A Família protagonista da Ecologia Integral. Papa Francisco, A.L. nº 277

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ)

No capítulo VII da Encíclica Pós Sinodal Amoris Laetitia, que enfoca a educação dos filhos, no nº 277, o Papa Francisco faz uma afirmação muito inspirada sobre a família: A família é a protagonista de uma ecologia integral, porque constitui o sujeito social primário que contém no seu interior os dois princípios-base da civilização humana sobre a terra: o princípio da comunhão e o princípio da fecundidade.

 De veras a família é o principal elo de comunhão social, planetário e universal. Constitui o eixo axial que vertebra e da consistência ao tecido social, pois afirma a solidariedade entre as pessoas e entre as gerações. Por isso se torna a célula primária da convivência humana, desenvolvendo como ensinava São João Paulo II a genealogia da pessoa. Mas também ela é o berço, fonte e santuário da vida, onde ela nasce, é acolhida, cresce e se multiplica na fecundidade como dom divino. Acreditar na família é investir na teia fundamental da vida, pois, ela torna-se o centro do cuidado, educação e reverência da vida humana como um valor pleno de dignidade e preciosidade. Ao defender a casa doméstica estamos prestando um valiosíssimo serviço de proteção à casa comum, e sem a preservação da família a luta pela integridade da vida no planeta se torna incompleta e incoerente. Na mesma Encíclica o Papa destaca o núcleo familiar como contexto educativo fundamental, lembrando as virtudes sociais e as habilidades e capacidades ambientais que levam aos filhos e a toda a família, a um consumo responsável, que reduz a pegada ecológica e ajuda a desenvolver as atitudes da sobriedade, austeridade e simplicidade de vida.

Precisamos de uma família que imitando a Noé possa celebrar com o Pai das misericórdias uma Aliança de Vida, tornando-se uma arca que testemunhe e irradie a beleza de ser e de se ter uma família, principal e mais valioso recurso do Estado, da sociedade e da Igreja, eco-sistema prioritário na conservação da vida e da proteção à criação. Podemos afirmar sem temor a nos equivocar, que a salvação da humanidade e da terra passam pela família, e que ela será sempre o patrimônio mais nobre e precioso da estirpe e cultura humana. Deus seja louvado!

 

A alegria do amor: a carta do Papa “sobre o amor na família”

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta (RS)

No último dia 08 de abril foi apresentada a toda a Igreja a tão esperada carta do Papa Francisco sobre a família. Ela foi preparada por dois sínodos dos bispos, em 2014 e 2015. Houve uma ampla participação de toda a Igreja, apresentando sugestões e inquietações sobre a complexa situação da família hoje. Apresento alguns pontos que poderão servir para nossas famílias, comunidades e a Pastoral Familiar acolher o documento, certos de que, como disse o Papa, “não existem simples receitas”.

Em primeiro lugar o título da Exortação Apostólica AmorisLaetitia (a alegria do amor), oferece a perspectiva de um olhar positivo sobre a família. “O anúncio cristão que diz respeito à família é deveras uma boa notícia.” (AL 1). E continua dizendo que as famílias “não são um problema, são sobretudo uma oportunidade.” (AL 7).

O Santo Padre, seguindo o caminho realizado nos dois sínodos que precederam a Exortação, mantém sempre um olhar realista e concreto sobre a família. Percebe-se um desejo de proximidade da realidade familiar como ela se apresenta, evitando abstrações. Reconhece que, às vezes, “apresentamos um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são”. (AL 36).

Por isso, sugere que apresentemos o matrimônio “como um caminho dinâmico de crescimento” (AL 37). É a compreensão da realidade familiar como um processo de construção permanente, tendo o ideal diante de si. “Nenhuma família é uma realidade perfeita e confeccionada de uma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar.” (AL 325). Esta compreensão, “impede-nos de julgar com dureza aqueles que vivem em condições de grande fragilidade”. (AL n.325). Porém, nos convida a avançar: “Avancemos, famílias: continuemos a caminhar!” (AL 325).

O olhar pastoral está presente em todo o texto e atinge seu ponto mais delicado e complexo quando propõe aos bispos e padres, ao mesmo tempo, a clareza doutrinal para evitar confusões e a atenção à complexidade das situações particulares. “Por isso, ao mesmo tempo que se exprime com clareza a doutrina, há que se evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição.” (AL 79). Sobretudo no capítulo oitavo, trata de como “acompanhar, discernir e integrar” as feridas ou situações de fragilidade existentes nas famílias. Por isso, impõe-se o necessário discernimento pastoral para cada caso específico, na “lógica da misericórdia pastoral”, que acompanha “com misericórdia e paciência as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que vão se construindo dia após dia”. (AL 308). Parte do princípio que ninguém deve se sentir excluído ou excomungado. Fala diretamente aos divorciados e recasados, que “devem ser integrados mais intensamente nas comunidades cristãs” (AL 299) e “sua participação pode manifestar-se em diferentes serviços eclesiais”. (AL 299). Este discernimento é a exigente e delicada missão dos sacerdotes (cf. AL 300), que deve levar em conta os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes. “Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão em uma situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante.” (AL 301).

Enfim, convido, sobretudo aos casais, pais e mães de família e aos jovens namorados a lerem e conhecerem estas belas reflexões do Santo Padre sobre a realidade familiar.