Papa na Suécia: não nos resignar à separação e ao distanciamento

“Enquanto o passado não se pode modificar, aquilo que se recorda e o modo como se recorda podem ser transformados. Rezamos pela cura das nossas feridas e das lembranças que turvam a nossa visão uns dos outros. Rejeitamos categoricamente todo o ódio e violência, passados e presentes, especialmente os implementados em nome da religião”.

Catedral de Lund, 31 de outubro de 2016. Uma data para entrar na história do cristianismo. Uma celebração ecumênica, também com forte caráter penitencial, um pedido perdão pelos erros do passado e pelas divisões, e o propósito de caminhar juntos e trabalhar pelo bem da humanidade.

Uma celebração para curar a memória, para cicatrizar as feridas, para ultrapassar as barreiras levantadas ao longo dos séculos. Presentes representantes de diversas Confissões cristãs.

A procissão de ingresso na Catedral de Lund precedida pela Cruz, símbolo da viagem, feita pelo salvadorenho Christian Ayala, e que durante a celebração ocupou um local de destaque no altar, deu o tom sereno, espiritual e jubiloso da celebração.

Canções de Taizé marcaram toda a celebração ecumênica, produzindo um efeito impactante já no início com o Laudate Domini. No altar, o Papa Francisco, o Presidente e o Secretário da Federação Luterana Mundial, respectivamente Dr. Munib Younan e Martin Junge, o Cardeal Kurt Koch, a Primaz da Igreja da Suécia, Arcebispa Antje Jackelen.

O ecumenismo de sangue, que recebe frequentes referências do Papa Francisco, foi recordado no canto do Kyrie, cuja letra em aramaico foi composta pelo bispo sírio-ortodoxo Mar Gregorios Youhanna Ibrahim, sequestrado em abril de 2013 na Síria.

 “Estamos aqui reunidos para redescobrir quem somos em Cristo”, disse Martin Junge, ao pronunciar-se em espanhol, lamentando a perda da unidade em Cristo. “Como seguir caminhando agora?”, perguntou.

O Papa, ao tomar a palavra, clamou pelo dom da unidade, insistindo na necessidade de um testemunho comum crível para que o mundo creia. “Com a comemoração comum da Reforma de 1517 – disse – temos uma nova oportunidade para acolher um percurso comum, que se foi configurando ao longo dos últimos cinquenta anos no diálogo ecumênico entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica. Não podemos resignar-nos com a divisão e o distanciamento que a separação gerou entre nós”.

“Com este novo olhar ao passado – observou –  não pretendemos fazer uma correção inviável do que aconteceu, mas «contar essa história de maneira diferente». Peçamos ao Senhor – disse Francisco –  que a sua Palavra nos mantenha unidos, porque Ela é fonte de alimento e vida; sem a sua inspiração, nada podemos fazer.

Na Declaração comum assinada pelo Papa Francisco e pelo Presidente da Federação Luterana Mundial, é lançado um apelo “a todas as paróquias e comunidades luteranas e católicas” do mundo inteiro para que sejam “corajosas e criativas, alegres e cheias de esperança no seu compromisso de prosseguir na grande aventura que nos espera. Mais do que os conflitos do passado – afirma o texto –  há de ser o dom divino da unidade entre nós a guiar a colaboração e a aprofundar a nossa solidariedade”.

Pouco antes das 16 horas, hora local, a Cruz com a procissão deixa o altar da Catedral da Lund ao som de júbilo do Laudate Dominum, de Taizé, numa celebração histórica que reafirmou o propósito de continuar e solidificar o caminho comum rumo a um futuro de unidade.

Encontro com a Família Real

Antes da oração na Catedral, o Papa Francisco fez uma uma visita de cortesia à Família Real sueca. Ao chegar no Palácio, pouco antes do Pontífice, o Rei Carl XVI Gustav e a Rainha Silvia foram ovacionados pelos presentes no parque circundante, marcado pelas cores do outono. Na chegada do Papa, por sua vez, foi a comunidade latino-americana presente na Suécia a saudá-lo em espanhol, com o tradicional “se vê, se sente, o Papa está presente”.

