem da Penha de França abençoa todo o Rio de Janeiro. Vamos, com esta graça do Papa Francisco, incrementar nossas romarias a Basílica Santuário de Nossa Senhora da Penha pedindo paz e concórdia para a cidade e o Estado do Rio de Janeiro. Nossa Senhora da Penha de França, rogai por nós!

 

 

São Jerônimo: o homem da Palavra de Deus

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RS)

 

Jerônimo nasceu no ano de 342. Era filho de Eusébio, da cidade de Stridon, já na divisa entre a Panomia e a Dalmácia, em terras não distantes de Aquileia, na Itália. Sua família era cristã, nobre e rica. Acompanhando o costume da época, foi batizado apenas aos 18 anos, contudo teve uma educação cristã desde criança. No centro do mundo civilizado de então, enquanto jovem dedicou-se com afinco aos estudos da gramática, da retórica e da filosofia. Estudou latim, tendo como professor de línguas um famoso pagão chamado Donato. São esses dados que encontramos nos livros e sites que falam de São Jerônimo que foram consultados para este artigo.

Jerônimo dedicava horas e horas de seus dias lendo, estudando e até decorando livros de grandes autores latinos: Cícero, Virgílio, Horácio, Tácito, e ainda encontrava disposição para conhecer autores gregos. Entre eles, Homero e Platão. Tal era seu entusiasmo e admiração pelos escritores clássicos que logo formou uma biblioteca só com obras deles, chegando até a copiar a mão vários desses livros.

Dedicando tanto tempo a esses autores, quase nunca encontrava ocasião para as leituras cristãs. Totalmente posto nessa situação nada conveniente, ele, contudo, não tinha rompido com os princípios que conhecera na infância; não havia, de todo, cortado os laços com suas raízes cristãs. Tempos mais tarde, Jerônimo admitiu que essa sua atitude o tinha colocado fora do verdadeiro caminho. Apesar disso, ele recordava também que Deus não o havia abandonado nunca e que o guiava constantemente. Foi por essa ocasião que ele se tornou catecúmeno. Continuava seus estudos e preparava-se para ser batizado. Seus domingos em Roma consistiam em constantes visitas às catacumbas. Ali ele meditava sobre a fé dos mártires, admirava a atitude deles e venerava suas relíquias.

Jerônimo recebeu o santo batismo na idade adulta. Ele foi batizado pelo Papa Libério. Já como cristão batizado, ele fez uma viagem de estudos pelas Gálias. Para acompanhá-lo, levou consigo seu irmão de leite, Bonoso. Jerônimo quis visitar Jerusalém. Queria caminhar pela Terra Santa, venerar os lugares que foram santificados pela presença de Nosso Senhor. Aproveitou a ocasião de sua estada em Jerusalém para aprofundar seus conhecimentos da língua hebraica; ele desejava ter um meio a mais para conhecer melhor as Sagradas Escrituras. Assim, poderia ter mais segurança nas respostas às questões que o Papa São Dâmaso lhe fazia constantemente a respeito de passagens difíceis dos Livros Sagrados.

No entanto, ler a Sagrada Escritura não lhe trazia prazer. Para Jerônimo, o texto bíblico era simples demais e não tinha ornato. Ele tinha sido formado na leitura dos clássicos latinos e gregos e se acostumara com a “eloquência” e “elegância” da literatura de estilo pagão. Sentia muita aridez na leitura da Bíblia. Apesar de ser um sábio para o mundo, um conhecedor com ampla visão das ciências de então, continuava cego para as coisas mais elevadas, as coisas divinas.

Durante três anos ele ali permaneceu estudando com São Gregório. Foi ele quem lhe abriu o espírito ao amor pela exegese das Sagradas Escrituras. Foi nessa ocasião também que Jerônimo teve oportunidade de fazer uma grande e profunda amizade com dois outros luzeiros que brilhavam na Igreja do Oriente: São Basílio e seu irmão São Gregório de Nissa.

Estava com mais de trinta anos quando se tornou sacerdote. Ele obteve condições especiais de vida sacerdotal. Poderia continuar sua vida como monge e não estar sujeito à jurisdição de nenhuma diocese. Quase nunca exerceu o ministério sacerdotal. Tornou-se um monge, para quem o isolamento monacal seria ocasião para dedicação total ao estudo, à reflexão, à oração, tendo em vista a difusão do cristianismo.

Por causa do modo de ser e da mentalidade dos povos orientais, na Igreja do Oriente havia vários ambientes onde os erros doutrinários encontravam terreno propício para germinarem. As heresias se difundiam e causavam confusão em todo o corpo social.

Era tal a situação, que se tornou necessária uma reação da autoridade espiritual e da temporal. Elas tinham que se unir para defender-se dos erros que ali pululavam.  Para isso, o Imperador Teodósio e o Papa São Dâmaso resolveram convocar um sínodo em Roma. O secretário do evento deveria ser Santo Ambrósio, porém, o culto e famoso bispo de Milão adoeceu gravemente. Para substituí-lo, o Papa convidou Jerônimo. Ele desempenhou esse cargo com muita eficiência e sabedoria. Reconhecendo em São Jerônimo seus dotes extraordinários e seu grande saber, o Papa São Dâmaso quis tê-lo junto de si e o nomeou como seu secretário, assim que terminou o sínodo.

O Papa desejava ter uma tradução da Bíblia que fosse o mais fiel possível aos textos originais. Foi então que o Papa São Dâmaso encarregou São Jerônimo de verter os textos das Escrituras Sagradas para o latim. O Papa sabia que seu secretário teria condições para levar a cabo esse importante projeto. Ele já tinha provas do profundo conhecimento que Jerônimo tinha dos textos bíblicos. Sua fama de latinista erudito e poliglota consumado era sabida por todos. Além do latim, ele conhecia bem o grego e o hebraico, e ainda entendia bem o aramaico, línguas muito ligadas aos textos Sagrados.

O trabalho de São Jerônimo abrangeu praticamente sua vida toda. Ele escrevia com elegância clássica o latim e traduziu a Bíblia inteira. Daí foi que surgiu o texto da Bíblia conhecido como “Vulgata”, que significa “de uso comum”. Essa tradução foi usada largamente em quase quinze séculos. Seu texto tornou-se oficial com o Concílio de Trento, e só cedeu o lugar nos últimos tempos, depois de estudos linguísticos exegéticos mais recentes.

São Jerônimo, porém, levava vida como monge de penitências rígidas. Seus últimos 35 anos, ele os passou em uma grande cova, próxima à Gruta do Presépio. Ali continuou, até a morte, seus estudos e trabalhos bíblicos, e com muita energia ainda escrevia contra os hereges que se atreviam a negar as verdades da Santa Igreja Católica, entre eles Helvídio e Joviano. No dia 30 do mês de setembro do ano 420, falece São Jerônimo. Estava avançado em idade e crescido em virtude. 

Peçamos, neste Ano Santo Extraordinário da Misericórdia, a proteção constante de São Jerônimo, para que possamos sempre contemplar a “lectio divina” e colocá-la em prática, porque a Palavra de Deus é luz para nossos caminhos e lâmpada para os nossos pés! São Jerônimo, rogai por nós!