Estilo de vida

Dom Genival Saraiva
Administrador Apostólico da arquidiocese da Paraíba

A Constituição Gaudium et Spes (Alegria e Esperança) do Concílio Vaticano II é conhecida como “Carta Magna da Pastoral Social”. Muitos problemas que são da ordem do dia foram objeto da leitura pastoral dos Padres Conciliares que, no exercício de seu profetismo, escreveram documentos que evidenciam o vínculo missionário da relação entre a Igreja e o mundo. A atualidade da Gaudium é a confirmação da palavra de Jesus dirigida aos seus discípulos: estar no mundo sem ser do mundo. Essa palavra tem o mesmo significado e contém a mesma exigência para os cristãos nesta segunda década do século 21.

Algumas situações são contempladas na Gaudium et Spes. “Uma tão rápida evolução, muitas vezes processada desordenadamente e, sobretudo, a consciência mais aguda das desigualdades existentes no mundo, gera ou aumenta contradições e desequilíbrios. (…) No seio da família originam-se tensões, quer devido à pressão das condições demográficas, econômicas e sociais, quer pelas dificuldades que surgem entre as diferentes gerações, quer pelo novo tipo de relações sociais entre homens e mulheres. (…) Grandes discrepâncias surgem entre as raças e os diversos grupos sociais; entre as nações ricas, as menos prósperas e as pobres; finalmente, entre as instituições internacionais, nascidas do desejo de paz que os povos têm, e a ambição de propagar a própria ideologia ou os egoísmos coletivos existentes nas nações e em outros grupos. Daqui nascem desconfianças e inimizades mútuas, conflitos e desgraças, das quais o homem é simultaneamente causa e vítima” (GS, n. 8).

Essa Constituição Pastoral mantém a mesma linha diante de outros assuntos que dizem respeito à pessoa, à família, à sociedade: “Entretanto, vai crescendo a convicção de que o gênero humano não só pode e deve aumentar cada vez mais o seu domínio sobre as coisas criadas, mas também lhe compete estabelecer uma ordem política, social e econômica, que o sirva cada vez melhor e ajude indivíduos e grupos a afirmarem e desenvolverem a própria dignidade. Daqui vem a insistência com que muitos reivindicam aqueles bens de que, com uma consciência muito viva, julgam-se privados por injustiça ou por desigual distribuição. As nações em vias de desenvolvimento, e as de recente independência, desejam participar dos bens da civilização, não só no campo político mas também no econômico, e aspiram a desempenhar livremente o seu papel no plano mundial; e, no entanto, aumenta cada dia mais a sua distância, e muitas vezes, simultaneamente, a sua dependência mesmo econômica com relação às outras nações mais ricas e de mais rápido progresso. Os povos oprimidos pela fome interpelam os povos mais ricos. As mulheres reivindicam, onde ainda a não alcançaram, a paridade de direito e de fato com os homens. (…) O mundo atual apresenta-se, assim, simultaneamente poderoso e débil, capaz do melhor e do pior, tendo patente diante de si o caminho da liberdade ou da servidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio. E o homem torna-se consciente de que a ele compete dirigir as forças que suscitou, e que tanto o podem esmagar como servir. Por isso se interroga a si mesmo” (GS n. 9).

O olhar dos Bispos no Concílio Vaticano II enxergou a realidade do mundo hoje e, assim, persistirá esse estilo de vida, no futuro, se a sociedade civil e o universo político não procurarem o caminho da justiça e paz nas relações pessoais e institucionais.

 

 

