Reconhecer o caminhante

Dom José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG)

 

Após a ressurreição Jesus se mostra a muitas testemunhas e lhes deu a missão de anunciar a todos sobre quem Ele é e seus ensinamentos. Não bastaria dizer sobre seus milagres. É preciso dar fé à sua natureza divina, além da humana, para não  segui-lo só por interesses ou busca de soluções de ordem sensível e passageira. Sua pessoa veio nos garantir a recompensa se vivermos segundo seus ensinamentos.  Pedro lembra que seremos recompensados de acordo com o que praticamos nesta vida (Cf. 1 Pedro 1,17). Fazendo o “dever de casa” aqui na terra, temos a certeza de que Ele nos dará o prêmio de eternidade feliz.

A caminho de Emaús dois discípulos foram alcançados por um homem, sem eles perceberem que era o próprio Jesus ressuscitado. Qual não foi sua surpresa quando tomava refeição com eles, no lugar para onde se dirigiram. O Mestre abençoou o pão como na última ceia. Abriram-se-lhes os olhos! (Cf. Lucas 24,13-35). Reconheceram quem era  o caminhante com eles!

Nos passos da vida convivemos com muitas pessoas. Às vezes não sabemos quem são. Às vezes são pessoas santas, que podem nos ajudar a santificar-nos também. Podem ser pessoas que precisam de nosso apoio, compreensão, ajuda, promoção, atenção, misericórdia, perdão e solidariedade. Muitas vezes pensamos que vamos ajudar os outros. De repente, somos mais ajudados do que ajudamos. Quem dá de si acaba recebendo mais do que oferece. É preciso o olhar da fé, da comiseração, da humildade, do respeito à diversidade… Muitas vezes podemos julgar mal, discriminar, excluir. Isso pode acontecer até com quem convive conosco no dia a dia… Não é feliz e não é recompensado quem julga mal, condena e espalha “veneno” contra os outros, até pelos meios de comunicação. Isso é feito muito pela internet (whatsApp, facebook e outros).

Quem caminha com reta intenção de fazer o bem ao semelhante, imitando o bom samaritano na parábola que Jesus conta, só atrai para si as consequências de tudo fazer como ao próprio Filho de Deus. Não ficará sem a recompensa. Logo que os dois discípulos de Emaús reconheceram Jesus ressuscitado, voltaram imediatamente a Jerusalém para comunicar o fato aos apóstolos. Também nós, que reconhecemos pela fé a Jesus vencedor da morte e o vislumbramos em todo o semelhante. Nós o ajudamos como ao próprio Mestre e não nos aquietamos enquanto não fizermos tudo para anunciar sua pessoa e seus ensinamentos a  quem pudermos, como verdadeira ação missionária. Aliás, antes de subir ao céu, Jesus deu a missão aos discípulos: “Ide e ensinai a todos a observar tudo o que vos mandei” (Mt 28,20). Afinal, se Ele venceu a morte temos a certeza de que não estamos seguindo a um simples fundador de religião humana a mais, que não tem o poder, por si mesmo, de nos dar a recompensa com a vida eterna feliz!

 

 

Diálogo com os filhos

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Ao redor do mundo, jovens encontram diariamente barreiras a serem enfrentadas e desafios a serem superados. Nesta etapa da vida, é comum se passar pela fase da busca do sentido de sua existência, muitas vezes vivida de maneira solitária e sofrida, tendo assim que buscar uma fuga de toda essa pressão que a sociedade exerce sobre eles. Este ponto é o chamado nó crítico da questão. A fuga muitas vezes é vista de forma negativa, porém é necessária, em certos momentos, para a reorganização de ideias e pensamentos que possam estar em caos. Todos são chamados a subir o Monte, que é o Cristo Ressuscitado, para contemplarem a sua Onipotência.

Por estarem nesse momento de dúvida e anseio, é necessário incentivo ao diálogo familiar, reforço dos laços fraternais e a prática que promova a boa convivência. Escutá-los, entendê-los e orientá-los a descobrir o grande valor da vida são pontos de superação das dificuldades já citadas.

Caso o jovem não receba apoio familiar e eclesiástico nesse momento, ele o buscará em outros lugares, e este é o verdadeiro perigo que a juventude corre. O “mundo” oferece a ele prazeres momentâneos, mas que certamente acarretam consequências duradouras. Não se pode moralizar ou banalizar as atitudes tomadas nesse período como uma simples “falta do que fazer” ou ainda “bobagem” de adolescentes. Na verdade, trata-se de uma cultura na qual a violência é tida com grande espetacularização e que todos os dias é incentivada por programas sensacionalistas, preconceituosos e superficiais. Trata-se também de uma desvalorização da vida, que atinge principalmente esta faixa etária. Portanto, é importante tratar com seriedade tal problemática.

