Por uma cultura do trabalho decente, justa e solidária

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ)

Ao celebrarmos o dia dos trabalhadores evocando a luta heróica pela jornada das 8 horas acontecida em Chicago,  no 1º de maio de 1886 , quando por um atentado simulado, a justiça executou 4 operários condenados sem o devido processo legal; nos deparamos que conquistas alcançadas com o suor e sangue de irmãos do povo simples e trabalhador estão a perigo de desaparecer.

Nunca se viu desde 1943 quando se consolidou a legislação que protege e tutela os direitos do trabalho, um ataque tão virulento e sistemático, que com a promessa de uma flexibilização  que poderia ampliar os postos de trabalho, se impõe sem escrúpulos a agenda neoliberal, do fim da segurança, empregabilidade e os princípios mais claros da justiça trabalhista qual sejam: a prioridade do trabalho sobre o capital, a irrenunciabilidade dos direitos sociais, e a tutela do mais fraco diante da desigualdade imposta pelo dinheiro.

Criam-se as figuras do trabalho intermitente, part time, horista, terceirizado, sem vínculos nem proteção, deixando a negociação por si dessimétrica a cargo do consenso das partes. Quebra-se o pacto social e civilizatório que mantinha um marco regulatório que servia ao bem comum,  uma vez que colocava limites a torpe ganância e ao lucro predador.

A doutrina social da Igreja pensada a partir do Evangelho é como sempre inequívoca,  é clara nas suas opções e princípios: o trabalho deve ter um salário digno que permita sustentar a família e ter aceso a propriedade, participação nos rendimentos e nas decisões, lembrando o destino universal dos bens e a função social que hipoteca e onera todo empreendimento financeiro e econômico. É verdadeiramente míope trazer de volta o capitalismo selvagem, pois  se reduz o mercado interno e se inviabiliza o verdadeiro desenvolvimento humano, integral, solidário e sustentável.

As reformas que estão em pauta não são um salto para o futuro, mas um regresso aos piores tempos da exploração quando o “exército de reserva dos desempregados” baixava os salários e as condições do trabalho, ao nível cruel da sobrevivência e da total precariedade. A competitividade destrutiva e predatória não promove pessoas e não gera uma civilização do trabalho responsável, eficiente e verdadeiramente criativa. Deus seja louvado!

 

 

 

São Jorge

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

 

A nossa fé nos ensina que somente Deus é Santo. Na Bíblia, “santo” significa, literalmente, “separado”. Deus é aquele que é separado, absolutamente diferente de tudo quanto exista no céu e na terra: Ele é único, Ele é absoluto, Ele sozinho se basta, sozinho é pleno, sozinho é infinitamente feliz. Ele é Deus! Por isso, Santo, em sentido absoluto, é somente o Deus uno e trino, Pai, Filho e Espírito Santo. A Jesus, o Filho eterno feito homem, nós proclamamos em cada missa: “Só vós sois o Santo”; ao Pai nós dizemos: “Na verdade, ó Pai, vós sois Santo e fonte de toda santidade”.

Todos são chamados a essa vida divina que Deus quer partilhar conosco, todos são chamados à santidade! “Trajavam vestes brancas e traziam palmas nas mãos. São os que vieram da grande tribulação e lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro”. Eis quem são os santos: aqueles que atravessaram as lutas desta vida, as tribulações desta nossa pobre existência, unidos a Cristo; são os que venceram em Cristo – por isso trazem a palma da vitória; são os que não tiveram medo de viver e, se caíram, se erraram, foram, humildemente, lavando e alvejando suas vestes no sangue precioso de Cristo: são santos não com sua própria santidade, mas com a santidade do Cristo-Deus. Ninguém é santo com suas forças, ninguém é santo por sua própria santidade: só em Cristo somos santificados, pois somente Cristo derrama sobre nós o Espírito de santidade. O nosso único trabalho é buscar acolher esse Espírito, deixando-nos guiar por Ele e por Ele sermos transfigurados em Cristo!