Sínodo dos Bispos sobre os jovens

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta, RS

No último dia 13 de janeiro, o Papa Francisco deu início ao caminho para a XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, apresentando para toda a Igreja o Documento Preparatório. Este Sínodo será realizado em outubro de 2018, em Roma, e terá como tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. A notícia é fonte de alegria e de muita esperança para os jovens e para toda Igreja. Na carta que dirigiu aos jovens, assim se expressou: “Eu quis que vós estivésseis no centro da atenção, porque vos trago no coração.” A Igreja deseja interrogar-se sobre o modo de anunciar o Evangelho aos jovens, de acompanhá-los e ajudá-los no itinerário da vida cristã. O texto bíblico inspirador é do Evangelho de João, em que Jesus se volta aos dois discípulos que o acompanhavam e lhes faz um convite: “vinde e vede” (Jo 1, 39). Assim, afirma o Santo Padre, “Jesus dirige o seu olhar também a vós, convidando-vos a caminhar com Ele. Caríssimos jovens, encontrastes este olhar? Ouvistes esta voz? Sentistes este impulso a pôr-vos a caminho?” Este chamado é atual e é dirigido a todos os jovens, pois Deus quer que todos vivam na alegria completa. Para isto é preciso “empreender um itinerário de discernimento para descobrir o projeto de Deus na vossa vida.”

Para realizar este percurso, a Igreja é convidada a olhar a realidade na qual vivem nossos jovens. As condições em que se encontram muitos jovens não lhes permite criar um espaço para escolhas e projetos de vida segundo o sonho de Deus.  “Pensemos nos jovens em situações de pobreza e exclusão; naqueles que crescem sem pais nem família, ou então em quantos não têm a possibilidade de ir à escola; nas crianças e nos meninos de rua de numerosas periferias; nos jovens desempregados, deslocados e migrantes; naqueles que são vítimas de exploração, tráfico e escravidão; nas crianças e nos adolescentes recrutados à força em grupos criminosos ou milícias irregulares; nas noivas-crianças ou nas jovens obrigadas a casar contra a sua própria vontade”, afirma o Documento. No que se refere às opções de vida, há dificuldade de empenhar a vida numa decisão definitiva: “hoje escolho este, amanhã veremos”. No tocante à prática religiosa cresce o número dos que “não se colocam «contra», mas aprendem a viver «sem» o Deus apresentado pelo Evangelho e «sem» a Igreja, confiando ao contrário em formas de religiosidade e espiritualidade alternativas”.

Com o percurso do Sínodo, a Igreja deseja “encontrar, acompanhar e cuidar de cada jovem, sem exceção. Não podemos nem queremos abandoná-los às formas de solidão e de exclusão às quais o mundo os expõe. Que a sua vida seja uma boa experiência, que não se percam ao longo de caminhos de violência ou de morte, que a desilusão não os aprisione na alienação.” Com os jovens realizar um percurso de discernimento, isto é, um processo em que a pessoa, em diálogo com o Senhor e à escuta da voz do Espírito, chega a fazer as opções fundamentais, a começar por aquela sobre o estado de vida. A Igreja deseja oferecer a possibilidade para que os jovens se encontrem com o Senhor e sua Palavra ilumine sua vida e seus projetos e sejam felizes. Para isto, é preciso caminhar com eles “encontrando-os lá onde eles estão, adaptando-se aos seus tempos e aos seus ritmos”. Esta proximidade, a exemplo de Jesus nos Evangelhos, se dá através de três ações, que podem caracterizar um estilo pastoral: sair, ver, chamar.

Enfim, somos todos convidados a participar ativamente deste processo sinodal, especialmente os jovens de nossas comunidades. Temos certeza que o Espírito Santo guiará este caminho para que todos os jovens vivam felizes, como disse Jesus: “a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa» (Jo 15, 11).

 

Sal e Luz

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

A cada domingo, são muitos os temas com que a Palavra de Deus nos alimenta. No Evangelho do V Domingo do Tempo Comum (cf. Mt 5,13-16), escutamos a continuação do Sermão da Montanha e queremos salientar duas afirmações que são palavras importantes de Jesus, e que devem ressoar em nossas vidas como a grande novidade e uma importante missão: “Vós sois o sal da terra; vós sois a luz do mundo”! Com unção e humildade, como se escutássemos pela primeira vez, procuremos acolher com o coração aberto esse anúncio para encontrarmos a Vida e vivermos de verdade como discípulos missionários. O Senhor nos fala da nossa responsabilidade perante o mundo: Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo. E diz isso a cada um de nós, àqueles que queremos ser seus discípulos.  