Infelizmente, se tem acompanhado nos noticiários e meios de comunicação uma verdadeira tragédia. O chamado “jogo da Baleia Azul” esteve em foco ultimamente, pois, por conta dessa “brincadeira” vários jovens retiraram a própria vida. Este jogo consiste em cinquenta desafios que envolvem automutilação, atividades arriscadas em geral e por fim o suicídio. O motivo pelo qual uma pessoa se dispõe a fazer isto depende de cada caso, porém, a depressão é um fator comum em quase todos. Como já foi dito, é necessário um acompanhamento familiar e eclesiástico da juventude, visto que esta é uma faixa etária muito perturbada e que necessita de apoio. A sociedade difunde valores onde a vida fica em segundo plano e a morte é colocada em foco, como se pode ver pela série chamada “thirteen reasons why”, que aborda o tema do suicídio juvenil.

A XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos irá acontecer diante desse cenário apresentado. Um contexto difícil, mas que necessita de uma atitude mais engajada da Igreja. Em sua missão de defender e difundir a vida, ela precisa afrontar tais problemas, ir ao encontro dos que precisam e por fim transmitir sua Mensagem de Amor.

Muitos católicos, ao se depararem com uma situação de abalo emocional e/ou psicológico, procuram os sacerdotes para um aconselhamento. Isso é algo bom, uma vez que mostra a figura materna da Igreja ajudando seu filho nos momentos de penúria. Contudo, é importante lembrar que o número de sacerdotes disponíveis não é proporcional ao número de pessoas que realmente necessitam de ajuda. Então, entra em conjunto a família, que deve colaborar para a solução. Além do mais, existem os casos em que a pessoa, seja por qual motivo for, deixa de buscar auxílio. Então, cabe aos que estão ao seu redor perceber as atitudes estranhas ou contrárias ao cotidiano dela, que podem evidenciar que algo está errado.

Destaca-se que a Igreja não se trata somente do clero e da hierarquia eclesiástica. Ela corresponde a todo o povo de Deus. O povo de Deus são os grandes protagonistas da ação evangelizadora da Igreja. Por isso, é papel de todo católico, em sua essência, ajudar aqueles que necessitam, pois disse Jesus: “todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequenos, foi a mim que o deixastes de fazer!” (Mt 25,45). Algumas pessoas, nesses momentos, podem pensar que não sabem fazer nada, não têm capacidade para ajudar… Porém, não é preciso grandes coisas. Ao se aproximar e conversar com a pessoa, ao perceber que algo está errado, e falar para alguém mais que julga mais competente, já se está realizando ações que ajudam a solucionar algumas questões. É a questão da proximidade.

A fé é um Dom de Deus deveras importante para todos. Nela se encontra a resposta para várias dúvidas que podem aparecer durante a vida. Lamentavelmente, ela tem sido deixada em segundo plano por muitos, devido a todo esse contexto de repúdio à religião criada por ideologias atuais. É cientificamente provado que a fé auxilia o ser humano em suas atitudes e o ajuda psicologicamente, mas mesmo assim o ser humano, como outrora, se julga autossuficiente, e quer deixar Deus de lado, mesmo no final tendo caído em desgraça. É preciso ir ao encontro dessa juventude iludida e mostrar-lhe o verdadeiro valor da fé na vida de cada um.

Juntamente com a fé caminha a vocação de cada cristão. Tendo isto em vista, esse é outro ponto em que se deve investir. Uma implantação de encontros vocacionais para todos os jovens, não só os vocacionados para o sacerdócio e ordens religiosas, é um caminho para uma ajuda eclesiástica na questão das escolhas difíceis nessa faixa etária. Isto, além de proporcionar uma melhor formação para cada um, cria um laço fraternal em meio àquela comunidade. Por ser só trabalhada de modo aprofundado entre os vocacionados religiosos e sacerdotais, a vocação tem perdido um pouco do seu papel e conhecimento nas comunidades. Muitos católicos não sabem quais são as vocações, ou ainda pior, o que são as vocações. Isso compromete muito a Igreja no seu projeto de evangelização, pois, não sabendo sua vocação, não se sabe o papel que se deve ser desempenhado no plano de Deus.