Nesta semana, coincidindo com o grande Domingo da Misericórdia, muitos foram às Igrejas de São Jorge para comemorar um santo muito conhecido no Rio de Janeiro. No dia 23 de abril, temos a graça de celebrar a vida desse grande santo: São Jorge. Nesse dia, em que milhares de pessoas se deslocaram até as igrejas e capelas de São Jorge para manifestar seu carinho e a busca de ver nesse homem de Deus um grande exemplo de vida e um intercessor junto a Deus, contemplemos a todos com os olhos da fé e oremos para que todos busquem a vida nova em Cristo. Todo santo é um grande testemunho do seguimento de Cristo. Baseados em textos tradicionais, livros e virtuais da internet, reflitamos sobre a vida desse homem de Deus.

São Jorge, com grande coragem, foi um grande defensor da fé em Jesus Cristo como Senhor e salvador dos homens. Indagado por um cônsul sobre a origem desta ousadia, Jorge prontamente respondeu-lhe que era por causa da verdade. O tal cônsul, não satisfeito, quis saber: “o que é a verdade”? Jorge respondeu: “A verdade é meu Senhor Jesus Cristo, a quem vós perseguis, e eu sou servo de meu redentor Jesus Cristo, e n’Ele confiado me pus no meio de vós para dar testemunho da Verdade.” Como Jorge mantinha-se fiel a Jesus, o Imperador tentou fazê-lo desistir da fé torturando-o de vários modos. E, após cada tortura, era levado perante o Imperador, que lhe perguntava se renegaria a Jesus para adorar os ídolos.

A fé deste servo de Deus era tamanha que muitas pessoas passaram a crer em Jesus e confessá-lo como Senhor por intermédio da pregação do jovem soldado romano. Durante seu martírio, Jorge mostrou-se tão confiante em Cristo Jesus e na obra redentora da cruz, que a própria Imperatriz alcançou a Graça da salvação eterna, ao entregar sua vida ao Senhor. Seu testemunho de fidelidade e amor a Deus arrebatou uma geração de incrédulos e idólatras romanos. Por fim, Diocleciano mandou degolar o jovem e fiel discípulo de Jesus em 23 de abril de 303.

Logo, a devoção a “São” Jorge tornou-se popular. Celebrações e petições a imagens que o representavam se espalharam pelo Oriente e, depois das Cruzadas, tiveram grande entrada no Ocidente.

O início de sua popularidade ocorreu no auge da perseguição aos cristãos pelo imperador romano Diocleciano (final do século III), quando o ousado guerreiro passou a defender com muita fé o cristianismo. A imagem de São Jorge é representada por um jovem vestido com uma armadura, sentado em um cavalo branco com uma lança atravessando o dragão, representação medieval, onde o santo é imortalizado no conto em que mata um dragão.

São Jorge, cristão, é santo da Igreja Católica, e tem um apreço de inúmeras pessoas e grupos que o têm em grande consideração. São Jorge é patrono da Inglaterra, Portugal, Geórgia, Catalunha, Aragão, Lituânia, da cidade de Moscou e de muitos outros locais e entidades. Muito venerado em outros lugares, inclusive em todo o nosso Estado. Seu culto na Igreja, mesmo com poucos dados históricos, e mesmo com as dificuldades encontradas na comprovação das atas de seu sofrimento, remonta ao século V, e com as “Cruzadas”, através da “legenda dourada”, o fizeram popular no Ocidente.

Ao olhar para São Jorge, possamos, a exemplo dele, lutar contra o mal para sermos vencedores nesta batalha contra os questionamentos da nossa fé. Que com a mesma coragem professemos nossa fé neste tempo de tantas questões e problemas, e que, com o coração aberto, vivamos como irmãos e irmãs que em Cristo se amam. E que, pela intercessão de São Jorge, recaiam sobre as nossas vidas muitas bênçãos de Deus!

 

 

Dia do índio

Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá – PA

Na comemoração ao dia do índio, 19 de abril, uma equipe de pessoas da Diocese de Marabá, juntamente com o bispo diocesano Dom Vital Corbellini marcou presença no encontro das aldeias da região Sul do Pará na aldeia Sororó, onde habitam os índios Suruí para um momento de oração e de espiritualidade. Na ocasião reuniram-se diversas representações de aldeias indígenas da região para jogos diversos, danças, e a comemoração do dia do índio. Segundo as estatísticas vivem em nossa região cerca de três mil índios e índias.