O sal dá sabor aos alimentos, torna-os agradáveis, preserva da corrupção e tinha, no passado, uma conotação da sabedoria divina. No Antigo Testamento, prescrevia-se que tudo que se oferecesse a Deus devia estar condimentado com sal (cf. Lv 2, 13), para significar o desejo de que a oferenda fosse agradável. Vós sois o sal da terra! O sal, na Escritura, aparece como o elemento que dá sabor, purifica e conserva, tornando perenes e duradouros os alimentos… Daí a expressão “aliança de sal”, isto é, “uma aliança perene aos olhos do Senhor” (Nm 18,19). Por causa dessa pureza e perenidade, é que Israel deveria ajuntar o sal a toda oferta que fizesse ao Senhor Deus: “Salgarás toda a oblação que ofereceres, e não deixarás de pôr na tua oblação sal da aliança de teu Deus; a toda a oferenda juntarás uma oferenda de sal a teu Deus” (Lv 2,13). Vós sois o sal que dá sabor, pureza e conservação ao mundo diante de Deus! Sois a pitadinha de sal que torna o mundo uma oferenda agradável e aceitável ao Senhor! Sois tão pequenos, tão poucos, tão frágeis, tão impotentes, porém, tão necessários! Domingo passado, na Segunda Leitura fomos lembrados que “Entre vós não há muitos sábios de sabedoria humana nem muitos poderosos nem muitos nobres… Deus escolheu o que o mundo considera como estúpido, para assim confundir o que é forte; Deus escolheu o que o mundo considera sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para, assim, mostrar a inutilidade do que é considerado importante… É graças a ele que vós sois em Cristo..” (1Cor 1,26-31). 

A luz é a primeira obra da criação (Gn 1, 15), e é o símbolo do Senhor, do Céu e da Vida. As trevas, pelo contrário, significam a morte, o inferno, a desordem e o mal. Vós sois a luz do mundo! – Que afirmação impressionante! Um só é a luz: Aquele que disse de si próprio: “Eu sou a luz do mundo”! (Jo 8,12). Como pode, então, dizer agora que nós somos luz? Escutemos: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”! (Jo 8,12). Eis: se em Cristo – e somente Nele – somos sal da aliança selada na cruz, também somente na sua luz, seguindo seus passos, tornamo-nos luz. É isso que nos afirma o Apóstolo: “Outrora éreis trevas! Agora, sois luz no Senhor! Andai como filhos da luz”! (Ef 5,8). Por nós mesmos não somos sal, mas insípidos; por nós mesmos não somos luz, mas trevas tenebrosas! Mas, em Cristo, damos sabor ao mundo e somos reflexos da luz do Senhor! Não somos luz, mas iluminados pela luz de Cristo. Somente seremos luz se nos deixarmos iluminar pela luz fulgurante que brota da sua cruz! Que o cristão não busque outro sal ou outra luz, a não ser o Cristo, e Cristo na sua humildade, na sua pobreza, no seu serviço, na sua disponibilidade total em relação ao Pai: “Não julguei saber coisa alguma entre vós, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado”! Aquilo que passa da cruz do Senhor, que foge da cruz do Senhor, que procura outro caminho e outra lógica, que não a da cruz que conduz à ressurreição, não salga e não ilumina! Então, que brilhe a luz de Cristo em nossa vida e em nossas obras!

Os discípulos de Cristo são o sal da Terra: dão um sentido mais alto a todos os valores humanos, evitam a corrupção, trazem com as suas palavras a sabedoria aos homens. São também luz do mundo, que orienta e indica o caminho no meio da escuridão. Quando os cristãos vivem segundo a sua fé e têm um comportamento irrepreensível e simples, brilham como astros no mundo (Fil 2, 15), no meio do trabalho e dos seus afazeres, na sua vida normal. 

Peçamos ao Senhor a graça de sermos sal da terra e luz do mundo.  Com a luz de Cristo é que nós, cristãos, vivendo o nosso batismo, transmitiremos a luz de Cristo a todos. Onde está um cristão, aí está a luz de Cristo! Ali deverá estar aquele que dá sentido à vida das pessoas como o sal dá sabor aos alimentos. E sendo esse sinal, sabe que é apenas um servidor, pois tudo se faz referência a Cristo. Por isso somos chamados, a cada dia, a nos convertermos para que “vendo as boas obras, glorifiquem o Pai que está nos céus”.  

