Setenta mil homens com o terço nas mãos

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo de Juiz de Fora

 

É surpreendente! Se me dissessem isso há 20 anos, não acreditaria. De alguns anos para cá, o número de homens que vão aderindo à prática milenar da oração do Terço, na Igreja católica, cresce quase assustadoramente. Porém, quando se fala de Terço dos Homens, não se pode imaginar apenas uma oração de certa forma rápida, como nas modalidades anteriores. Eles se reúnem uma hora por semana, geralmente à noite, após o horário de trabalho, e rezam o Terço com cânticos bíblicos, numa expressiva meditação sobre os principais mistérios da vida de Cristo. Alimentam-se da Palavra de Deus, vivem e revivem momentos de espiritualidade e fraternidade, ao contemplar os principais momentos da vida e obra de Cristo, enquanto louvam Maria, a Mãe do Salvador.  O Terço é uma oração mariana e marcadamente cristológica.  

Sábado passado, 18 de fevereiro, reuniram-se no Santuário de Aparecida setenta mil peregrinos na IX Romaria Nacional do Terço dos Homens, vindos de quase todos os Estados da Federação. Foi emocionante escutar a vibração de vozes masculinas que rezavam e cantavam durante a Missa, na parte da manhã e na Oração do Rosário, à tarde. Testemunhos impressionantes foram relatados. Os cânticos da Missa ficaram a cargo dos Homens do Terço das cidades de Pará de Minas, Diocese de Divinópolis, e de Arcos, Diocese de Luz – MG.

Neste Ano Mariano o lema da peregrinação foi “Homens do Terço, é preciso lançar as redes”, por estar sendo celebrado o tricentenário do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, por três pescadores, nas águas do Rio Paraíba do Sul, após o qual a pesca foi abundante. Tal fato extraordinário foi sempre relacionado à pesca milagrosa realizada pelos Apóstolos, depois da qual ouviram dos lábios de Cristo esta promessa e este mandato: “Farei de vós pescadores de homens” (cf Lc 5, 10-11).  Repetido dezenas de vezes, na IX Romaria a Aparecida, como meta a ser atingida, tal lema revela a força missionária evangelizadora existente no movimento. 

Calcula-se que haja, hoje, mais de um milhão de homens rezando o Terço em todo o território nacional todas as semanas, em grupos paroquiais e grande parte com a prática pessoal cotidiana. Se considerarmos que cada homem traz atrás de si a sua família, este número representa muito mais que se imagina no que diz respeito à propagação da fé no povo brasileiro. De fato, a oração do Terço, nas modalidades referidas, tem despertado para a prática religiosa muitas pessoas espiritualmente adormecidas ou que antes andavam em caminhos não condizentes com os princípios da Igreja ou dela tenham se afastado, tomando agora o caminho de volta. 

O interessante do movimento “Terço dos Homens” é que não depende de estruturação burocrática, de estatutos ou regimentos. Os adeptos se organizam de forma simples e espontânea e, ao mesmo tempo, muito eficaz. Na verdade, para rezar não há mesmo necessidade de nenhuma burocratização. Basta se pôr em oração no método que se escolheu, no caso o Terço de Nossa Senhora, atualmente, enriquecido com maiores motivações bíblicas e cânticos adequados. 

Novidade deste ano foi o prosseguimento da movimentação de Aparecida na sede da Comunidade Canção Nova, em Cachoeira Paulista. Ali se celebrou, no Domingo, o primeiro Kairós do Terço dos Homens, que é uma espécie de Recolhimento para meditações, animações e celebrações. Muitos homens da IX Romaria, sobretudo os grupos ligados ao movimento “Mãe Rainha Três Vezes Admirável de Shoenstatt”, se dirigiram para lá, reinando alegria e muita expressão de fé durante todo o dia.

O Terço dos Homens tem se revelado também como instrumento de mútua ajuda, pois os problemas de um passam a ser problemas de todos.