O encontro valeu também como um dia de reflexão sobre o dia do índio como pessoa e como povo que se organiza para ter a sua presença na vida com a natureza e com a sociedade. O Bispo marcou presença para um conhecimento melhor dos povos indígenas em nossa região e pedindo as bençãos de Deus sobre todos os povos indígenas, fazendo orações, para esses povos que sofrem as agressões de suas terras pelos grandes, empresas que cobiçam as suas terras, falta de demarcação de suas terras, descasos sobre a sua saúde, lixo que é colocado pelas pessoas em suas terras, comida muitas vezes já petrificada e outras agressões. É preciso unir-se a estes povos sofridos dos quais merecem a atenção. Estamos na CF 2017 que fala dos biomas, a biodiversidade das coisas da natureza e de povos que vivem nas florestas, que são os indígenas das quais vivem de seu sustento. A Igreja marca presença para evangelizar, anunciando o Senhor Jesus Cristo, e também é evangelizada pelos índios e as índias no sentido do desprendimento, da acolhida por aquelas pessoas, da forma de viver o sentido da comunidade, a relação de respeito com a natureza, o alimento como a batata doce, a macaxeira, a cação para a sobrevivência, a relação com o Deus criador. Foi um momento muito importante junto aos povos indígenas que merecem a nossa atenção como Igreja, povo de Deus, unidos a Jesus Cristo e ao seu Reino. Nós precisamos nos aproximar sempre mais dos povos indígenas para que a sua identidade não se perca, de modo que vivam a alegria de serem índios no respeito à natureza e no amor a Deus, ao próximo como a si mesmo.

 

Sínodo sobre os Jovens

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

A Igreja Católica se prepara para a XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, cujo tema a ser tratado será: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.   Espera-se que este Sínodo chegue a um consenso, o qual contenha medidas visando a orientá-los no discernimento sobre sua fé e sobre perspectivas para seu futuro. Que o acompanhamento eclesiástico ajude-os na escolha certa, alcançando, assim, a felicidade em tudo aquilo que fizerem de acordo com a vontade de Deus, para ajuda ao próximo, em busca de uma sociedade melhor. Que as decisões tomadas nesse Sínodo auxiliem os jovens a discernir de que forma é possível uma vida toda de serviço ao outro, uma vez que nisso consiste a vida cristã.

Vocação, do latim vocare, significa chamar. Cada pessoa recebe esse chamado de Deus em um momento específico de sua vida. Não se conhece esse momento. Para alguns ele é logo na infância, mas para outros é já na maturidade. Não existem fórmulas onde estão escritos os procedimentos necessários para se descobrir a vocação que Deus determinou a cada um; justamente por isso muitos sentem dificuldades em descobri-la sozinhos. Porém, um caminho de oração e acompanhamento ajuda no esclarecimento dessa dúvida que permeia a juventude. O objetivo do Santo Padre, o Papa Francisco, ao convocar esse Sínodo, é encontrar uma maneira para que os jovens tenham cada vez mais conhecimento sobre a vida na Igreja e da Igreja, que tenham força, vontade e coragem de seguir o chamado de Deus, mesmo nesse momento do mundo muitas vezes tão hostil, agressivo e desumano.

São Francisco de Assis, após sentir o chamado de Deus, rezava uma pequena oração diante do Crucifixo de São Damião, na qual ele dizia: “Ó glorioso Deus altíssimo, iluminai as trevas do meu coração, concedei-me uma fé verdadeira, uma esperança firme e um amor perfeito. Dai-me, Senhor, o reto sentir e conhecer, a fim de que eu possa cumprir o sagrado encargo que na verdade acabais de dar-me. Amém”. Esta simples e singela oração mostra a inteira entrega desse santo à vontade de Deus. A exemplo de São Francisco, somos também convocados a seguir a Cristo e servir aos irmãos em nossa vocação, nos entregando inteiramente na missão que nosso Deus nos incumbiu.