 

 

Eu, porém, vos digo…

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

 

Na caminhada deste tempo entre o Natal e a Quaresma, já passado da metade dessa época, celebramos neste final de semana o VI Domingo do Tempo Comum. A leitura do Eclesiástico (Eclo 15,16-21) deixa claro que cada pessoa opta pela sua felicidade ou desgraça, à medida que faz opções a favor da vida ou a favor da morte. Deus deixa toda liberdade de escolha às pessoas, mas aponta, ao mesmo tempo, o único caminho certo: “Escolha, pois, a vida…” (Dt 30,19). É, portanto, responsável pela própria vida. São Paulo, na Segunda Leitura deste domingo, (1Cor 2,6-10), em sua carta chama os cristãos de Corinto de pessoas maduras na fé, porque se abriram à novidade de Jesus Cristo crucificado. A maturidade na fé começa quando se acolhe o mistério da encarnação, morte e ressurreição de Jesus. A sabedoria da qual fala São Paulo é o projeto de Deus, “uma sabedoria misteriosa, escondida, que Ele reservou antes dos séculos para a nossa glória”. (cf. 1Cor 2,7). A comunidade de Corinto é destinatária dessa sabedoria, porque, em sua pobreza, escolheu o projeto de Deus já anunciado pelos profetas. O mesmo Deus, que caminhou no passado com Seu povo, está presente agora na comunidade que aceitou Jesus crucificado, revelando Seu projeto por meio do Espírito Santo. 

O texto do Evangelho (Mt 5,20-22a.27-28.33-34a.37 ou a forma mais longa Mt 5,17-37), continuação do Sermão da Montanha, escolhido para este domingo é desdobramento das Bem-aventuranças. Ele afirma que Jesus não veio para abolir a Lei e os Profetas, mas sim dar-lhe pleno cumprimento, respeitando as leis e as instituições de seu povo, e sempre as interpretou na perspectiva da promoção da vida e do bem comum. Na segunda parte do Evangelho, Jesus explica, de maneira mais profunda, quatro exemplos do Antigo Testamento. Jesus nos alerta que não basta observar leis para ser justo. É preciso observá-las de coração, com convicção, maneira pessoal, conscientes daquilo que se está fazendo, a fim de realizar o bem ao qual a lei visa. A justiça não depende da observância externa da lei. É no coração que se decide a atitude mais verdadeira e mais radical do homem. É para aí que devemos dirigir a atenção e a escolha. Não basta, portanto, não matar, mas é necessário não se desejar o mal do outro. Não basta não cometer adultério; é preciso não desejar a mulher dos outros. Não basta lavar as mãos antes das refeições, mas é necessário purificar o coração. Não basta erguer monumentos aos profetas, mas é preciso não os calar, matando-os. Não basta o sacrifício, se não se põe na própria vida a moral e a justiça, a misericórdia e a fé. Não basta multiplicar palavras nas orações, mas é necessário ter fé na bondade de Deus. Qual é mesmo a proposta de Jesus para nós? Nossas relações favorecem a justiça que conduz a vida para todos? 

O Senhor diz no Evangelho (Mt 5, 17-37) que Ele não veio destruir a antiga Lei, mas dar-lhe a sua plenitude; restaura, aperfeiçoa, e eleva a uma ordem superior os preceitos do Antigo Testamento. Somos convidados a refletir sobre qual deve ser a atitude do cristão diante da Lei de Deus e as implicações que a mesma tem nas nossas opções de vida. Jesus não veio abolir a Lei, mas levá-la à perfeição. Depois de ter anunciado os grandes princípios da nova lei nas bem-aventuranças, Jesus as desenvolve, aprofundando o espírito dos mandamentos dados ao povo de Deus por Moisés. Trata-se de cumprir não apenas materialmente os mandamentos, mas de dar-lhes o verdadeiro espírito de justiça e de amor. Daí as palavras de Jesus: “Ouvistes o que foi dito aos antigos; Eu, porém, vos digo” (Mt 5, 17-37). Isso em relação à vida, à felicidade ao amor conjugal e à verdade. Não basta, por exemplo, não matar; é preciso também evitar palavras de desamor, de ressentimento ou de desprezo para com o próximo. Não basta privar-se dos atos materiais contra a Lei; é preciso eliminar também os maus pensamentos e os maus desejos, porque quem os consente, já pecou no “seu coração” (Mt 5, 28): já assassinou o seu irmão ou cometeu adultério.