Após o encontro, que durou cerca de 20 minutos, Francisco e o casal real foram saudados por um grupo de coroinhas luteranos e católicos diante do Palácio, encaminhando-se então, à pé até a Catedral, distante cerca de 100 metros. Ao longo do percurso, Francisco beijou crianças, saudou e conversou com os presentes. Não faltaram bandeiras da Argentina.

De Lund na Suécia, Jackson Erpen

Com informações da Rádio Vaticano

Hoje é dia de finados

Dom Pedro Brito Guimarães
Arcebispo de Palmas (TO)

 

“Hoje é dia dos fieis falecidos!” Certamente nas redes socais e nas rodas de conversas desta semana este foi o assunto mais comentado: “Dia de Finados: o que fazer? O que dizer? Como se comportar? O que rezar? E o que crer?”. “Morte e luto”, “cemitério e defunto” são palavras fáceis de serem escritas e pronunciadas, mas difíceis de serem internalizadas e vivenciadas. O que é cemitério? O que é finado? E o que é defunto? Sobre isto, muito se pode dizer. Vou ser breve e econômico nas palavras para dar espaço à emoção, à meditação, ao silêncio, à oração e à visitação. Afinal, o espírito deste dia requer tais posturas e atitudes. Não é dia para se filosofar, mas para rezar e crer na ressurreição.

A morte bate à porta, o coração sangra e os olhos derramam lágrimas. A palavra “cemitério” significa “fazer deitar”, “deixar descansar e dormir”. Cemitério é, portanto, lugar em que se enterra os defuntos; é ponte entre a casa dos vivos e a dos mortos; é o local de vida dos que morreram; é pequena cidade, em miniatura, dos mortos; é espaço da inter-relação da existência humana com a sua finitude, a sua fé, a sua indiferença e a sua incredulidade; é lugar da dúvida, da crise, do choro, das lágrimas e da saudade; é sementeira e canteiro da reconstrução de mulheres e homens novos; é espaço sagrado de silêncio, reverência, piedade, devoção e oração; é lugar para se depositar flores, velas, coroa de flores, faixas, cruzes, frases bíblicas de saudade, fé e esperança; é espaço de artes, de urbanismo, de preservação e de respeito à vida e à natureza; é fonte de problemas ambientais e sanitários. Quem vai ao cemitério pisa neste terreno movediço, na fé, na esperança e no amor.

Cemitério é lugar de se referenciar e rememorar a vida e a morte. O que é a morte? É uma pergunta difícil de ser respondida. A morte é um mistério profundo. Por isto, é morte. O que se diferencia é a interpretação de um cristão e de um não-cristão. Para o cristão a morte segue as pegadas da morte de Jesus: morreu e ressuscitou para nos salvar. Tudo morre nesta vida, mas tudo deve ressuscitar. A oração pelos defuntos é tradição na Igreja Católica. A Igreja celebra o Dia de Finados pela fé no Mistério Pascal de Jesus Cristo, com a firma esperança de que os que, aqui na terra, pelo batismo, se tornaram membros de Cristo, passem com Ele, à vida eterna. Para quem crer em Jesus a vida não é tirada, com a morte, mas é transformada. E desfeito, pela morte, o corpo mortal, é novamente dado no céu um corpo imortal (cf. Prefácio dos fieis Defuntos I). 

A vida cristã é impelida por esta esperança: os sofrimentos e as feridas, as dores e as desilusões, as doenças e as mortes são companheiras desta viagem, ruma à pátria definitiva, onde veremos Deus face a face e viveremos com Ele eternamente. Não temos aqui na terra morada permanente. Nossa pátria é o céu (Ef 2,20-21). E nosso céu é o amor infinito e misericordioso de Deus por todos nós. Morrer significa também morrer ao pecado e ao mal e renascer para um novo céu e uma nova terra. Portanto, a nossa mãe Igreja nos ensina a crer que há um tempo, não sabemos quantificar, de purificação depois da morte, para que ninguém se auto-proclame salvo. Não existe auto-salvação. Quem nos salva é Jesus Cristo: pela sua dolorosa paixão somos confortados e redimidos; pelas suas chagas somos escondidos e curados; pelo seu sangue somos lavados e inebriados; e pelo seu corpo somos regenerados. A oração que fazemos ao redor de um morto ou aos pés de uma cova traduz exatamente esta fé: a minha oração pode ajudar o meu irmão a se purificar, se houver esta necessidade. Por isto, o nosso pedido final para todos os fieis defuntos é este: “dai-lhes, Senhor, o repouso eterno e a luz perpétua os ilumine. Amém!

