Conversão Ecológica

Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo (RS)

 

Toda Campanha da Fraternidade, situada dentro do tempo quaresmal da liturgia católica, tem por objetivo conhecer e aprofundar um tema, denunciar problemas graves vinculados ele. Porém, o mais importante, é provocar uma mudança de mentalidade e uma mudança de atitudes, isto é, uma conversão. 

Desde o pontificado do Papa Paulo VI (1963 -1978) até o de Francisco, o tema da ecologia é recorrente nos pronunciamentos papais. O Papa Francisco com a Carta Encíclica Laudato Sí: sobre o cuidado da casa comum (24/05/2015) disse claramente que o tema se insere na Doutrina Social da Igreja. Lamenta que “muitos esforços na busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustradas não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solução, mesmo entre os crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à confiança cega nas soluções técnicas”. (LS 14). 

O papa escrevendo aos católicos, mas também se dirige a todas as pessoas que quiserem se associar, lembra que o cuidado com a criação tem implicações com a fé e o modo de viver cristão. É uma questão de moral social que implica em responsabilidade, seja por atitudes destrutivas ou por omissões. 

Muito importante é a reflexão desenvolvida por Francisco no capítulo VI, da Laudato Sí, que traz o título “Educação e espiritualidade ecológicas”. O foco é suscitar a conversão ecológica na certeza que não bastam somente soluções técnicas. Formar a consciência para desenvolver novas convicções, atitudes e estilos de vida. 

Como ponto de partida aponta para um outro estilo de vida que não seja o consumista. “O consumismo obsessivo é o reflexo subjetivo do paradigma tecno-econômico” (LS 203). O consumismo compulsivo, além de gerar danos para a saúde, gera desperdício e necessita avançar sobre os recursos naturais. Um estilo de vida sóbrio manifesta a preocupação com as gerações futuras. É alegrar-se com o necessário. A sobriedade, vivida livre e conscientemente, é libertadora. Trata-se da convicção de que “quanto menos, tanto mais”. O papa Bento XVI disse que: “Comprar é sempre um ato moral, para além de econômico”. Cada compra não é uma simples transação econômica, mas tem implicações de corresponsabilidade. Comprar de quem degrada o bioma é ajuda-lo a manter a sua prática destrutiva. 

Educar para a aliança entre a humanidade e o ambiente. O desafio de educar é grande, ainda mais um educar que leve a mudar hábitos, e não apenas ofereça informações. Os seres humanos não vivem competindo com a natureza, mas são aliados. Recuperar a aliança consigo mesmo, a solidariedade com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus.  “A educação ambiental deveria predispor-nos a para dar este salto para o Mistério, do qual a ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo” (LS 210). É a valorização das pequenas atitudes que são o princípio das grandes mudanças. 

 

Resgate de credibilidade

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte 

A crise de credibilidade que impacta diferentes instituições na sociedade contemporânea exige a participação de todos na busca por soluções – de igrejas a pequenos produtores, incluindo, obviamente, grandes empresários e os três poderes da República. A credibilidade é um importante bem em todas as instituições.  A Igreja Católica, por exemplo, deve continuamente aprimorar seus serviços religiosos, sociais e educativos, primando pela credibilidade. O compromisso principal da Igreja é, em todas as ações, proclamar a Palavra de Deus, fonte perene de valores, dos parâmetros éticos e morais que devem guiar todos os trabalhos. Nessa missão, cada pessoa que se dedica aos muitos serviços da Igreja deve se empenhar para aperfeiçoar processos e procedimentos e, assim, continuamente, qualificar o trabalho prestado ao Povo de Deus. Assim é possível contribuir para que muitos cultivem a fé e colaborem, decisivamente, na construção de uma sociedade mais justa. 