Quanto à verdade, diz Jesus: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não” (Mt 5, 37). O cristão é chamado a ser transparente, simples. O contrário seria cheio de dobras, complicado. Não é só não jurar em falso, mas viver de tal modo a verdade que não se precise jurar de modo algum. Fazer tudo em nome do Senhor, no Senhor.

“Ouvistes o que foi dito aos antigos… Mas eu vos digo” (Mt 5,21-22). Somente se Jesus é Deus pode fazer algumas alterações nas tradições dadas por Deus no Antigo Testamento. E Jesus é Deus! Por isso recordemos: “ninguém, pois, vos critique por causa de comida ou bebida, ou espécies de festas ou de luas novas ou de sábados. Tudo isto não é mais que sombra do que devia vir”. 

“A realidade é Cristo”! (Cl 2,16-17). Enquanto se insistem nessas “sombras da realidade”, é possível que coisas mais importantes sejam descuradas, como aquelas que o Senhor nos diz no Evangelho de hoje: viver a caridade para com todos, guardar o coração puro e casto, viver na verdade em todo momento.

Trilhar outro caminho

Dom Reginaldo Andrietta
Bispo Diocesano de Jales, SP

A crise, hoje, amplamente discutida por todos os setores sociais, não é tão nova como se pensa, tampouco exclusiva dos tempos atuais. A humanidade vive em permanente crise. Ela se manifesta, sempre, de modos diferentes. A crise de hoje, do ponto de vista econômico e social, nada mais é do que uma nova crise do capitalismo, sistema no qual estamos imersos há vários séculos. Essas crises, relacionadas a transformações nas relações de poder econômico e político, estão, por sua vez, associadas a mudanças tecnológicas, especialmente nos processos produtivos.

Vivemos, hoje, a quarta revolução industrial. Na primeira, entre 1760 e 1830, houve mudança da produção manual à mecanizada. A segunda revolução, gerada sobretudo pela introdução da eletricidade nos processos produtivos, favoreceu a produção em massa. A terceira ocorreu desde os meados do século 20, com o desenvolvimento da eletrônica e as telecomunicações. A quarta revolução, de cunho digital, está provocando automatização acelerada dos processos produtivos, independizando-os de atividades humanas.

Centenas de economistas e líderes governamentais de nações ricas, reunidos no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, nos últimos dias, se manifestaram entusiastas com esse tipo de revolução, pois reforça seus ideais de uma economia modernizada, a seu favor. Com ela, a economia mundial crescerá enormemente para os que têm capacidade de inovação e adaptação. No entanto, as economias de países tidos como subdesenvolvidos e emergentes, incapazes de se modernizarem no mesmo ritmo, estão sendo atropeladas.

Essa disparidade no desenvolvimento das nações, tem sido claramente questionada pela Doutrina Social da Igreja, com pronunciamentos significativos de nossos Papas. Paulo VI, em sua Encíclica sobre o Desenvolvimento dos Povos, de 1967, já se referia a essa “dura realidade da economia moderna”, como um mecanismo que “arrasta o mundo, mais para a agravação do que para a atenuação da disparidade dos níveis de vida: os povos ricos gozam de um crescimento rápido, enquanto os pobres se desenvolvem lentamente”.

O Papa João Paulo II, em sua Encíclica Centésimo Ano, de 1991, afirmou que as nações mais pobres “têm necessidade que lhe sejam oferecidas condições realisticamente acessíveis”, por meio “de uma concertação mundial para o desenvolvimento, que implica inclusive o sacrifício das situações de lucro e de poder, usufruídas pelas economias mais desenvolvidas”. Em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, em 1° de janeiro de 2004, evocou a necessidade de uma nova ordem mundial fundada na solidariedade entre países ricos e pobres.