 

O salmo dos pontos nos is

Dom José Maria Maimone
Bispo Emérito de Umuarama

 

Neste salmo Deus chama a cada um de nós para acertarmos as contas com ele. E é bom atendemos quanto antes a este chamado. Ajuda-nos nesta presteza refletir no evangelho de Lucas (12, 57-59) quando Jesus manda buscar a paz com o inimigo enquanto é tempo.

Vejamos as palavras do salmo: “Deus convida o céu e a terra para testemunhar o julgamento de seu povo” (v. 4). “O Senhor convoca todos, do oriente até o ocidente” (1). Deus não quer esperar para fazer isto no juízo final porque então nós seríamos condenados eternamente.

Por ser bom e misericordioso Deus nos convoca através desse salmo agora. quando ainda é possível converter-se e salvar-se. Bendito seja Deus!

Escutemos o que fala o Senhor: “Escuta, ó meu povo, o que vou dizer! Eu vou depor contra ti. Não te censuro por falta de sacrifícios, pois regularmente me ofereces holocaustos” (7-8). “Se acaso eu tivesse fome não pediria nada a ti porque o universo com tudo o que nele existe me pertence. Porventura comerei carne de touros ou beberei sangue de cabritos?” (12-13).

Por que então Deus está bravo conosco? O salmo esclarece: “Como sacrifício oferece a Deus o louvor e a gratidão e cumpre as tuas promessas ao Altíssimo. Clama por mim na hora da aflição. Assim me honrarás e eu te libertarei!” (14-15).

Não foi justamente isso que Jesus nos ensinou? “Os verdadeiros adoradores adorarão a Deus em espírito e verdade. Estes são os adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito e aqueles que o adoram precisam adorá-lo em espírito e verdade” (Jo 4, 23-24). 

E Deus continua a questionar o povo: “De que te adianta saber de cor os meus mandamentos e falar de religião o dia inteiro, se desprezaste minhas leis e meus conselhos e não assumistes o compromisso de vida correta? Se não podes ver um ladrão sem te fazeres seu amigo? Tu vives em adultério, falas mentiras e calunias teu próprio irmão” (16-20). 

Em seguida Deus Misericordioso diz ao seu povo: “Tu, que te esquecestes de mim, reflete nessas acusações. Converte para que eu não te abandone e fiques sem ninguém que te possa salvar. Quem me oferece gratidão e louvor está me honrando. Àquele que procura andar nos meus cominhos dar-lhe-ei a graça da salvação” (22-23).

Maravilhemo-nos com a beleza, sabedoria e atualidade desse salmo! Dentro do Ano Santo da Misericórdia Deus deixemo-nos convencer de que o amor de Deus por nós é infinito, não tem medidas.

 

 

 

Identidade cristã

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba

 

Celebramos o Dia de Todos os Santos, que constitui a identidade do cristão, porque todos nós somos chamados para viver a perfeição, mesmo em situação de vulnerabilidade. Não é ser santo depois da morte, mas na história normal da vida de cada pessoa. Fomos criados para fazer o bem, praticar a justiça e viver a liberdade com atitude de responsabilidade. É daí que vem a santidade.

Os chamados “santos canonizados” chegaram a isso por alguma iniciativa, que exigiu um penoso caminho para provar os fatos que marcaram sua trajetória, que confirmam frutos de sua santidade. Significa um reconhecimento público e oficial por parte da Igreja. A partir daí suas imagens podem ser colocadas nos altares para que sejam veneradas pelos devotos, chamados a seguir seus passos.

A santidade é um dom de Deus, mas depende do bom uso da liberdade humana. Supõe discernimento no meio de inúmeros deuses da cultura consumista, que privilegia o “deus mercado” sem considerar o valor e a dignidade do ser humano. A vida deixa de ser o mais importante e é sacrificada para aumentar o bolo acumulado. Isto está muito visível nas finalidades da PEC 241, em votação.