Podemos observar ao nosso redor, no dia-a-dia, que as pessoas estão sempre sem tempo, correndo, esquecendo os verdadeiros valores. Valores estes que, diariamente, são substituídos pelos que destroem a família, a vida, a bioética, a moral e a ética. Mas, o que isso tem a ver com vocação? Todo cristão católico é chamado a ser missionário no ambiente em que vive. Seja no trabalho, na escola, na família, onde for. É necessário um testemunho de vida para as pessoas. “Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras” dizia o já citado São Francisco. Todos também são convocados a denunciar as mazelas e injustiças do mundo, lutando para que a verdade seja soberana e que a dignidade de todos seja garantida.

A era da tecnologia e informação tem, sem dúvida, ajudado muito as pessoas na atualidade, contudo ela também tem afastado as pessoas e dissipado o individualismo. O sociólogo polonês Zymount Bauman, em sua obra “Modernidade Liquida”, aborda exatamente esse afrouxamento dos laços interpessoais. A tecnologia, com seu desenvolvimento, tem cada vez mais atraído as pessoas. Essa atração é perigosa, uma vez que pode ser sadia se for moderada, mas caso não seja policiada pode tornar-se um vício. Um relato de um pai que está circulando na internet diz que, durante a infância de sua filha, ela estava descobrindo o mundo e suas belezas. Sempre que conseguia fazer alguma coisa nova chamava o pai, para que ele pudesse ver. Porém, ele nunca tinha tempo. Um dia, ela se posicionou embaixo do celular do pai e disse que aquele era o único modo de ele olhar para ela, estando atrás do celular em que o pai estava digitando. Precisa-se de um policiamento coletivo, visando à prevenção, para que não seja necessário chegar a tal ponto.

Para se realizar as missões anexas a cada vocação, é necessária a fé, o outro ponto tratado no Sínodo. “Sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11,6), e partindo desse princípio, possui-se plena convicção que esse Dom de Deus é essencial para nossa vida. A fé que professamos não pode ser vivida apenas no momento da Santa Missa. Como é triste ver que muitos passam da porta da Igreja depois da missa e parece que não entenderam nada da mensagem de Deus! Uma pequena estorinha de autor desconhecido diz que um padre certa vez percebeu que uma criança sempre ouvia sua homilia tampando um dos ouvidos com uma mão. Curioso, o padre, após a missa, foi até a criança e perguntou-lhe o porquê do gesto. A criança respondeu que durante toda a semana os seus pais brigavam, e sempre um deles dizia ao que estava errado que tudo o que foi dito na homilia entrou por um ouvido e saiu pelo outro, como diz no ditado popular, e por conta disso ela tampava o ouvido para que tudo o que fosse dito não conseguisse sair. Esta deve ser a nossa atitude. Esta criança da estória, em sua ingenuidade, nos mostra de uma forma bem impactante uma realidade que muitas vezes nem se percebe fazer parte. Temos que buscar sempre um maior aprofundamento de nossa fé. Assim como um carro necessita do combustível para se manter em movimento, é necessária a fé para manter o homem em seu propósito.

O Sínodo tratará desse assunto que é muito pertinente na Santa Igreja Católica. Faz parte dos assuntos que realmente precisam ser debatidos, pois os jovens estão inseridos em uma sociedade que lhes fornece respostas erradas, nas quais os principais valores de sua fé são tidos como sem importância e ultrapassados, e valores como a cultura da violência e da morte são tidos como positivos e naturais.  Os bispos, que serão eleitos pelas Conferências Episcopais para representá-las no Sínodo dos Jovens, reunidos terão a árdua tarefa de debater e encontrar soluções para estas problemáticas apresentadas. Convivendo e evangelizando os jovens, os Bispos deverão procurar escutar seus jovens para sentir as suas angústias e pavimentar esperanças para a sua devida evangelização. É de extrema importância toda a oração do povo de Deus para que, através desse clamor, seus pastores, guiados pelo Espírito Santo, consigam as respostas.

Que o próximo Sínodo sobre os Jovens nos ajude a transmitir a nossa fé e testemunhar o Ressuscitado, que está no meio de nós!