O Papa Francisco, por sua vez, afirmou na Exortação Apostólica Alegria do Evangelho, de 2013, que “a economia deveria ser a arte de alcançar uma adequada administração da casa comum, que é o mundo inteiro”, e destacou que “se realmente queremos alcançar uma economia global saudável, precisamos, neste momento da história, de um modo mais eficiente de interação que, sem prejuízo da soberania das nações, assegure o bem-estar econômico a todos os países e não apenas a alguns”. Ele é contundente em sua proposta de mudanças estruturais na economia global.

A tão comentada crise brasileira está, portanto, relacionada à ordem econômica mundial. Estamos saturados de problemas causados por enormes contradições globais. Essa crise, no entanto, é uma oportunidade para libertamo-nos de dependências históricas, por meio da cooperação entre nações que andam a pé na estrada da livre concorrência econômica, atropeladas por outras com seus veículos potentes. Se o governo atual persiste em continuar nessa pista de corrida desleal, que para nós é mortal, cabe-nos, como cidadãos e cidadãs, insistir que necessitamos trilhar outro caminho.

 

Novos bispos para o Rio

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

Sábado, dia 28 de janeiro, memória de Santo Tomás de Aquino, tive a graça de ordenar dois novos bispos auxiliares para a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro: D. Joel Amado Portela e D. Paulo Alves Romão, que se juntarão aos demais bispos auxiliares para nos ajudarem a pastorear o povo santo de Deus nesta nossa grande, bela e complexa cidade.

A Igreja tem a missão de anunciar e propagar o Reino de Deus até os extremos confins da Terra, a fim de que todos os homens creiam em Cristo e assim tenham a vida eterna. A Igreja é, portanto, anunciadora da misericórdia. É dessa missão que brotam as tarefas, a luz e as forças que podem contribuir para construir e consolidar a comunidade dos homens segundo a Lei divina. 

O Bispo é o princípio visível de unidade na sua Igreja; é chamado a edificar incessantemente a Igreja particular na comunhão de todos os seus membros e, destes, com a Igreja universal, vigiando a fim de que os diversos dons e ministérios contribuam para a comum edificação dos crentes e com a difusão do Evangelho.

Como mestre da fé, santificador e guia espiritual, o Bispo sabe que pode contar com uma especial graça divina, conferida na ordem episcopal. Tal graça o sustenta no seu consumir-se pelo Reino de Deus, pela salvação eterna dos homens e também no seu empenho para construir a história com força do Evangelho, dando sentido ao caminho do homem no tempo.

O Bispo, diante de si mesmo e dos seus deveres, tem presente como centro que delineia a sua identidade e a sua missão o mistério de Cristo e as características que o Senhor Jesus quer para a sua Igreja, “povo reunido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (LG, 4). É, de fato, à luz do mistério de Cristo, Pastor e Bispo das almas (cf. 1Pd 2,25), que o Bispo compreende sempre mais profundamente o mistério da Igreja, na qual a graça da ordenação episcopal o colocou como mestre, sacerdote e pastor para guiá-la com a sua mesma autoridade.

Uma das mais belas figuras do bispo é a do Bom Pastor, pois ela ilustra o conjunto do ministério episcopal enquanto manifesta o seu significado, a sua finalidade, o seu estilo e o seu dinamismo evangelizador e missionário. Cristo Bom Pastor indica ao Bispo a fidelidade cotidiana à própria missão, a plena e serena consagração à Igreja, a alegria de conduzir para o Senhor o Povo de Deus que lhe é confiado e a felicidade em acolher na unidade da comunhão eclesial todos os filhos de Deus dispersos (cf. Mt 15, 24; 10,6).

O Bom Pastor ofereceu a vida pelo rebanho (cf. 10,11) e veio para servir e não para ser servido (cf. Mt 20,28). Além disso, aí se encontra a fonte do ministério pastoral pelo qual as três funções: de ensinar, santificar e governar devem ser exercitadas com os traços característicos do Bom Pastor. Para desenvolver o ministério episcopal fecundo, o Bispo é chamado a conformar-se com Cristo de maneira toda especial na sua vida pessoal e no exercício do ministério apostólico, de tal forma que o “pensamento de Cristo” (1Cor 2,16) penetre totalmente as suas ideias, os seus sentimentos e os seus comportamentos, e a luz que provém do rosto de Cristo ilumine “o governo das almas, que é a arte das artes”. (“Regula Pastoralis” de São Gregório Magno, 1).