Não será nada de estranho afirmar que a expansão extraordinária desta novel movimentação orante é uma obra sobrenatural, porquanto só faz o bem às pessoas, às comunidades eclesiais e à Igreja toda, verdadeira ação de Cristo pelas mãos de Maria.

 

 

 

 

 

Não queremos a lógica de Caim

Dom Edney Gouvêa Mattoso
Bispo de Nova Friburgo (RJ)

 

Caros amigos, a onda de violência urbana que atingiu nossos irmãos capixabas nos deixou perplexos diante da crueldade sem sentido. Segundo números oficiais, foram 143 mortos, sem falar das perdas materiais e da imensa insegurança que até hoje se abate naquela região. Mas quem foram os saqueadores e assassinos que executaram esta barbárie? Não foram terroristas, nem membros de outra facção criminosa ou partido político beligerante, mas os próprios moradores daqueles centros urbanos, que se armaram em violência contra seus irmãos.

Esta é mesma lógica de Caim (Cf. Gn 4), que por inveja tirou a vida do seu irmão Abel. Tal situação representa a violência do indivíduo contra os outros e, por isso, contra a sociedade em desprezo ao bem comum.

Entretanto, cabe recordar que foi o pensamento político e econômico de nossa atual sociedade do bem-estar que gerou este mal que se irradia incontrolavelmente por todos os lados. As definições de que “o homem é o lobo do homem” e “antes de toda regulação estatal a sociedade é uma guerra de todos contra todos” (Thomas Hobbes) são pensamentos negativos de liberdade que levam ao absolutismo demente e homicida do ser humano que, ao fim, destrói a si mesmo e a tudo aquilo que ama.

O homem, criado a imagem e semelhança de Deus Uno e Trino, não se realiza fora da sociedade e do amor fraterno. Assim sendo, qualquer alternativa que não seja este caminho de comunhão e justiça será sempre falsa ou incompleta.

Recordo uma reflexão do Papa Francisco, quando ainda era Cardeal de Buenos Aires: “Que outro sentido pode ter a liberdade senão abrir-me para possibilidade de ‘ser com os outros’? Para que quero ser livre se não tenho nem um cão que lata para mim? Para que quero construir um mundo se nele eu vou estar sozinho num cárcere de luxo? A liberdade, desde este ponto de vista, não ‘termina’, senão ‘começa’ com os demais. Como todo bem espiritual, ela é maior quanto mais partilhada seja” (18/04/2007).

Este princípio social, fundado na justiça e no amor, é coerente com o Evangelho de Nosso Senhor e bem pode ser aplicado à família, à comunidade laboral, à cidade ou qualquer outra comunidade. Contudo, para que seja realidade é preciso uma tomada de consciência de toda a sociedade, que deve parar de educar seus cidadãos para o individualismo e o lucro, e transmitir outros valores mais elevados e verdadeiros. Não queremos a lógica fratricida de Caim, mas o mandamento novo do Evangelho de Jesus Cristo.

 

A ricos e pobres, o Reino de Deus e sua Justiça

Dom Caetano Ferrari
Diocese de Bauru   

 