Ser santo é ser vencedor, é ser como aquele que não se deixa levar pelas instigações da sociedade anticristã, que tem na sua base os mecanismos escusos e aliados às práticas que não condizem com os ensinamentos de Jesus Cristo. Portanto, a santidade é consequência de uma opção de vida, de compromissos concretos com o bem comum e com o bem da humanidade.

O mundo, distante do Pai, não é capaz de entender a dimensão da santidade, porque ela vai além do simples “gozar a vida”, do bem estar pessoal proclamado a todo instante pela grande mídia. É a convicção do encontro e da comunhão com Jesus Cristo que faz as pessoas se distanciarem do mal, daquilo que impede a vinculação com o número das pessoas realmente santas.

Nas bem-aventuranças do Evangelho, Jesus disse que nos bem-aventurados acontece o Reino de Deus. Esse Reino está presente na terra e tem sua plenitude na eternidade (cf Mt 5,1-12). Não é feliz e não tem o Reino quem tem tudo no mundo, faz as coisas para tapear os outros e não tem a si mesmo. O Reino tem o indicativo da cruz, do sofrimento e das perseguições.

 

 

Alegria na morte

Dom Messias dos Reis Silveira
Bispo de Uruaçu (GO)

 

 

 

No mês de novembro se reflete muito sobre o encontro com Deus na morte. Muitas pessoas vão aos cemitérios, fazem suas orações pelos falecidos. É  uma oportunidade propícia para se pensar na fugacidade da vida neste mundo. Uma vez criado o ser humano caminha para a eternidade. Ele nasce no caminho da ressurreição.

A vida se desenvolve na dinâmica da acolhida e da despedida. Quando nasce uma criança ela é acolhida por aqueles que a esperam. Ela entra no convívio da família e  recebe o amor das pessoas. Essa acolhida vai se estendendo na Igreja através do Batismo, na vizinhança através das relações sociais, na escola, na sociedade em seus mais variados níveis. Enquanto vai se dando essa acolhida também acontecem despedidas. Filhos deixam os pais para estudar, trabalhar, ou viver uma vocação específica no matrimônio, na vida consagrada, ou no  sacerdócio. Acolhida e despedida é uma dinâmica constante para quem vive. Quem participa de despedidas, para não sofrer muito, precisa dar liberdade para a pessoa partir e se alegrar com o seu futuro. 

A morte é uma despedida. Na morte temos que nos despedir da pessoa que amamos. Temos que deixá-la partir para um encontro definitivo com Deus. É preciso olhar para o futuro e não querer aprisionar a pessoa no  passado, ou nas boas experiências que se viveu.

A pessoa humana traz dentro de si a certeza de que um dia a morte chegará para ela. Quem está vivo pode ser surpreendido a qualquer momento pela notícia do falecimento de uma pessoa amada. As notícias modificam os nossos sentimentos, nos deixam alegres, ou tristes. A notícia da morte nos causa um espanto. Em geral o sofrimento dos enlutados é sempre muito grande e precisa ser administrado.

Quando chega a morte, não se pode negar a dor, pois  ela é sinal de vida. Somente os vivos sentem dor. Não se pode negar a morte e a dor do luto. Existem pessoas que no dia da morte de um parente próximo se comportam como se não tivesse acontecido nada. Ficam como se estivessem anestesiadas. É preciso viver a perda. É preciso chorar, ou se emocionar. É preciso viver o momento das lágrimas. Quem não faz isso acaba retardando os sentimentos que vão se manifestar posteriormente como uma dor, mais grave, causada por um ferimento que se infeccionou. 

Não dá para passar pelo luto sem sofrer, sem a dor, mas é possível iluminar essa travessia com a fé. É preciso nestas horas procurar avistar longe, olhar para o futuro que Deus reserva aos seus filhos. O futuro de cada um é a eternidade. 

Deus como pai todos os dias assiste a morte de milhares de seus filhos, mas ele não sofre, pois para Ele a morte não é o fim, mas chamada para a plenitude da vida.  A morte é uma oportunidade para renovar nossa fé na vida eterna. Numa família quando algum membro recebe um prêmio todos se alegram. Na morte somos chamados a acolher a prêmio da vida plena oferecida por Deus, a quem se foi. Olhando nesta dimensão se pode dizer que os enlutados precisam contemplar a alegria da salvação dada aos partem rumo ao encontro com Cristo na eternidade.