Quando o Papa Francisco esteve no Brasil por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, ele fez um discurso aos Bispos do Brasil no dia 27/07/2013. Na ocasião, o Papa Francisco retomou o que tinha dito antes, em Roma, aos Núncios Apostólicos, sobre os critérios a seguir ao preparar as listas dos candidatos ao serviço do episcopado. Segundo o Papa Francisco: “Os Bispos devem ser Pastores, próximos das pessoas, pais e irmãos, com grande mansidão: pacientes e misericordiosos. Homens que amem a pobreza, quer a pobreza interior como liberdade diante do Senhor, quer a pobreza exterior como simplicidade e austeridade de vida. Homens que não tenham “psicologia de príncipes”. (Retirado do site: http://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/desdobramentos/393-discurso-do-papa-ao-episcopado-brasileiro-coragem-para-mudar-estruturas. Último acesso: 26/01/2017).

“Homens capazes de vigiar sobre o rebanho que lhes foi confiado e cuidando de tudo aquilo que o mantém unido: vigiar sobre o seu povo, atento a eventuais perigos que o ameacem, mas, sobretudo, para fazer crescer a esperança (o Bispo tem que cuidar da esperança do seu povo): que haja sol e luz nos corações. Homens capazes de sustentar com amor e paciência os passos de Deus em seu povo. E o lugar do Bispo para estar com o seu povo é triplo: ou à frente para indicar o caminho, ou no meio para mantê-lo unido e neutralizar as debandadas, ou então atrás para evitar que alguém se atrase, mas também e fundamentalmente, porque o próprio rebanho tem o seu faro para encontrar novos caminhos”. (Retirado do site: http://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/desdobramentos/393-discurso-do-papa-ao-episcopado-brasileiro-coragem-para-mudar-estruturas. Último acesso: 26/01/2017).

Como tive ocasião de dizer na homilia da Missa de Consagração: D. Joel Portela Amado e D. Paulo Alves Romão, como bispos se abrem à universalidade, embora provenham de situações bem concretas, porém agora não mais pertencem a um movimento, espiritualidade, grupo pastoral ou a uma paróquia, mas sim à Igreja em sua universalidade concretizada na Arquidiocese. São chamados a ser sinais da unidade da Igreja em comunhão perfeita e íntima com o seu Arcebispo, com os demais bispos da arquidiocese, com o regional e toda a Igreja do Brasil – consequentemente unido ao sucessor de Pedro e a toda a catolicidade da igreja. Serão homens da Igreja em favor do povo de Deus, procurando servir aos que mais sofrem e que vivem nas “periferias existenciais”.

D. Joel Portela Amado escolheu como lema: “Omnibus omnia propter Evangelium”, “Tudo para todos pelo Evangelho”. (1Cor 9,22) e D. Paulo Alves Romão escolheu como lema: “Vivere Christus est”, “Viver é Cristo”. (Fl 1,21). Aí está o resumo da caminhada episcopal: viver para Cristo e consumir-se pelo rebanho!

Que o Senhor nos conceda transmitir e ser para o povo a figura do Bom Pastor, acolhendo, servindo, indo ao encontro das ovelhas, em especial da desgarradas e colocando todos no caminho de Cristo Jesus.

 

 

 

 

 

Bem-aventurados

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba

 

O estilo de vida das pessoas define que tipo de identidade elas têm. Isto se torna um mistério quando olhamos para os critérios propostos por Deus, contidos nas palavras de Jesus Cristo no Evangelho. Ele chama de bem-aventurados todos os que se apresentam revestidos de santidade. Os mais pobres e sofredores se identificam, com mais facilidade, com esta realidade.