Ambientado no Sermão da Montanha (Bem-aventuranças), São Mateus reuniu “ditos” (lógion, lógia, na língua grega) de Jesus, isto é, ensinamentos superiores mediante os quais Ele veio para aperfeiçoar as leis da Antiga Aliança e não suprimi-las. Jesus usou como fórmula própria para enunciá-los, a expressão: “Foi dito aos antigos, Eu, porém, vos digo…”. Jesus toma as letras, isto é, o corpo físico das leis da Antiga Aliança, das quais Ele não veio subtrair nem um “j” nem uma “vírgula, mas as transforma e aperfeiçoa no Espírito com que selou a Nova Aliança por seu sangue derramado na cruz. Sobre Jesus de Nazaré, o Ungido de Javé, o Messias, repousou o Espírito do Senhor. Somente Jesus, o novo Moisés, é quem dá uma lei nova, que tem espírito e vida, fundada numa Justiça superior, na Caridade, no Amor, na Misericórdia. A novidade do Reino de Deus e da Justiça do Pai se assenta sobre esta lei nova, esta Justiça superior do Amor. No trecho evangélico da Missa de hoje – Mt 6,24-34 – Mateus registra este outro ensinamento de Jesus dito aos discípulos: “Ninguém pode servir a dois senhores… Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. Por isso Eu vos digo, não vos preocupeis com a vossa vida, com o que havereis de comer ou beber; nem com o vosso corpo, com o que havereis de vestir. Afinal, a vida não vale mais do que o alimento, e o corpo, mais do que a roupa?”. Jesus usa as imagens  dos “pássaros do céu” e das “flores dos campos”, que respectivamente não semeiam nem tecem, mas Deus os alimenta e as veste, para que os discípulos pudessem compreender com toda nitidez o que Ele ensinava em parábolas. Os pagãos, segundo afirma Jesus, é que poderão ficar preocupados com o que comer, beber e vestir. Mas, não os discípulos. Além do mais, o Pai sabe de tudo o que os discípulos precisam. Jesus arremata seus esclarecimentos dando uma instrução em tom de  imperativo categórico: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo”. Ele diz ainda: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Para cada dia bastam seus próprios problemas”. Quanto ao tema, o Apóstolo São Paulo disse: “Porquanto o Reino de Deus não é uma questão de comer e beber, mas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14,17). E isso vale para todos, ricos e pobres. 

Jesus oferece o Reino de Deus e a Justiça do Pai a ricos e pobres. Jesus coloca diante de uns como dos outros a alternativa “Deus ou o dinheiro”. Talvez para os pobres seja mais fácil fazer a opção clara por Deus do que pelo deus “Mamon” (palavra semítica que significa dinheiro, riqueza), porque eles, de dinheiro real, pouco ou nada tenham. No entanto, é bem sabido que há avarentos que nada possuem, bem menos é claro do que os avarentos ricos. O perigo dos ricos é de substituírem o Deus verdadeiro pelo “demônio Mamon”, de elevarem o dinheiro e a sua posse no valor mais importante da sua vida, no fim último da sua existência, como o bem maior a desejar e procurar e a fonte de sua felicidade. Essa é a idolatria do dinheiro e da sua posse que arranca a pessoa da busca do Reino de Deus e de sua justiça. O perigo dos pobres, porém, pode estar nas preocupações exacerbadas com a luta pelo mínimo necessário à sobrevivência. Alguns, então, se revoltam contra Deus e todo mundo, outros se esquecem dEle, outros acabam numa resignação pessimista, num conformismo antievangélico de que essa seria a vontade de Deus ou esse o seu destino, não restando nada a se fazer.

Palavras como “fé e confiança em Deus”, “oração e trabalho”, “providência divina e solidariedade” devem ser bem conjugadas na correta compreensão dos significados e na perfeita articulação das atitudes e ações. Entre todos os valores superiores hierárquicos da vida o cristão precisa, em primeiro lugar, fazer a sua opção clara por Deus e em favor do seu Reino e da sua Justiça. À fé em Deus segue-se a confiança em Deus. A confiança em Deus, no entanto, não deve ser passiva, como se só bastasse crer, confiar e esperar. O ditado popular “Deus ajuda quem cedo madruga” expressa bem como o cristão deve enfrentar a vida, fazendo a sua parte. Depois, vem o valor da “oração e o trabalho. “Ora et labora” é um sábio princípio monástico. Oração e trabalho, espiritualidade e ação, mística e missão servem tanto na luta pessoal pela vida como na construção da sociedade e na obra pastoral da evangelização. “Sem mim nada podeis fazer”, disse Jesus. A oração é eixo que atravessa toda a vida, sustém a vida no Espírito e fecunda toda a ação. Mas não basta dizer “Senhor, Senhor se não se procurar pôr em prática a Palavra de Deus”, afirmou também Jesus. Portanto, “ora et labora”. Em seguida, vem “a providência divina e a solidariedade”. Jesus está dizendo: “Olhai os pássaros… Considerai as flores… Não vos preocupeis por vossa vida”. Ele conclui, contrapondo: “Pelo contrário, buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas as coisas de que precisais vos serão dadas de acréscimo”. A Justiça nova do Reino funda-se no mandamento novo da caridade, do amor, da misericórdia. Por isso, é exigência do Reino pôr em prática a caridade, a solidariedade com os outros, sobretudo com os pobres, e a misericórdia com pecadores e sofredores. 