 

 

Orar em ritmo pascal

Dom Messias dos Reis Silveira
Bispo de Uruaçu (GO)

 

Estamos no embalo do tempo pascal. Um sentimento de Páscoa deve ser vivido diariamente por todos que nos dirigimos à Galiléia para encontrar Jesus. O tempo pascal nos recoloca nos caminhos do Senhor Ressuscitado. O Ressuscitado nos lembra o processo de libertação da vida. Ele traz no seu corpo as marcas da paixão. Para chegar à glória da ressurreição Jesus foi entregando a sua vida com confiança. Teve encontros libertadores com as pessoas. Falou de vida nova, reintegrou muita gente na sociedade, reconstruiu a vida. No final da sua missão nos presenteou com a  Eucaristia e o sacerdócio.

Após a sua morte o Pai o ressuscitou. Ele foi se manifestando aos discípulos e a Igreja foi surgindo fortalecida pelo Espírito.

Na ressurreição, não apenas o túmulo abriu-se, mas o morto que estava dentro dele viveu e veio para fora.  Creio que na noite da vigília pascal cada pessoa quis e até conseguiu abrir o túmulo da sua vida. Que bom que isso aconteceu. Mas, é preciso vir para fora.

O ser humano tem o costume de  fabricar o seu próprio túmulo; cria as paredes que escondem o seu egoísmo, o seu orgulho, os seus vícios, a sua injustiça, os seus maus tratos, os seus ressentimentos. Há sempre uma tendência em querer  ser sepultado a cada dia. É até mais cômodo estar sepultado, pois assim a visão do mundo fica encurtada. Este sepultamento é também chamado de alienação, de comodismo ou de fuga.

A Páscoa abriu o túmulo. Mas abrir o túmulo é muito pouco. Abrir sem renovar ou ressuscitar o que está dentro causa medo, nojo ou repulsa. É importante não apenas abrir e sair, mas sair ressuscitado, ou seja com novas esperanças. Ressurreição é processo contínuo na vida. Há sempre um desejo de voltar atrás. Há uma certa saudade da escravidão do pecado, dos vícios e da vida anterior. Não podemos ficar parados. Nascemos no caminho da ressurreição.

Para manter o processo de ressurreição é preciso orar em ritmo pascal. Orar é respirar na graça. Orar em ritmo pascal é estar sempre cuidando das feridas que emergem no processo de viver, é curar o relacionamento com Deus, com as pessoas, com a natureza e consigo mesmo. Orar  em ritmo pascal é permitir ser presenteado com os sentimentos de Deus.

Orar sempre e de maneira pascal tende nos levar a viver com o coração em festa; se é bem verdade que somos caminhantes e experimentamos a dor, o pecado  e a morte, também é certo que em Cristo vencemos tudo e seu amor há de durar sempre.

Até mesmo quando a dor, o cansaço, a tristeza, o pecado quiser desanimá-lo não pare de olhar, de confiar, de esperar. Continue buscando o Senhor, pois o encontro consolador virá. Santo Agostinho disse em forma orante: “Se quando tu me buscavas eu te fugia, agora que te busco como não vai acontecer o encontro?”

O tempo pascal é propício para orar na presença do Senhor ressuscitado que torna o homem novo. Não deixe de orar em ritmo pascal.

 

 

 

 

Espiritualidade para ressuscitados

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ)

O tempo Pascal desenvolve em nós um novo olhar, uma experiência de plenitude e a mística do encantamento com as pessoas, a criação e todos os seres. Viver como ressuscitados se expressa numa espiritualidade transbordante que em tudo respira a experiência do Cristo vivo e testemunha a sua presença.

Espiritualidade dinâmica e decidida que gera ações, gestos e atitudes que promovem a vida e o amor. Entusiasmo e alegria do encontro que nos torna servidores e pastores compassivos, jardineiros da terra.

Anúncio Pascal que nos impulsiona a comunicar e traduzir em novos relacionamentos  e estruturas a vitória do Ressuscitado, comunidade missionária e apostólica que sai a partilhar a feliz notícia com propósito e ardor contagiante. O Aleluia vibrante que, como hino dos renascidos, anima o louvor e o exultante cântico de pessoas libertas e redimidas. O medo e o desânimo ficaram para trás, o velho fermento da corrupção e do triste egoísmo sucumbiram diante da beleza e do fulgor da vida nova de cosangüíneos e coressuscitados em Cristo.