Em síntese, o Sínodo dos Bispos foi convocado em um especial contexto, no qual o rebanho está desorientado e necessita ouvir a voz de seu Pastor, nosso amado Papa Francisco, para que assim possa continuar a sua missão. O tema sobre os jovens também foi importantíssimo, uma vez que este grupo necessita de auxilio familiar e eclesiástico imediato, visto as dificuldades que enfrentam diariamente por conta dos transtornos da adolescência. A esperança é que as decisões ali tomadas sejam colocadas em prática para que assim a Santa Igreja Católica consiga exercer esse papel de mãe acolhedora, que sempre está de braços abertos para acolher estes filhos que, assim como na parábola do filho pródigo, se perderam no mundo e buscam agora uma reconciliação com sua família.

 

Acompanhar os jovens

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

A Santa Igreja Católica, como mãe e mestre em humanidade, indubitavelmente sempre esteve a serviço da juventude para revelar-lhe a Boa Nova do Evangelho. Todavia, ela encontra, em certos momentos, dificuldades na transmissão da sua mensagem de Amor. O mundo, em nossa obscura atualidade, difunde o individualismo vendo o próximo como meio de obter vantagens, e não a imagem de Deus no rosto de cada irmão e irmã que se encontra no caminho. Por este motivo, os jovens, infelizmente, são levados, por certas influências e contextos, a acatar esses ideais antiéticos e esquecer a moral cristã católica que aprenderam na transmissão da fé de seus pais e avós.

 Durante a adolescência, começam a questionar vários pontos filosóficos da existência e procedência perante algumas circunstâncias. Isso deve, com toda certeza, ser analisado pela Igreja, visto que o receptor da palavra de Deus é esse jovem em crise procurando ali a resposta. Com a graça de Deus, ele pode ser bem acolhido e encontrar um descanso para o fardo pesado que carrega. Porém, é importante que a Igreja seja acolhedora, disposta, e possua um modelo de formação correta para ajudá-lo, senão o jovem poderá procurar apoio “no mundo” que, lamentavelmente, oferece as respostas erradas e, assim, pode acontecer de convencê-lo a deixar a sua fé em segundo plano, pensando se tratar de assunto não importante.

A fé é um Dom de Deus que deve ser conservado e fortificado durante toda vida. As catequeses de Primeira Eucaristia, Perseverança e Crisma e demais preparações para os Sacramentos são iniciação à vida cristã e têm um papel deveras importante quando o assunto é fé, uma vez que a fé recebida em casa, na Igreja Doméstica (Família), será ali aprofundada e alicerçada com melhor compreensão. Para tanto, é necessária uma maior formação dos catequistas das paróquias para que estes saibam transmitir a mensagem de uma maneira facilmente compreendida pelo jovem, sem perder a sua essência.

Durante esta faixa etária também se começa, na maioria dos casos, a exteriorização da vocação. Dado isso, é necessário um acompanhamento eclesiástico para o discernimento vocacional. Aliás, este é o tema que o Papa Francisco escolheu para o próximo Sínodo dos Bispos. Um trabalho juntamente com a catequese de Crisma é um dos caminhos que pode ser adotado pelo sacerdote para esse projeto vocacional. É importante ressaltar: tal acompanhamento se faz necessário não somente para jovens com desejo de seguir as vocações sacerdotal e religiosa, e sim para as demais vocações. A Igreja, sendo uma mãe acolhedora, deve ajudar esse seu filho em suas dificuldades, e o sacerdote deve ser a figura do Bom Pastor, conduzindo as ovelhas com suas mãos.

 É preocupante a não perseverança das crianças e dos jovens quando, após celebrar os sacramentos, deixam as nossas comunidades, o que nos faz aprofundar sobre o tipo de trabalho que foi realizado nessa iniciação. Muitos as deixam alegando que aquilo não lhes interessou ou ainda que aquilo não faz sentido. Por isso, uma maior dinamicidade e uma mudança no modo de evangelizar se fazem necessárias nos dias de hoje para que ocorra uma maior fidelidade.

A Santa Igreja Católica, como o próprio nome diz, é universal, mas, como nos recorda São Paulo em suas cartas, ela também se faz local, enfrentando problemas e desafios distintos, dependendo do cenário onde se encontra. Por isso, é necessário analisar cada diocese, cada paróquia, cada comunidade e cada caso, para que assim possa se tomar a atitude correta. Assim sendo, o Sínodo convocado pelo Papa se faz importante, uma vez que há o compartilhamento de ideias e vivência de cada um ali presente. Essa partilha de sabedoria ajuda-os a descobrir novos caminhos para a ação e novos meios de ajuda aos que mais precisam.