Busquemos primeiramente o Reino de Deus, confiemos firmemente na Providência divina e partilhemos generosamente os dons, frutos da bênção e do trabalho, com os pobres e necessitados.  

 

 

 

40ª Romaria da Terra

Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo

No dia 28 de fevereiro de 2017 realizar-se-á a 40ª Romaria da Terra com o lema: “Terra de Deus, terra de irmãos”. O local escolhido é o Assentamento Nossa Senhora Aparecida, área 09 – Fazenda Annoni – RS 324, km 174, município de Pontão, RS. A romaria é preparada pela Comissão Pastoral da Terra e a Arquidiocese de Passo, em particular pela Paróquia Santo Antão de Pontão.

São quarenta anos de Romarias da Terra. Já é um longo caminho percorrido. É necessário olhar para trás com um olhar de gratidão para ver e colher os frutos. Mostrar esta caminhada é importante para toda sociedade. Quarenta anos de romarias também é uma provocação para olhar criticamente o caminho percorrido. Alegrar-se com os acertos, as causas defendidas e assumir a responsabilidade dos erros. Uma justa avaliação permite projetar com esperança o futuro.

A romaria como tal é expressão de uma realidade mais ampla, a questão agrária. A história da humanidade está marcada pela conquista de terras, pela ampliação de territórios, de projetos de ocupação dos territórios conquistados. Um rápido olhar sobre formação do território brasileiro comprova isso. A ocupação, a destinação e o uso das terras fazem parte dos projetos governamentais brasileiros, desde o modelo das sesmarias até a legislação atual. Nesta questão existem várias visões, algumas divergem a tal ponto de se contraporem. Geram conflitos, acalorados debates e, em algumas ocasiões, resultam em conflitos violentos com agressão física e mortes. A questão agrária está em pauta por ser polêmica e porque os encaminhamentos dados ainda não resolveram adequadamente o problema.

O local escolhido para a romaria foi a antiga Fazenda Annoni, hoje dividida em sete comunidades, com 423 famílias assentadas. Este local tem um valor simbólico. Pretende mostrar que os assentados, com muita luta e suor, adquiriram dignidade de vida. As conquistas de moradia, atendimento de saúde, educação e diversas formas de produção testemunham que “hoje, todo mundo tá vivendo bem”, emenda um assentado.

O lema da 40ª Romaria: “Terra de Deus, Terra de Irmãos” será o norte das reflexões, da Celebração Eucarística, das orações, dos cânticos. Afinal, a romaria nasce da fé e se inspira na história do Povo de Deus que foi escravizado e depois liberto. Em seu êxodo ruma a uma terra prometida onde corre lei e mel. A tradição bíblica nos ensina que a terra foi dada a todas as criaturas como dom de Deus. Um presente para o seu sustento, para a geração e a multiplicação da vida. Ninguém é capaz de criar do nada um palmo de terra, uma semente, um copo de água. O ser humano é capaz  para cultivar, plantar e usar a terra. Pensando bem, só se consegue usar a terra porque existem todas as condições favoráveis para tal: o solo, o calor, a luz, a água, o ar, as sementes. Basta cultivar e corrigir o solo, plantar na época certa, escolher as melhores sementes, cuidar da plantação e fazer a colheita. 

Com são Francisco de Assis cantamos o “Cântico das Criaturas”: “Louvado sejas meu Senhor, por nossa irmã e mãe terra que nos sustenta e governa e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas”.