Sem credibilidade, a Igreja não pode desempenhar a sua missão. E do mesmo modo, as diferentes instituições precisam da credibilidade, ou vão amargar prejuízos. Caso exemplar e recente é a crise no mercado a partir das denúncias da Operação Carne Fraca. Estabeleceu-se um clima de insegurança que afetou negativamente esse setor com reflexo nos indicadores da economia brasileira. Prova de que a credibilidade é mesmo um bem precioso. Quando perdido, compromete os resultados e os serviços prestados. Por isso, sublinha-se a responsabilidade cidadã, nas diferentes atividades, de sempre cultivar e preservar esse bem. 

Instituições e segmentos diversos pagarão caro toda vez que seus representantes agirem fora dos parâmetros da honestidade, transparência e do altruísmo. E para recuperar a credibilidade, é preciso percorrer um longo caminho. Por isso, cada pessoa deve ser verdadeira no que faz e fala.  Não se avançará sem o “ouro” da credibilidade. Conquistá-la e fortalecê-la deve ser a meta de todos. Isso implica agir com lisura nos mais diferentes processos. Um compromisso de primeira grandeza.

Há de se despertar o gosto pelos parâmetros que sustentam a credibilidade. Quem é verdadeiro e honesto abre mão de privilégios. Esse é que deve assumir a linha de frente. Como Diógenes, com a lanterna na mão, precisa inspirar todos a cultivar esse valor. Importante nesse caminho é superar um péssimo hábito que contamina o tecido da cultura: considerar elogiável quem consegue o que quer valendo-se de trapaças e mentiras. 

Assim, todos são convocados para uma autoavaliação com o objetivo de identificar atitudes que ameacem a credibilidade das instituições. Essa é uma tarefa inadiável para renovar o fundamento da cultura. Agir com seriedade é condição para que a sociedade alcance o patamar que já deveria ter conquistado. Nas mãos de cada um está a chance de renovar as instituições. Para isso, todos se empenhem no resgate desse importante bem.

 

Conversão e amor pela vida

Dom José Gislon
Bispo Diocesano de Erexim (RS) 

Estimados Diocesanos! Estamos vivendo o tempo da Quaresma, e a Palavra de Deus faz um convite para percorrermos um caminho de conversão a partir do nosso coração. A conversão, no caminho da fé, indica sempre para a aurora de um novo dia. Ela dissipa as sombras de morte que envolvem o nosso coração e comprometem a nossa caminhada de filhos e filhas de Deus, mas também de comunidade, que através do trabalho e da solidariedade, se empenha para construir uma sociedade, na qual os valores que protegem a vida e o bem comum sejam transmitidos e valorizados. Ela renova não somente a nossa vida interior e a comunhão com Deus, mas também com as pessoas que amamos, que fazem parte da nossa vida na família e na comunidade. Ela nos dá a oportunidade de mantermos viva a esperança no amor, na vida e no amanhã, mesmo quando vemos tantos sinais de morte ao nosso redor. 

O caminho da conversão passa pelo coração. Para alguns, talvez, esse seja a percurso mais difícil, porque exige descer ao mais profundo do próprio “eu”, e, ali, faz deparar com as pedras da indiferença, do egoísmo, da autossuficiência, da falta de amor e da caridade, que foram se acumulando ao longo do tempo e acabaram bloqueando a porta de entrada do coração. Tornaram-no um sepulcro de morte, ao invés de um lugar aberto para acolher a graça de Deus e sua Palavra que alimentam a vida. 

Quando deixamos de acreditar na misericórdia de Deus, deixamos de crer no poder do amor, do perdão e da reconciliação; perdemos a confiança na capacidade de recomeçar a nossa vida e de que a luz do Senhor pode iluminar também o nosso coração. Com a sua presença, podemos não só afastar as pedras que bloqueiam a porta de entrada, mas também abri-la para manifestarmos ao mundo o amor a Deus e ao próximo através das nossas ações.

Um coração aberto à conversão tem sensibilidade para acolher a Palavra de Deus é também aberto à vida, ao amor, ao cuidado da pessoa amada, sem fechar os olhos às realidades do mundo que ferem a vida de tantas pessoas e da mãe natureza. É capaz de manifestar o amor e o cuidado da vida através de pequenos gestos que revelam a nobreza escondida no silêncio do coração.