“O Sínodo dos Jovens destina-se, portanto, a acompanhar a juventude em seu modo de vida em direção à maturidade. A Igreja espera que, através de um processo de discernimento bem orientado, os jovens possam descobrir o seu projeto de vida e realizá-lo com alegria, abrindo-se ao encontro com Deus e com os homens, e participando ativamente na edificação da Igreja e da sociedade”, diz o site da Conferência dos Bispos do Brasil. Tal afirmação, portanto, mostra que a Igreja necessita dos jovens em seu meio e os chama para esse serviço de evangelizar. “Eles são os santos do novo milênio”, como diria São João Paulo II.

O tema escolhido pelo Papa Francisco para o Sínodo dos Bispos expressa a preocupação pastoral da Igreja com os jovens, e isso é um ponto positivo, pois lhes mostra o quão importante eles são.

“Caros jovens, só Jesus conhece o vosso coração e os vossos anseios mais profundos. Só Ele, que vos amou até à morte (cf. Jo 13,1) é capaz de saciar as vossas aspirações. As Suas palavras são de vida eterna, palavras que dão sentido à vida. Ninguém, senão Jesus, poderá dar-vos a verdadeira felicidade”. Essa foi uma máxima de São João Paulo II em sua mensagem em preparação para a Jornada Diocesana da Juventude em 08/03/2003, mas que se faz tão atual nesse cenário em que o mundo se encontra. É necessário mostrar a veracidade das palavras desse Papa da Juventude! Só em Cristo encontra-se a verdadeira felicidade, porém, os que não são acolhidos e não foram bem formados buscam as ‘alegrias momentâneas’ que “o mundo” oferece; “alegrias” porque na verdade é a autodestruição.

A família, abordada no conteúdo da exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia, é outro ponto que a Igreja deve investir para que, em conjunto, possa atingir o jovem de uma maneira mais próxima e acolhedora, de modo que ele participe de forma mais engajada nessa missão cristã.

Em suma, é muito confortador ver tal atitude do Papa Francisco juntamente com os Bispos da Santa Igreja Católica, que estão trabalhando para mudar esta triste realidade, onde adolescentes deixam a sua fé em segundo plano para conseguirem ser aceitos em um ambiente onde a antiética e o individualismo dominam. A expectativa é que nesse Sínodo se encontre um caminho no qual a juventude consiga receber a Boa Nova em uma linguagem atualizada (mas mantendo sua essência), bem clara (para que não tenham mais dúvidas sobre sua fé) e, por fim, encontre na Igreja uma comunidade e um local onde possam tirar suas dúvidas e descobrir, assim, a verdadeira felicidade que só se encontra em Cristo Jesus.

 

A importância dos sacramentos da “Iniciação Cristã” na Igreja

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

A Assembleia Geral da CNBB, ocorrendo entre os dias 26 de abril e 04 de maio, está debatendo a importância da Iniciação à vida Cristã na Igreja e, consequentemente, também os sacramentos do Batismo, da Confirmação (ou Crisma) e da Eucaristia. Não se pretende, evidentemente, esgotar o amplo assunto, que tem um texto base para ser debatido e posteriormente votado para um futuro documento de nossa conferência episcopal sobre tão importante questão.

A iniciação à vida cristã tem um dinamismo próprio, que nos vem da antiga tradição da Igreja e que tanto necessitamos hoje. A nossa Arquidiocese tem um trabalho já há um bom tempo sendo construído e aprofundado.

No passado tínhamos a preparação para os Sacramentos, agora a ênfase é a vida cristã, porém sempre é importante, nestes momentos de definição, aprofundarmos um pouco sobre os Sacramentos ligados à Iniciação Cristã.