 

 

Quarenta dias

Dom Severino Clasen
Bispo de Caçador

 

 

Passou o carnaval, entramos na quaresma. Mesmo os sem religião são atingidos indireta ou diretamente na vida nos quarenta dias da quaresma. Quaresma é tempo que antecede a Páscoa do Senhor. Na Páscoa celebramos a vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Nós cristãos, acreditamos que Jesus veio por parte de Deus e instaurou o Reino de justiça no mundo. Nós acreditamos que sua Palavra nos conduz para uma vida santa, digna e justa.

Tempo de conversão

Nossa vida é carregada de mazelas pessoais e que nos enchem de conceitos, vontades, vícios e tantas vezes mudamos a rota da felicidade. Aquela alegria que brota da Palavra de Deus e que nos chama para a conversão. 

Conversão é mudança de vida, é colocar-se de pé diante da luz divina que nos chama para sermos felizes na família, na comunidade de fé e na sociedade em comunhão com toda a natureza. Há uma relação que nos conduz para o bem maior. Jesus Cristo é o bem maior. Entender sua vida, compreender sua mensagem, se tornar amigo de Jesus é uma decisão acertada do ser humano. É um movimento que conduz para o bem viver e conviver consigo mesmo, com a natureza, com as pessoas e com Deus. Não somos seres isolados. Mesmo que a cultura atual esteja mergulhada em atitudes egoísticas, descambando para uma vida doentia e depressiva, mas essa não é a essência do ser humano.

Quaresma é uma chamada de atenção sobre essa postura de vida.

Biomas

Para facilitar o processo de mudança na vida e descobrir o que Deus espera e conta com todos os seres humanos, é preciso refletir sobre a nossa convivência com toda a natureza. O texto base da Campanha da Fraternidade desse Ano nos alerta: “Todos os anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apresenta a Campanha da Fraternidade como caminho de conversão quaresmal, como itinerário do cultivo e do cuidado comunitário e social. “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” é o tema da Campanha para a Quaresma em 2017. O lema é inspirado no texto do Livro do Gênesis 2,15: “Cuidar e guardar a criação”. A Campanha tem como objetivo geral: “Cuidar da criação, de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho”. (Texto Base, pág. 9).

Muitos se perguntam, porque misturar biomas com quaresma? A quaresma não é tempo de conversão, de penitência, de jejum, de oração e de esmola? Sim, é tudo isso e muito mais. Qual é o jejum que nos leva a conversão? Esmola, qual é o nosso olhar para o necessitado? É apenas para justificar perante Deus sua obrigação, mesmo com raiva e desprezo? E a oração? Como nos relacionamos com Deus e com a natureza, dom do Senhor e como cuidamos da nossa casa comum? É justo toxicar a terra, justificando que é para produzir alimentos? Quanto mais o agronegócio justifica suas práticas de uso de insumos para a alta produção, aumentam as mortes de fome e doenças em todas as suas espécies. É preciso refletir sobre tudo isso!

Converter é mudar de hábito e fazer com que a vida, dom de Deus, seja preservada de toda a ganância, roubos, sonegações e corrupções.

Temos quarenta dias para uma profunda reflexão cristã sobre a nossa convivência com a natureza. Ou preferimos soltar Barrabas e condenar Jesus? E se hoje, Jesus viesse do jeito como veio há mais de dois mil anos atrás? Provavelmente os capitalistas o chamariam de comunista, de agitador do povo. Seria condenado por um tribunal político, pois como hoje, não sendo do seu partido seria perseguido e condenado. 

Que cheguemos na festa da Páscoa com maior consciência e dever de cristão para humanizar as instituições civis e religiosas. Que a mensagem do Ano Mariano seja de amor, de justiça e coragem que nos une e nos traga segurança e liberdade.