O itinerário do bem-aventurado está na prática do bem. A felicidade não depende apenas de ter “bem-estar” individual, mas em construir um mundo mais humano e na comunhão. Essa prática supõe vida centrada em Deus, a fonte da verdadeira felicidade. Supõe renúncia da autossuficiência pessoal e vaidades superficiais diante da grandeza do estado de vida sobrenatural.

Os critérios da felicidade de Deus são diferentes dos critérios humanos. A justiça divina não suporta amarras, compromissos desonestos, corporativismos escusos, apego a bens materiais, jogadas politiqueiras etc. Essas práticas são excludentes e causam pobreza e sofrimento para a população. Até podemos dizer que Deus sofre quando vê o sofrimento de seu povo.

Na cultura da violência, são bem-aventurados os que promovem a paz e praticam a mansidão sem nenhum preconceito em relação ao outro, porque reconhecem nele sua dignidade. O outro é tratado como irmão, mais ainda quando necessita de ajuda. Com isto, a partilha e a solidariedade passam a ser fontes genuínas de vida feliz. Assim o outro é tratado como sendo um “outro eu”.

A autossuficiência vai à contramão das bem-aventuranças, porque quem assim age está buscando a si mesmo. Ele se torna incapaz para formar comunidade e de construir alguma coisa em comum. Na dinâmica de Deus, é feliz quem é capaz de ir ao encontro do irmão necessitado para ajudá-lo e recuperar sua dignidade e autoestima. Amar o irmão é como amar a Deus.

Todas as pessoas têm desejo de felicidade, mas isso tem que passar pelo caminho do bem, diferente de bem-estar oferecido pela sociedade de consumo. É feliz quem se lança conscientemente nos desafios propostos por Deus. É o caminho da cruz, do despojamento e da consciência de que só Deus é capaz de proporcionar autêntica felicidade para todos os seus filhos.

 

 

Navegantes: um farol para Porto Alegre

Dom Leomar Antônio Brustolin
Bispo auxiliar de Porto Alegre, RS

Dia 2 de fevereiro Porto Alegre celebrará mais um feriado de Navegantes. Nessa que é considerada uma das capitais mais secularizadas do Brasil, se encontrará uma multidão de pessoas ocupando o centro da cidade e caminhando em direção ao Santuário. O título “Nossa Senhora dos Navegantes” remonta ao tempo das Cruzadas na Idade Média, quando portugueses e espanhóis atravessavam o mar Mediterrâneo em direção à Palestina para proteger os lugares sagrados da Terra Santa. Eles invocavam a Virgem Maria para que ficassem livres dos males e perigos. Ao chegarem ao porto, salvos das tempestades, elevavam preces e construíam capelas para venerar a santa.

A festa é uma das maiores expressões da religiosidade sincrética de Porto Alegre. Devotos de diversas etnias, credos, idades e culturas se encontram e seguem o mesmo rumo, guiados pelo barco-andor. Nele está a imagem de Nossa Senhora, esculpida em madeira por um artista português em 1913. 

Em 2017, na 142ª edição, novamente haverá pessoas oferendo flores e velas, preces e promessas, súplicas e agradecimentos. Além dessa intensa manifestação religiosa, seria muito bom erguer os olhos e o coração para o alto e suplicar que Nossa Senhora ilumine, qual farol luminoso, a noite escura e o mar bravio que desafia diariamente a região metropolitana.

Os navegantes de nosso tempo não enfrentam Cruzadas, tampouco atravessam o Mediterrâneo, contudo, travam uma batalha cotidiana para sobreviver à violência que não conhece mais limites. O mesmo olhar que eleva os olhos para rezar deve ser baixado para tanger as realidades que clamam pela justiça, pela promoção do bem comum e pela garantia da dignidade de todo ser humano. Há desafios dos contextos sociais, políticos e culturais. Mas é preciso também cuidar da interioridade, para que a ferocidade não domine o ser humano. 

Celebrar Navegantes, nessa conjuntura, é perceber que as muitas formas de crer não podem se dividir quando a vida está ameaçada. Um ponto deveria unificar os romeiros: é urgente construir um porto mais seguro e mais feliz. Não bastam boas intenções, é preciso esforço comum, pois a fé remove montanhas e é capaz de ser um dos fatores eficazes na promoção da paz.