É bom recordar a importante definição teológico-linguística do termo Sacramento de acordo com a explanação feita pela Igreja: “A palavra grega mysterion foi traduzida, no latim, por dois termos: mysterium e sacramentum. Na segunda interpretação, o termo sacramentum exprime prevalentemente o sinal visível da realidade oculta da salvação, indicada pelo termo mysterium. Neste sentido, o próprio Cristo é o mistério da salvação: ‘Nem há outro mistério senão Cristo’ (Santo Agostinho. Epistulale 187, 11,34: Patrologia Latina 33,845). A obra salvífica da sua humanidade santa e santificadora é o sacramento da salvação, que se manifesta e atua nos sacramentos da Igreja (que as Igrejas do Oriente chamam também ‘os santos mistérios’). Os sete sacramentos são os sinais e os instrumentos pelos quais o Espírito Santo derrama a graça de Cristo, que é a Cabeça, na Igreja, que é o seu Corpo. A Igreja possui, pois, e comunica a graça invisível que significa: e é neste sentido analógico que é chamada ‘sacramento’”. (Catecismo da Igreja Católica, n. 774)

Como se vê, podemos formular a seguinte interpretação do conteúdo sacramental na vida eclesial: ele é um sinal (semeion, em grego) eficiente que realiza aquilo que significa ou assinala. Desse modo, teríamos uma importante definição: a santíssima Humanidade de Cristo é o sinal eficiente ou transmissor da graça divina; a Igreja, Seu Corpo Místico prolongado na História (cf. Cl 1,24) também o é. Ora, a Liturgia dessa mesma Igreja continua essa função com seus ritos sagrados, oferecendo aos fiéis sete canais da graça divina a nos levar à vida eterna, à qual todos somos chamados, dado sermos filhos no Filho (cf. Gl 4,5). Eis, porque podemos fazer um esquema de quanto foi dito: Vida Eterna → Jesus Cristo → Igreja → Sete Sacramentos → Graça Santificante → Cristão.

Importa, aliás, a propósito da eficácia – e não do mero simbolismo – sacramental, recordar Tertuliano (falecido em 220 aproximadamente), ao escrever sobre o Batismo e a Eucaristia, em vista da ressurreição do corpo e da alma no último dia (cf. Jo 6,40), que “A carne é o eixo da salvação… Lava-se o corpo a fim de que a alma seja purificada; unge-se o corpo a fim de que a alma seja consagrada… O corpo é nutrido pelo Corpo e Sangue de Cristo, a fim de que a alma se alimente de Deus… Não podem, pois, ser separados na recompensa, já que estão unidos nas obras de salvação”. (Sobre a Ressurreição da Carne 8, Patrologia Latina 2,852)

Santo Agostinho de Hipona († 430) também ensinava: “O que vedes, caríssimos, na mesa do Senhor, é pão e vinho; mas esse pão e esse vinho, acrescentando-se-lhes a palavra, tornam-se corpo e sangue de Cristo… Tira a palavra, e tens pão e vinho; acrescenta a palavra, e já tens outra coisa. E essa outra coisa o que é? Corpo e Sangue de Cristo. Tira a palavra, e tens pão e vinho; acrescenta a palavra, e tens um sacramento. A isso tudo vós dizeis: ‘Amem’. Dizer ‘Amem’ é subscrever. ‘Amem’ em latim significa: ‘É verdade’”. (Sermão 6,3)

Os sacramentos não representam apenas, mas efetuam ou realizam aquilo que significam, uma vez que a Palavra de Deus é viva e eficaz, de modo que, no plano salvífico, a palavra proclama o feito divino e o feito confirma essa palavra. Daí se poder afirmar que temos a Palavra → Feito e, em contrapartida complementadora, o Feito → Palavra. Daí se entender que o contato do cristão com Cristo, o Mestre, não se dá como em uma escola de Filosofia da Antiguidade ou de qualquer outra época, de modo apenas psicológico ou afetivo. Ao contrário, é uma união ontológica (do ser): o cristão é tocado, diretamente, por Cristo por meio dos sete sacramentos da Igreja, transmissores da graça divina a cada homem e mulher de todos os tempos e lugares.

Isso é o que nos ensina a propósito da relação Palavra e Feito, o Concílio Vaticano II: “Esta ‘economia’ da revelação realiza-se por meio de ações e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido. Porém, a verdade profunda tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos, por esta revelação, em Cristo, que é, simultaneamente, o mediador e a plenitude de toda a revelação”. (Constituição Dei Verbum, n. 2)

Isso posto, convém que digamos uma palavra a propósito da ação dos Sacramentos na Igreja. Ela ensina que todo sacramento age ex opere operato, ou seja, por efeito próprio ou do rito em si, de modo que independe da santidade do ministro humano aplicador do rito. Em outras palavras, cada um dos sete sacramentos age por força própria, porque é Cristo, o ministro principal, a agir garantindo a autenticidade do rito, desde que nesse rito sejam utilizadas a matéria e a forma própria (na Eucaristia, a matéria é o pão e o vinho e a forma a repetição das palavras do Senhor na última Ceia).