 

 

 

Carnaval, a alegria simples e entusiasta dos pequenos

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ)

Todas as culturas humanas tem necessidade de espaços de festa, de alegria incontida e renovadas para resgatar o que Harvey Cox chamava de homem festivus ou lúdico (que brinca). Há algo digno de resgate, a capacidade de deslumbrar-se e imaginar da criança, a fantasia que explode num festival de cores, e ritmos inusitados. É verdade que a cultura carnavalesca apresenta também riscos e ocasiões que podem prejudicar a saúde física e espiritual. No entanto o abuso não tolhe o legítimo uso de pular e dançar com alegria como o Rei Davi e o próprio João Batista no ventre materno.

Como não apreciar o carnaval familiar de rua, ou de blocos tradicionais que irmanam a vizinhança e despertam a uma convivialidade muito densa. Mesmo nos desfiles e nos enredos das escolas de samba, quanta beleza e criatividade, homenageando pessoas e valores humanos e cristãos. Às vezes esquecemos que o pudor nasce no interior da pessoa, que se resguarda ou cuida o seu olhar libertando-se da malícia e da cobiça inspirada por desejos de posse agressivos e predatórios, esquecendo que a criação é boa, o que é contaminado e turvo reside na nossa forma de olhar.

Assim com a espontaneidade dos pequenos e dos simples muitos pulam e se divertem brincando e acolhendo aos outros com alegria e cordialidade. A roda de samba, as marchinhas e músicas cantadas no carnaval, que integram as pessoas, sendo envolventes e singelas, revelam de forma expressiva os sentimentos humanos e as cenas e poesia do cotidiano da vida. Jesus questionava a sua geração que se parecia àquelas crianças que não acompanhavam a brincadeira de seguir o líder, quanto era para chorar não choravam e quando era para rir não riam (Lc. 7,31); assim se comportam aqueles que por não gostar de brincar no carnaval julgam ou condenam os foliões.

Admiro aquelas pessoas que não se sentem atraídos pelo barulho ou pela festa , mas se sentem solidários com os que estão se divertindo, rezando por eles, oferecendo água para evitar a desidratação, e como bons anjos da guarda cuidando da integridade dos irmãos carnavalescos. O Reino anunciado por Jesus é apresentado como um banquete onde todos fazem festa, se deliciam e dançam, jovens e idosos; por isso ser cristão é transparecer a alegria, a plenitude e a inteireza da nossa vocação humana para todos (as). Em todo caso o que mais importa no carnaval é vestir como dizia São João Paulo II, na “Carta Novo Millenio Ineunte”, nº 50, a fantasia da caridade pensando e agindo solidariamente, partilhando nossos valores e nossa alegria sempre nova. Que Jesus a verdadeira alegria da humanidade nos ensine o caminho da felicidade e da realização plenas. Deus seja louvado!

Um só Senhor

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

Quem manda em sua vida? Qual é o senhor de sua existência? Perguntas desafiadoras e provocantes! De uma forma ou de outra as pessoas se submetem a poderes de plantão, nos diversos âmbitos da existência. Pode até acontecer que tantos se submetam ao domínio do “Rei Momo” nestes dias de Carnaval! Depois, o vazio total! Outros passam de mão em mão, deixando-se controlar pelos vícios, a moda, as novidades eletrônicas, ou o prazer que escraviza. A liberdade mal compreendida acaba gerando uma verdadeira horda de insatisfeitos, ainda que todos, sem exceção, tenham sido criados por Deus para a liberdade e para a felicidade. Verdadeira liberdade é a escolha de Deus como Senhor, com o consequente caminho de plena realização nesta vida e na eternidade.

O anúncio do Evangelho interfere nas decisões mais simples do dia a dia, como a administração dos bens e do tempo, a definição de prioridades no trabalho, a definição dos grupos com os quais as pessoas se comprometem, suas reações diante dos rumos da própria sociedade. A Palavra de Deus indica valores diferentes e mais consistentes, possibilitando serenidade e equilíbrio, mesmo nas situações de crises pessoais, familiares ou as mais amplas, como as encruzilhadas em que nos encontramos no tempo presente, que muitos chamam de uma radical mudança de época, mais do que uma época de mudanças.

