E dois mil e dezessete?

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba (MG)

 

Começamos um novo ano, certamente não diferente de 2016. As perspectivas estão muito nebulosas, confusas e com poucas esperanças. O terrorismo, a ganância e o individualismo se alastram de maneira muito assustadora. Perdemos a confiança nas pessoas, principalmente nas lideranças que deveriam sustentar a estabilidade dos cidadãos. Como disse alguém: “Só Deus, só Nele confiar!”.

Mesmo em meio a atos de injustiça, que têm raízes em todos os setores da vida brasileira, o ano deve começar com as bençãos de Deus. Nas palavras do papa Francisco, para quem faz o processo da reconciliação e da superação das fraquezas, a misericórdia divina supera as misérias humanas. Não há limites no amor de Deus, porque faz parte de seu plano, a salvação de todos.

Todo envolvimento com a maldade causada pela injustiça impede a pessoa de acolher o anúncio da Boa-nova do Evangelho. Ela deixa de participar da alegria e das maravilhas da presença de Deus, que transforma totalmente o ser humano. Tira as pessoas do jugo da escravidão e as faz proclamadoras dessa boa notícia. Em vez de destruir, constrói o bem e a sociedade com responsabilidade.

O modo de agir de Deus é surpreendente. Ele se abaixa e se torna humano para possibilitar que nos coloquemos de pé, superando as misérias que nos afligem. Nele temos que aprender a ser humildes, porque esse é o caminho que nos leva a acolher a divindade e nos tornar divinos. As trevas que nos encobrem precisam transformar-se em luz para dar claridade em nossas ações.

Passado o Natal, agora a vida vai tomando novos rumos e, entre eles, temos a posse dos novos dirigentes municipais. A transparência tem sido um desafio, porque o poder está muito enraizado na ânsia pelo dinheiro. Até parece que Deus virou dinheiro. Significa que a felicidade está longe. Repito as palavras de Tereza de Calcutá: “A pessoa é tão pobre, que só tem dinheiro”.

Pedimos a benção de Aarão para o ano de 2017. Que seja uma benção protetora: “O Senhor te abençoe e te guarde”; uma benção de perdão: “O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti”; e uma benção de paz: “O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz” (Nm 6,22-27). São Paulo diz que Jesus é a benção encarnada do Pai, e seu único mediador (cf. I Tm 2,5).

 

Natal: para muitos ou para todos?

 

Dom Pedro Brito Guimarães
Arcebispo de Palmas (TO)

 

Logo que começa o tempo do advento, preparação ao Natal, eu, comumente, me ponho, em oração, a perguntar: para quem o Natal? Para “muitos” ou para “todos?” E a resposta é sempre a mesma: “Natal: para muitos e para todos!” De fato, o nascimento de Jesus, na noite de Natal, na gruta de Belém, foi anunciado com estes termos: “Não tenhais medo! Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós Salvador, que é o Cristo Senhor!” (Lc 2,10b-11). Um pouco mais tarde, no auge da sua vida pública, Jesus se auto-apresentou com as seguintes palavras: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45; Mt 20,28). Na última ceia, Ele assim se autodefiniu: “Este é o meu sangue da nova Aliança, que é derramado por muitos” (Mc 14,24; Mt 26,28; Lc 22,20; 1Cor 11,25). E na missão, Paulo afirmou: “Há um só Deus e um só mediador entre Deus e a humanidade: o Homem Jesus Cristo, que se entregou com resgate por todos” (1Tm 2,6). 

Os textos, citados acima, trazem este dilema, que persiste, a varar séculos. Com entender estes: às vezes, “por muitos” e, às vezes, “por todos”? Por muitos ou por todos? A salvação trazida por Jesus Cristo é para a totalidade da humanidade, ou seja, para todos os seres humanos. Na revisão do Missal Romano que as Conferências Episcopais estão fazendo, a pedido da Santa Sé, devemos decidir se nas palavras da consagração do vinho, dizemos que o sangue de Jesus foi derramado por “muitos” ou por “todos”. Quem conhece a mente do Vaticano sabe que se faz consulta é porque quer mudança. 

Portanto, muito se discute se Jesus nasceu por todos e morreu por muitos. É possível? Mais do que jogo de palavras, é importante entendermos teologicamente isto. Jesus nasceu para todos. Ele é o Salvador universal, o Redentor, único e insubstituível. Ninguém nos salvará, a não ser em Jesus. Não há outro “salvador” que nos possa salvar. Sem Jesus não há salvação. A oferta de salvação é universal, é para todos. Mas a decisão de aceitar ou de rejeitar esta oferta é pessoal. Nem todos sabem e recebem esta oferta de salvação. Muitos não conhecem a Jesus Cristo. Muitos não O aceitam como o seu Salvador. Muitos não aderiram à fé cristã. Alguns são inimigos da cruz de Cristo (Fl 3,18); outras a consideram loucura; outros, escândalo; outros, porém, sabedoria de Deus (1Cor 2,18.23-24). Jesus é Salvador de todos, mas pode salvar a muitos. Além do mais, na Bíblia existe a figura literária da “personalidade corporativa”: o que se diz do uno, diz-se do múltiplo. O que se diz de Adão, de Eva, Maria e de Jesus, diz-se de todos os seres humanos. Assim “o muito é o todo, e o todo é o muito”.

À luz do que dissemos, acima, escolhi cinco personalidades corporativas para dedicar este Natal: dedico o Natal deste ano a todos os causadores, operadores e provocadores das crises políticas, sociais, econômicas e culturais, pelas quais passa o Brasil. Por causa deles, muitos perderam a confiança e a esperança nos gestores públicos e nas classes empresariais. Muitos perderam empregos e direitos adquiridos. Muitos ficaram mais pobres. Dedico este Natal ao papa Francisco, pela sua presença positiva e construtiva, na Igreja e na sociedade, e pelos seus sofrimentos, por causa da oposição que recebe de pessoas e grupos que querem uma Igreja engessada, apegada ao passado, com seus navios estacionados e ancorados, sem abertura aos mares bravios, nunca antes vistos. Dedico o Natal deste ano a todas as vítimas das tragédias, das catástrofes, dos acidentes, das guerras, das doenças e das imprudências humanas. Dedico este Natal às crianças, vítimas de abortos: muitas foram apenas geradas, mas que não tiveram a sorte e nem o direito de nascer. Por fim, dedico este Natal a todos nós, servos e servas do Senhor, da Arquidiocese de Palmas. Jesus não é um presente, como um carrinho ou uma boneca, com os quais se pode brincar. É o presente de Filho de Deus. A José, o Anjo diz que Jesus vai salvar o seu povo dos seus pecados (Mt 1,21). “De fato, Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Um feliz Natal para muitos e para todos! Amém!