Tende todos um bom domingo.

 

Por que a Páscoa não tem data fixa?

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo de Juiz de Fora

 

Ao chegar a Páscoa, muitos se perguntam: em que dia cairá? Por que não há uma data fixa?

Sabemos que a Páscoa cristã se celebra sempre num domingo, mas a cada ano variam-se as semanas e, às vezes, o mês. Entre os católicos, costumeiramente se diz que não há Páscoa antes de São José (19 de março) nem depois de São Marcos (25 de abril). 

As expressões “Páscoa baixa”, “Páscoa média” e “ Páscoa alta” estão relacionadas a esta movimentação da maior das efemérides cristãs que transita entre as últimas semanas de março e a última de abril. 

Para se calcular a data da Páscoa, quando se celebra a jubilosa Ressurreição do Senhor, são importantes duas referências: a história do povo de Israel e a ciência da astronomia. Na verdade, as duas coisas andam juntas. Na Páscoa judaica (Pessah, na língua hebraica), recorda-se a passagem da noite em que povo hebreu ficou livre da escravidão do Egito, depois de uma série de inequívocas intervenções de Deus, primeiro com pragas enviadas ao Faraó opressor, e uma sequência de bênçãos prodigiosas, como a passagem do Anjo Exterminador, a travessia do Mar Vermelho, o Maná do Deserto, as codornizes, a água que brotou da rocha e outros sinais. Tal libertação se deu no primeiro plenilúnio após o equinócio da primavera do hemisfério norte, que acontece entre os dias 19 a 21 de março. 

A morte de Cristo também se deu numa sexta-feira, antes da festa da Páscoa do povo hebreu, repousando na penumbra do sepulcro no Shabat (sábado) e ressuscitando na manhã clara do primeiro dia da semana, que os cristãos desde então chamam de Domingo, ou seja, Dies Domini (Dia do Senhor).

O equinócio é um fenômeno natural constatado pela astronomia, quando o sol, pela sua posição em relação à Terra e à Lua, emite seus raios de forma exatamente perpendicular à linha do equador, ocorrendo então a equiparação das horas do dia e da noite, tendo cada um pontualmente 12 horas. O termo ‘equinócio’ tem origem na língua latina: aequus (igual) e nox (noite). No ano há dois equinócios: o de março, entre os dias 19 e 21, que dá início a estação da primavera no hemisfério norte e outono, no hemisfério sul; e o de setembro, entre os dias 20 e 23, que estabelece o início das novas estações nos dois hemisférios, de forma inversa à anterior.

Pelos estudos cronológicos, a data fixa da morte de Cristo teria sido, mais ou menos, no dia correspondente ao 3 de abril do nosso calendário atual. A imprecisão se verifica, porque nossos calendários não conseguem ser matematicamente exatos, por haver certa discordância entre a forma de contar os dias e a realidade da incidência da luz proveniente dos astros. Vejamos que o ano não tem exatamente 365 dias, mas se compõe ainda de algumas horas, minutos e segundos (365d 5h 48m 46s). É necessário também levar em consideração o desenvolvimento da astronomia e da cronologia na história. Em vários momentos foi necessário haver medidas para acertar e corrigir distorções na organização do tempo. Por exemplo, nos tempos modernos, no ano de 1582, o Papa Gregório XIII, orientado por estudiosos da astronomia, determinou a eliminação de 10 dias no calendário, exatamente de 5 a 14 de outubro, pois havia desencontro entre a realidade solar e a contagem dos dias no ano. Isto veio também ajustar a data da Páscoa. Por causa desta louvável iniciativa do Papa mencionado, o calendário que se usa hoje se chama Calendário Gregoriano.