O horizonte se abre esperançoso com uma palavra chave na pregação de Jesus, transmitida pelos Evangelhos (Mt 6, 24-34). Trata-se do “Reino de Deus”, ao qual o Senhor volta com insistência, enriquecendo seu ensinamento com uma série de parábolas, como a cercar com todas as luzes possíveis as opções a serem feitas no dia a dia. Sua linguagem é simples e objetiva, falando de roupas, alimentos, pássaros e flores, pois “a bom entendedor meia palavra basta”!

Neste final de semana, a Palavra de Deus repete, quase como um refrão, uma expressão provocante. Em alguns poucos versículos do Evangelho, seis vezes Jesus fala de preocupações! Ele entra de cheio na vida das pessoas que hoje podem ter dificuldades até com as coisas mais simples, pois falta o emprego ou o salário, e mesmo gente que teve segurança de cargos e posições se vê desamparada e até desesperada! Por outro lado, a aposta da vida no consumo e na segurança dos bens materiais conduz fatalmente ao desequilíbrio suscitado pelo egoísmo, a ganância e a voracidade com que alguns abocanham fortunas à custa da miséria dos outros. De perto ou de longe, todos estamos também envolvidos na rebatida crise do tempo presente

Pois bem, a todas estas pessoas, entre as quais nos incluímos em alguma medida, o Evangelho pede mudança nas escolhas de vida. Dedicar-se a Deus exige o abandono em suas mãos paternas e providenciais. Deus é compassivo e cuida da erva que floresce no campo ou dos pássaros do céu tem cuidado conosco, assegura Jesus. Ele quer fazer entendermos que só Deus é digno de nossa confiança total e abandono confiante em suas mãos seguras. É bom recordar outras advertências do Senhor sobre o perigo das riquezas buscadas por si mesmas (Cf. Lc 16, 19-30; Lc 17, 22-37; Lc 18, 24-27). O afã pelas coisas materiais nos faz perder o rumo e gera inquietação: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada com muitas coisas. No entanto, uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (Lc 10, 41-42).

“Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo. Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá sua própria preocupação! A cada dia basta o seu mal” (Mt 6, 33). A busca do Reino de Deus traz o justo equilíbrio, pois confiança na Providência não significa imobilidade e passividade. Antes, somos chamados à responsabilidade pessoal e uns com os outros.

Trabalhar com seriedade, cumprir os próprios deveres, tudo isso faz parte do cotidiano do cristão. Ao mesmo tempo, a Providência de Deus se manifesta na solidariedade recíproca praticada entre pessoas e grupos, quando aprendemos a olhar ao nosso redor, descobrindo o que podemos fazer concretamente pelos que passam dificuldades maiores. Cuidar dos problemas de cada dia (Cf. Mt 6, 34), não perder tempo, envolver-se na busca de soluções para os desafios sociais, tudo isso segundo as capacidades e cada pessoa, suscita num verdadeiro mutirão, em que a caridade vivida faz brotar estradas antes impensadas. E aqueles que podem contribuir na geração de empregos e postos de trabalho são insistentemente convocados a fazer a própria parte.

Se o Evangelho pede para não nos preocupamos, ele mesmo exige que nos ocupemos do que é bom e justo, trabalhando com nossas próprias mãos, aplicando nossa inteligência segundo os princípios e orientações da Igreja, cuidando de não sujar nossas mãos com a corrupção e a iniquidade. Trata-se de começar hoje a usar métodos diferentes, olhar com maior dignidade uns para os outros, praticar a justiça social no âmbito às vezes limitado de nossa ação, cuidar das relações de trabalho com quem depende de nós.

Cresça a consciência de que não podemos fugir da força com que o Evangelho nos provoca: “Ninguém pode servir a dois senhores: ou vai odiar o primeiro e amar o outro, ou aderir ao primeiro e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro!” (Mt 6, 24). Escolhemos Deus!