Acompanhar os jovens

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

A Santa Igreja Católica, como mãe e mestre em humanidade, indubitavelmente sempre esteve a serviço da juventude para revelar-lhe a Boa Nova do Evangelho. Todavia, ela encontra, em certos momentos, dificuldades na transmissão da sua mensagem de Amor. O mundo, em nossa obscura atualidade, difunde o individualismo vendo o próximo como meio de obter vantagens, e não a imagem de Deus no rosto de cada irmão e irmã que se encontra no caminho. Por este motivo, os jovens, infelizmente, são levados, por certas influências e contextos, a acatar esses ideais antiéticos e esquecer a moral cristã católica que aprenderam na transmissão da fé de seus pais e avós.

 Durante a adolescência, começam a questionar vários pontos filosóficos da existência e procedência perante algumas circunstâncias. Isso deve, com toda certeza, ser analisado pela Igreja, visto que o receptor da palavra de Deus é esse jovem em crise procurando ali a resposta. Com a graça de Deus, ele pode ser bem acolhido e encontrar um descanso para o fardo pesado que carrega. Porém, é importante que a Igreja seja acolhedora, disposta, e possua um modelo de formação correta para ajudá-lo, senão o jovem poderá procurar apoio “no mundo” que, lamentavelmente, oferece as respostas erradas e, assim, pode acontecer de convencê-lo a deixar a sua fé em segundo plano, pensando se tratar de assunto não importante.

A fé é um Dom de Deus que deve ser conservado e fortificado durante toda vida. As catequeses de Primeira Eucaristia, Perseverança e Crisma e demais preparações para os Sacramentos são iniciação à vida cristã e têm um papel deveras importante quando o assunto é fé, uma vez que a fé recebida em casa, na Igreja Doméstica (Família), será ali aprofundada e alicerçada com melhor compreensão. Para tanto, é necessária uma maior formação dos catequistas das paróquias para que estes saibam transmitir a mensagem de uma maneira facilmente compreendida pelo jovem, sem perder a sua essência.

Durante esta faixa etária também se começa, na maioria dos casos, a exteriorização da vocação. Dado isso, é necessário um acompanhamento eclesiástico para o discernimento vocacional. Aliás, este é o tema que o Papa Francisco escolheu para o próximo Sínodo dos Bispos. Um trabalho juntamente com a catequese de Crisma é um dos caminhos que pode ser adotado pelo sacerdote para esse projeto vocacional. É importante ressaltar: tal acompanhamento se faz necessário não somente para jovens com desejo de seguir as vocações sacerdotal e religiosa, e sim para as demais vocações. A Igreja, sendo uma mãe acolhedora, deve ajudar esse seu filho em suas dificuldades, e o sacerdote deve ser a figura do Bom Pastor, conduzindo as ovelhas com suas mãos.

 É preocupante a não perseverança das crianças e dos jovens quando, após celebrar os sacramentos, deixam as nossas comunidades, o que nos faz aprofundar sobre o tipo de trabalho que foi realizado nessa iniciação. Muitos as deixam alegando que aquilo não lhes interessou ou ainda que aquilo não faz sentido. Por isso, uma maior dinamicidade e uma mudança no modo de evangelizar se fazem necessárias nos dias de hoje para que ocorra uma maior fidelidade.

A Santa Igreja Católica, como o próprio nome diz, é universal, mas, como nos recorda São Paulo em suas cartas, ela também se faz local, enfrentando problemas e desafios distintos, dependendo do cenário onde se encontra. Por isso, é necessário analisar cada diocese, cada paróquia, cada comunidade e cada caso, para que assim possa se tomar a atitude correta. Assim sendo, o Sínodo convocado pelo Papa se faz importante, uma vez que há o compartilhamento de ideias e vivência de cada um ali presente. Essa partilha de sabedoria ajuda-os a descobrir novos caminhos para a ação e novos meios de ajuda aos que mais precisam.

“O Sínodo dos Jovens destina-se, portanto, a acompanhar a juventude em seu modo de vida em direção à maturidade. A Igreja espera que, através de um processo de discernimento bem orientado, os jovens possam descobrir o seu projeto de vida e realizá-lo com alegria, abrindo-se ao encontro com Deus e com os homens, e participando ativamente na edificação da Igreja e da sociedade”, diz o site da Conferência dos Bispos do Brasil. Tal afirmação, portanto, mostra que a Igreja necessita dos jovens em seu meio e os chama para esse serviço de evangelizar. “Eles são os santos do novo milênio”, como diria São João Paulo II.

O tema escolhido pelo Papa Francisco para o Sínodo dos Bispos expressa a preocupação pastoral da Igreja com os jovens, e isso é um ponto positivo, pois lhes mostra o quão importante eles são.

“Caros jovens, só Jesus conhece o vosso coração e os vossos anseios mais profundos. Só Ele, que vos amou até à morte (cf. Jo 13,1) é capaz de saciar as vossas aspirações. As Suas palavras são de vida eterna, palavras que dão sentido à vida. Ninguém, senão Jesus, poderá dar-vos a verdadeira felicidade”. Essa foi uma máxima de São João Paulo II em sua mensagem em preparação para a Jornada Diocesana da Juventude em 08/03/2003, mas que se faz tão atual nesse cenário em que o mundo se encontra. É necessário mostrar a veracidade das palavras desse Papa da Juventude! Só em Cristo encontra-se a verdadeira felicidade, porém, os que não são acolhidos e não foram bem formados buscam as ‘alegrias momentâneas’ que “o mundo” oferece; “alegrias” porque na verdade é a autodestruição.

A família, abordada no conteúdo da exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia, é outro ponto que a Igreja deve investir para que, em conjunto, possa atingir o jovem de uma maneira mais próxima e acolhedora, de modo que ele participe de forma mais engajada nessa missão cristã.

Em suma, é muito confortador ver tal atitude do Papa Francisco juntamente com os Bispos da Santa Igreja Católica, que estão trabalhando para mudar esta triste realidade, onde adolescentes deixam a sua fé em segundo plano para conseguirem ser aceitos em um ambiente onde a antiética e o individualismo dominam. A expectativa é que nesse Sínodo se encontre um caminho no qual a juventude consiga receber a Boa Nova em uma linguagem atualizada (mas mantendo sua essência), bem clara (para que não tenham mais dúvidas sobre sua fé) e, por fim, encontre na Igreja uma comunidade e um local onde possam tirar suas dúvidas e descobrir, assim, a verdadeira felicidade que só se encontra em Cristo Jesus.

 

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