Por aí vemos que Cristo age nos sacramentos não obstante a indignidade, maior ou menor, do ministro que O representa. O pecado ou a infidelidade do ministro não afetam a validade do sacramento. Por exemplo, um sacerdote pouco digno que celebre a Eucaristia, sendo validamente ordenado, aplicando a matéria e a forma apropriadas e tendo a intenção de fazer o que fez o Senhor Jesus, celebra de modo válido para o bem do Povo de Deus. Certo é que se espera do ministro ordenado que aja como tal e não à moda de um mero funcionário do sagrado e sem fé. Deve ele ter os mesmos sentimentos de Cristo (cf. Fl 2,5). Todavia, esse aspecto pessoal do ministro não invalida o sacramento, conforme já apontava São Tomás de Aquino na Suma Teológica III, q. 6, at. 4.

Com os sacramentos – que não dependem de forças tão somente humanas, mas da ação divina – não há dispensa do receptor de ter boas disposições a fim de que a graça recebida dê frutos. Quem recebe um sacramento em estado objetivo de pecado, além de não alcançar a graça daquele sacramento, ainda comete mais um pecado, o do sacrilégio, como lembra o Apóstolo Paulo no que concerne à Eucaristia (cf. 1Cor 11,29).

Isso porque, apesar da ação divina objetiva no sacramento, Deus respeita a liberdade de cada fiel, de modo que Santo Agostinho de Hipona podia afirmar: “Aquele que te criou sem ti, não te salva sem ti”. Quem se fecha à graça comete o pecado contra o Espírito Santo, pecado impossibilitador da salvação eterna (cf. Mt 12,31-32). É o caso em que Deus tudo faz pelo ser humano, mas este O responde com desdém, desperdiçando a graça oferecida e, por conseguinte, afastando-se d’Ele.

Diante desse quadro é que importa, e muito, a reflexão sobre a iniciação à vida cristã, que sejamos ajudados pela compreensão dos três sacramentos – canais da graça divina: o Batismo, a Crisma e a Eucaristia.

O vai e vem

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba, MG

Passado o sepultamento de Jesus, dois de seus discípulos saíram de Jerusalém indo em direção a Emaús. Pelo caminho foram surpreendidos com a presença de um transeunte. Jesus caminha com eles e os incita a refletir sobre o que havia acontecido, mas não se deram conta de que o companheiro era o próprio Cristo, que só foi reconhecido em Emaús, no momento da partilha, no jantar.

A parábola dos discípulos de Emaús retrata a insatisfação dos dois, que caminham onze quilômetros. Quando reconheceram a presença de Jesus, ressuscitado, voltaram para Jerusalém com novas forças para anunciar aos outros discípulos a alegria pelo que tinha acontecido. Esses fatos, vivenciados e contados pelos apóstolos, abrem caminho para uma nova dimensão no plano da Salvação.

Olhando para o nosso país, sentimos que faltam lideranças realmente comprometidas com o bem do povo para recuperar a autoestima dos brasileiros. Os problemas têm sido tão graves que veem desestimulando até o sentido pleno da vida. Parece ser reflexo de uma cultura que não consegue mais reconhecer a presença de Deus como Aquele que é capaz de construir na verdade e na justiça.

Não é um “vai e vem”, mas um vai sem volta, porque as coisas estão indo de mal a pior. Chegamos ao fundo do poço com a dimensão da gravidade na gestão pública. Parece que toda obra pública é feita com faturamento fraudulento, enriquecendo aqueles que deveriam estar defendendo o erário público. Só vamos ter volta quando o país passar por um processo de conversão, de sacrifício.

A ressurreição de Jesus Cristo provocou nos apóstolos uma coragem de ação transformadora. No caso do Brasil, com uma política econômica excludente, que sacrifica sua população mais pobre, somente a força do povo será capaz de mudar o status quo. Se se continua ainda acreditando nos políticos que temos, o futuro poderá ser drástico para as novas gerações.

O primeiro de maio, dia do operário São José, é espaço de reflexão para todos os trabalhadores. Muito mais num momento de mais de doze milhões de desempregados no país. Refletir sobre a reforma trabalhista em andamento no Congresso Nacional, feita sem a participação dos principais interessados, que são os trabalhadores. Que seja um dia de aquecer os corações sobre a questão trabalhista.