Vejamos, portanto, que não há Páscoa sem lua cheia e nem sem mudança de estação. Na Páscoa tudo se renova, tudo revive, tudo se ilumina da forma mais exuberante possível, pois, segundo a fé dos judeus e a dos cristãos, assim é que se revela a grande misericórdia de Deus que não quer a morte do pecador, nem a escravidão da criatura humana nas trevas do erro e da ilusão, mas quer que ele viva, e seja feliz.

A Páscoa preside todo o calendário litúrgico cristão, estando as festas móveis sujeitas à data da Páscoa, como, por exemplo, a 4ª feira de Cinzas, que dá início à quaresma quarenta dias antes da celebração pascal, além das festas posteriores à Páscoa, como Pentecostes, Corpus Christi e outras celebrações móveis.

 

 

 

 

 

Abrir as sepulturas

Dom José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG)

 

Dar vida é a missão de todo ser humano, se quiser encontrar a razão de ser da própria existência. Destruir os mecanismos de morte faz o ser humano habitar o planeta com dignidade, justiça e paz. Minorias pensam e agem ao contrário disso, imaginando que somente o próprio benefício é que vai realizá-las, mesmo tendo, para isso, que derrubar os outros com toda sorte de meios lícitos e ilícitos. Guerras, assassinatos, roubos, acúmulo de bens materiais, científicos e culturais em bem de minorias acontecem no orbe através das gerações. Estragam-se os biomas, devastam-se matas ciliares com a sede insaciável de produção de riquezas para minorias, que destroem para isso as fontes de água, de vida e de melhores ambientes naturais que seriam de benefício para todos.  Mineradoras poluem o solo e os ambientes sociais, tiram riquezas, pagam pouquíssimos tributos, produzem desvantagens sociais e doenças para moradores vicinais de seus empreendimentos insalubres.

Deus comunica ao ser humano sua vontade e seu projeto de dar vida e superar tudo o que fixa o ser humano em suas sepulturas egoístas e incapazes de lutar por um ideal de fraternidade: “Vou abrir  as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel… Porei em vós o meu espírito, para que vivais” (Ezequiel 37,12.14). É preciso deixar o projeto divino agir em nós e em toda a sociedade. Todos somos responsáveis pelo cuidado com o planeta, o respeito ao meio ambiente e o desenvolvimento das pessoas e dos povos. Precisamos ter visão ampla da vida, que nos faça sair do sepulcro fechado de nosso egoísmo.

Neste tempo quaresmal somos instados a refletir e reavaliar sobre como vivemos… qual o sentido que damos à vida… como usamos nossa inteligência e todos os nossos talentos, que foram dados sem nosso mérito para o serviço à vida, ao cuidado com o planeta, à promoção dos que estão enclausurados em seus limites de pobreza, miséria e inclusão social!

O apóstolo Paulo faz a comparação dos que vivem conforme a carne ou o egoísmo e os que vivem segundo o Espírito ou o amor de Deus (Cf. Romanos 8,8-11). No primeiro caso, as pessoas vivem segundo os ditames dos instintos e da matéria, colocando sua finalidade de vida no que é transitório. No outro, vive-se no amor a Deus, explicitado na doação de si, no sair de si e ir ao encontro das necessidades do semelhante. É como sair da própria sepultura e ter a vida nova de quem encontra em Deus sua força para agir na solidariedade com o próximo.

Jesus fez Lázaro sair da sepultura para novamente ter a vida reestabelecida, para cumprir sua total missão na terra (Cf. João 11,1-45). Muitos morrem antes da hora, seja física, seja moralmente. Precisamos tirar as causas dessas mortes, para darmos condição a que todos cumpram sua missão no ciclo total de vida terrena e deem de si para a promoção da vida, conforme lhes incumbe o Criador. O próprio Filho de Deus veio “para dar vida em plenitude a todos”! Ele mesmo prova que tem poder para sair do sepulcro depois de o terem matado em sua natureza humana. Como Ele tem também a natureza divina, ressuscitou, fazendo a Páscoa, ou passagem da morte para a vida! Por isso, ninguém perde se O seguir, também dando de si pela regeneração da vida humana no orbe.