Como Pedro e João, na Porta Formosa, constatamos o poder que a Páscoa de Jesus opera através de nossas humildes e pequenas pessoas no soerguimento daqueles que estão à margem da vida, doentes e oprimidos. Espiritualidade do cuidado delicado e terno para com a Criação e os biomas, da defesa da integridade do planeta e da comunhão com todos os seres.  Força inspiradora que torna novas todas as coisas, devolvendo a cor, a consistência e robustez aos mais diversos setores da atividade humana que foram reduzidos à lama ou a escárnio como a política, a economia e a administração, junto a outras dimensões da vida pública.

Paz que ressurge como dom e presente do Redentor e que consegue revigorar e despertar o sonho da conversão das espadas em instrumentos de trabalho, das prisões em escolas, da doença e da fome, no banquete da vida, da mesa fraterna e da convivência cordial de todas as Nações, povos e raças. Que Maria Santíssima, a Mãe da vida e da esperança, nos conceda ser como ela, irradiadores e acendedores da alegria Pascal em todos os ambientes e situações. Deus seja louvado!

 

Reconhecer o caminhante

Dom José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG)

 

Após a ressurreição Jesus se mostra a muitas testemunhas e lhes deu a missão de anunciar a todos sobre quem Ele é e seus ensinamentos. Não bastaria dizer sobre seus milagres. É preciso dar fé à sua natureza divina, além da humana, para não  segui-lo só por interesses ou busca de soluções de ordem sensível e passageira. Sua pessoa veio nos garantir a recompensa se vivermos segundo seus ensinamentos.  Pedro lembra que seremos recompensados de acordo com o que praticamos nesta vida (Cf. 1 Pedro 1,17). Fazendo o “dever de casa” aqui na terra, temos a certeza de que Ele nos dará o prêmio de eternidade feliz.

A caminho de Emaús dois discípulos foram alcançados por um homem, sem eles perceberem que era o próprio Jesus ressuscitado. Qual não foi sua surpresa quando tomava refeição com eles, no lugar para onde se dirigiram. O Mestre abençoou o pão como na última ceia. Abriram-se-lhes os olhos! (Cf. Lucas 24,13-35). Reconheceram quem era  o caminhante com eles!

Nos passos da vida convivemos com muitas pessoas. Às vezes não sabemos quem são. Às vezes são pessoas santas, que podem nos ajudar a santificar-nos também. Podem ser pessoas que precisam de nosso apoio, compreensão, ajuda, promoção, atenção, misericórdia, perdão e solidariedade. Muitas vezes pensamos que vamos ajudar os outros. De repente, somos mais ajudados do que ajudamos. Quem dá de si acaba recebendo mais do que oferece. É preciso o olhar da fé, da comiseração, da humildade, do respeito à diversidade… Muitas vezes podemos julgar mal, discriminar, excluir. Isso pode acontecer até com quem convive conosco no dia a dia… Não é feliz e não é recompensado quem julga mal, condena e espalha “veneno” contra os outros, até pelos meios de comunicação. Isso é feito muito pela internet (whatsApp, facebook e outros).

Quem caminha com reta intenção de fazer o bem ao semelhante, imitando o bom samaritano na parábola que Jesus conta, só atrai para si as consequências de tudo fazer como ao próprio Filho de Deus. Não ficará sem a recompensa. Logo que os dois discípulos de Emaús reconheceram Jesus ressuscitado, voltaram imediatamente a Jerusalém para comunicar o fato aos apóstolos. Também nós, que reconhecemos pela fé a Jesus vencedor da morte e o vislumbramos em todo o semelhante. Nós o ajudamos como ao próprio Mestre e não nos aquietamos enquanto não fizermos tudo para anunciar sua pessoa e seus ensinamentos a  quem pudermos, como verdadeira ação missionária. Aliás, antes de subir ao céu, Jesus deu a missão aos discípulos: “Ide e ensinai a todos a observar tudo o que vos mandei” (Mt 28,20). Afinal, se Ele venceu a morte temos a certeza de que não estamos seguindo a um simples fundador de religião humana a mais, que não tem o poder, por si mesmo, de nos dar a recompensa com a vida eterna feliz!